Você não precisaria ter ouvido
por muito tempo as condenações semi-educadas de Julian Assange do
“complexo militar-industrial” americano para saber que ele estava se
coçando para trair pessoas melhores e mais corajosas do que ele
jamais poderia ser.
Tão logo o WikiLeaks recebeu
documentos do Departamento de Estado, Assange anunciou que oponentes
de regimes e movimentos ditatoriais faziam parte de jogo. Que os
alvos do Talibã, por exemplo, estivessem lutando contra uma força
clerical fascista, que ameaça todo e qualquer bom valor liberal, não
lhe preocupava. Eles haviam se comunicado com diplomatas dos EUA.
Colaboraram com o grande Satã. Sua segurança não importava.
A história do WikiLeaks escrita por David Leigh e
Luke Harding descreve como jornalistas
levaram Assange para o Moro, um clássico restaurante espanhol no
centro de Londres. Um repórter alertou que Assange poria em risco as
vidas de afegãos que haviam colaborado com as forças americanas se
ele colocasse na rede segredos dos EUA sem antes tomar a precaução
básica de remover seus nomes. “Bem, eles são informantes”, Assange
respondeu. “Então, se forem mortos, eles sabiam que isso poderia
ocorrer.” Um silêncio caiu sobre a mesa enquanto repórteres tomavam
consciência do fato daquele que os ingênuos aclamavam como um
pioneiro da nova era de transparência estar disposto a passar listas
de alvos para psicopatas. Eles persuadiram Assange a remover nomes
antes de publicar os documentos afegãos do Departamento de Estado.
Mas os desiludidos sócios de Assange sugerem que essa falha em expôr
“informantes” acabou lhe incomodando.
Hoje em dia é difícil
acreditar, mas pessoas honestas já trabalharam para o WikiLeaks por
todos os motivos corretos. Como eu, eles viam o site como um abrigo,
um espaço protegido onde escritores podiam publicar histórias que
censores autoritários e advogados de certas personalidades teriam de
outra forma suprimido.
James Ball se juntou ao site e
pensou que, humildemente, estava fazendo sua parte para tornar o
mundo um lugar melhor. Ele veio a saber que o WikiLeaks não era o
que parecia quando um sócio de Assange – um homem forte, de barba
cinza, autointitulado “Adam” – lhe perguntou se poderia levantar
todo o material possível que o Departamento de Estado tinha “sobre
os judeus”. Ball descobriu que “Adam” era na verdade Israel Shamir,
um esquisitão perigoso que se utiliza de seis nomes diferentes no
seu trabalho de agitador entre grupos antissemitas da extrema
direita e da extrema esquerda. Assim como assinava embaixo de
teorias de conspiração fascistas, Shamir também estava feliz em
colaborar com a degradante
ditadura brezhneviana da Bielorrússia. Tirania de esquerda,
tirania de direita, enquanto fosse algo antiocidental e anti-Israel,
Shamir não se importava muito.
Nem Assange. Ele elevou Shamir
a representante do WikiLeaks na Rússia e na Europa oriental. Shamir
elogiou a ditadura bielorrussa. Ele comparou os manifestantes
pró-democracia surrados e aprisionados pela KGB a torcedores
hooligans. Em 19 de dezembro de 2010, o Belarus-Telegraf,
um jornal estatal, disse que o WikiLeaks tornara possível à ditadura
identificar “organizadores, instigadores e perturbadores, incluindo
estrangeiros” que haviam se manifestado contra eleições fraudadas.
As provas das traições de
Assange e Shamir eram fortes mas inconclusivas. Dado o histórico de
Shamir, havia bastante espaço para se temer o pior. Mas mesmo hoje
você não pode provar além de qualquer dúvida razoável que o estado
processou este político pró-democracia ou aquele artista liberal por
traição ou colaboração com um poder estrangeiro devido ao fato do
WikiLeaks ter dado os nomes.
Pode-se dizer com certeza, no
entanto, que o envolvimento de Assange com Shamir é forte o bastante
para desacreditar sua alegação de que publicou os documentos na
íntegra porque meus colegas no Guardian inadvertidamente
revelaram o link para um site que ele devia ter tirado do ar. O
WikiLeaks colocou os documentos na rede no último mês com evidente
satisfação, e desde então tenho me perguntado quem seria sua
primeira indubitável vítima. A China pareceu um lugar promissor a se
observar. As autoridades e os jornais pró-regime estão percorrendo
os nomes de centenas de dissidentes e ativistas que pertencem a
minorias étnicas. Até agora, não houveram prisões, embora na China,
como em todo lugar, o arrepiante efeito que o WikiLeaks espalhou fez
com que críticos dos comunistas mordessem a língua.
Na Etiópia, entretanto, Assange
já levou seu primeiro troféu.
Argaw Ashine fugiu do país semana passada, após o WikiLeaks ter
revelado que o repórter havia falado com um oficial da embaixada
americana em Adis Abeba sobre os planos do regime para intimidar a
imprensa independente. O WikiLeaks revelou também que um oficial do
governo contou a Ashine sobre um planejado ataque a jornalistas de
oposição. Assim, Assange e seus colegas colocaram em perigo não
apenas o jornalista. Eles deram aos policiais a dica de que o
jornalista tinha uma fonte no aparato estatal.
Quando precisamos repetir a
frase de Orwell – “muito do pensamento esquerdista é uma espécie de
brincadeira com fogo por gente que nem sequer sabe que fogo é
quente” –, é porque há trabalho a fazer. Primeiro, é preciso que
haja implacável pressão sobre as socialites socialistas e fatigados
soixante-huitards que vibraram com Assange. Bianca Jagger,
Jemima Khan, John Pilger, Ken Loach e gente do tipo tem uma queda
pelo slogan egoísta “não em meu nome”. Eles são homens e mulheres
bem calçados e bem agasalhados que não sabem o que é ter medo na
vida. Ainda assim, estão felizes em permitir que seus nomes sejam
usados por Assange enquanto ele traz o medo para a vida de outros.
Também precisamos questionar os
motivos do movimento pró-transparência mais amplo. Antiamericanismo
é uma de suas principais inspirações e ajuda a explicar sua
perfídia. Se você acredita que o “complexo militar-industrial”
americano, a Europa ou Israel é a única ou principal fonte de
opressão, fica fácil desprezar as vítimas de regimes cujos excessos
não podem ser postos na responsabilidade do ocidente. Os ex-colegas
de Assange me dizem que o esquerdismo infantil dos anos 2000 não é a
pior parte. Nunca esqueça, eles dizem, que Assange veio de uma
cidadezinha pacata de Queensland chamada Townsville. Ele é um cara
da cidade pequena desesperado para que o mundo o enxergue.
O delator usualmente tagarela
porque quer acertar contas ou amigar-se com as autoridades. Assange
representa uma nova espécie, tornada possível pela tecnologia: o
dedo-duro exibicionista. A rede tornou Assange famoso. Ela lhe
permite monitorar sua celebridade – eu soube que mesmo o mais
humilde blogspot
raramente escapa sua atenção. Quando ele vê que a audiência está se
cansando, a rede lhe provê os meios para publicar novos segredos e
gerar novas manchetes. Sob pretexto de fazer com que o poder preste
contas, Assange pode deleitar-se no poder que a rede lhe dá para
colocar vidas em perigo e se certificar de que ele esteja onde
sempre quis estar: no centro das atenções.