É compreensível que a campanha que a
direita brasileira está fazendo em favor do voto distrital
não apresente os ponderáveis argumentos que existem contra
ele. Seus responsáveis têm todo o direito de subtrair da
opinião pública o que é contrário a suas preferências.
Afinal, na guerra ideológica, o que menos importa são os
fatos.Não é o mesmo que se
pode dizer de quem, na mídia, deveria se ocupar do
jornalismo. Chega a ser lamentável que veículos de
informação assumam função de pura desinformação.
Estão vendendo ao país duas teses
falsas. Uma é dita explicitamente: que os problemas da
democracia brasileira se resolveriam se tivéssemos o voto
distrital. A outra fica sugerida: que sua implantação no
Brasil seria algo simples, que “só depende da vontade
política”. Ou seja: que não é feita porque “alguém” não
quer.
É com teses desse gênero que se fazem
as campanhas que os profissionais do marketing político
chamam de “construção de agenda” (mal traduzindo a expressão
norte-americana agenda building). Identifica-se um incômodo,
dá-se-lhe uma explicação, põem-se a mídia para promovê-la e
convocam-se as “pessoas de bom caráter” a agir.
Já vimos esse filme várias vezes: há um
problema (por exemplo, a falta de empregos em uma economia
avançada), cria-se um “culpado” (por exemplo, os imigrantes
do terceiro mundo) e pede-se aos eleitores que votem em quem
vai “resolvê-lo” (por exemplo, um partido de direita).
Quando os problemas são reais e
preocupam as pessoas, a questão é convencê-las de que o
diagnóstico de suas origens é correto. Se o admitirem,
abraçarão “a causa”, o que fica tanto mais fácil quando mais
alto a mídia bater o bumbo.
Há uma nítida e compreensível
insatisfação da maioria da sociedade brasileira com o
sistema político. Além de sua crônica dificuldade de
assegurar a todos adequada representação, ele padece de
vários vícios, dos quais o mais irritante é a corrupção.
A direita brasileira, através de seus
núcleos de pensamento estratégico e intelectuais, quer fazer
com que o país acredite que o PT e, por extensão, o governo
(ou o que ela chama de “lulopetismo”) são a favor do sistema
de representação proporcional porque assim se perpetuariam
no poder. Quer, portanto, que “as pessoas de bem” se tornem
defensoras do voto distrital, assegurando-as de que só com
ele é possível simplificar as eleições, aumentar a
responsabilidade do eleito, a vigilância do eleitor, acabar
com a corrupção.
Não existe qualquer evidência, seja
baseada em nossa experiência com o voto distrital (pois já o
tivemos durante várias décadas), seja na de outros países,
que permita afirmações desse tipo. Nem ele é garantia de
solução para tais problemas, nem faz sentido dizer que o
voto proporcional os provoca.
É improvável que a direita fale essas
coisas por ignorância. Mais fácil é imaginar que, apenas,
finge saber como dar resposta às justas preocupações da
sociedade.
Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do
Instituto Vox Populi