Segue uma tradução de um ensaio do Kaczynski que considero importante
compartilhar, principalmente pela relevância que pode ter em uma
contextualização das manifestações ocorridas no "Brasil" nos últimos
meses.

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O TRUQUE MAIS HÁBIL DO SISTEMA

O sistema tem realizado um truque nos pretensos revolucionários e
rebeldes. O truque é tão belo que se fosse conscientemente planejado
teríamos de admirá-lo por sua elegância quase matemática.

1. O QUE O SISTEMA NÃO É

Vamos começar deixando claro o que o sistema não é. O sistema não é o
presidente, seus assessores e funcionários, não é a polícia que
maltrata os manifestantes, não é o diretor executivo das corporações
multinacionais e não são os Frankensteins em seus laboratórios que
criminosamente modificam os genes das formas de vida. Esses são servos
do sistema, mas individualmente não constituem o sistema. Para essas
pessoas na vida privada, os valores pessoais, individuais, atitudes,
crenças e comportamento podem estar em significativo conflito com as
necessidades do sistema.

Ilustrando com um exemplo, o sistema exige o respeito pelos direitos
de propriedade, no entanto, às vezes o roubo é cometido por diretores
executivos, policiais, cientistas e políticos. (Ao falar de roubo não
temos de nos limitar ao de objetos físicos. Podemos incluir todos os
meios ilegais de aquisição de propriedade, como as fraudes de Imposto
de Renda, aceitar subornos e qualquer outra forma de corrupção.) Mas
não significa que o roubo seja parte do sistema pelo fato de diretores
executivos, policiais, cientistas e políticos às vezes roubarem.

Pelo contrário, quando um policial ou um político rouba algo ele está
se rebelando contra a exigência do sistema pelo respeito a lei e à
propriedade. No entanto, mesmo quando estão roubando, estas pessoas
continuam a ser servos do sistema, desde que mantenham publicamente o
seu apoio pela lei e a propriedade.

Quaisquer atos ilegais cometidos por políticos, policiais, ou
diretores executivos, enquanto indivíduos, como o roubo, o suborno, a
corrupção, não fazem parte do sistema, mas são doenças dele. Quanto
menos roubo houver, melhor será o funcionamento do sistema e é por
isso que os servos e os promotores do sistema sempre defendem a
obediência à lei em público mesmo que às vezes, em particular, acham
conveniente quebrar a lei.

Vejamos outro exemplo. Embora a polícia seja executora do sistema, a
brutalidade policial não é parte do sistema. Quando policiais espancam
um suspeito, eles não estão fazendo o trabalho do sistema, estão
apenas deixando escapar sua própria raiva e hostilidade. O objetivo do
sistema não é a brutalidade ou a expressão de raiva. O objetivo do
sistema, no que se refere ao trabalho da polícia, é forçar a
obediência às suas regras e fazê-lo com o mínimo possível de conflito,
violência e má publicidade. Assim, do ponto de vista do sistema, o
policial ideal é aquele que nunca se irrita, não usa violência mais do
que o necessário e, na medida do possível, utiliza da manipulação ao
invés da força para manter as pessoas sob controle. A brutalidade
policial é apenas uma outra doença do sistema, não uma parte do
sistema.

Para provar, observe a atitude da mídia. A mídia quase universalmente
condena a brutalidade policial. É claro que a atitude da mídia
dominante representa, como regra geral, o consenso da opinião das
classes poderosas da nossa sociedade do que é bom para o sistema.

O que foi dito sobre roubo, corrupção e brutalidade policial aplica-se
também a questões de discriminação e vitimização como o racismo,
sexismo, homofobia, pobreza e exploração no trabalho. Esses todos são
ruins para o sistema. Por exemplo, quanto mais os negros sentirem-se
desprezados ou excluídos, mais provável é irem para a criminalidade e
menos provável se educarem e seguirem carreiras que os tornarão úteis
para o sistema. A tecnologia moderna, com seu rápido transporte de
longa distância e seu rompimento com os modos de vida tradicionais
levou a mistura de populações de modo que hoje pessoas de diferentes
raças, nacionalidades, culturas e religiões têm de conviver e
trabalhar lado a lado. Se as pessoas odiarem ou rejeitarem umas as
outras com base na etnia, raça, religião, preferência sexual, etc., os
conflitos resultantes interferirão com o funcionamento do sistema. Com
exceção de algumas relíquias fossilizadas do passado, como Jesse
Helms, os dirigentes do sistema sabem disso muito bem e é por isso que
através das escolas e da mídia é ensinado a acreditar que o racismo, o
sexismo, a homofobia etc., são males sociais a serem eliminados.

Sem dúvida que alguns líderes do sistema, alguns políticos, cientistas
e diretores executivos, acham em seu íntimo que o lugar da mulher é em
casa ou que o homossexualismo e o casamento interracial são
repugnantes. Mas mesmo se a maioria deles se sentirem dessa maneira,
não significa que o racismo, o sexismo e a homofobia façam parte do
sistema – não mais do que a existência do roubo entre os líderes
significar que o rouba seja parte do sistema. Assim, como o sistema
deve promover o respeito à lei e à propriedade para sua própria
segurança, o sistema, pela mesma razão, também deve desencorajar o
racismo e outras formas de vitimização. É por isso que o sistema, sem
prejuízo de eventuais desvios particulares de membros da elite, é
basicamente comprometido na supressão da discriminação e vitimização.

Como evidência, veja novamente a atitude da mídia dominante. Apesar
das tímidas dissidências ocasionais de alguns dos comentadores mais
ousados e reacionários, a propaganda da mídia é esmagadoramente
favorável a igualdade racial, de gênero, na aceitação da
homossexualidade e do casamento interracial[1].

O sistema precisa de uma população mansa, pacífica, domesticada, dócil
e obediente. Precisa evitar qualquer conflito ou perturbação que possa
interferir com o bom funcionamento da máquina social. Além de suprimir
as hostilidades dos grupos raciais, étnicos, religiosos e outros,
também tem de suprimir, ou explorar em benefício próprio, todas as
outras tendências que podem levar à perturbação ou desordem, como o
machismo, os impulsos agressivos e qualquer inclinação para a
violência.

Naturalmente, os tradicionais antagonismos raciais e étnicos morrem
lentamente, o machismo, a agressividade e os impulsos violentos não
são facilmente reprimíveis e as atitudes em relação ao sexo e
identidade de gênero não se transformam da noite para o dia. Portanto,
há muitos que resistem a essas mudanças e o sistema é confrontado com
o problema de superar essa resistência[2].

2. COMO O SISTEMA EXPLORA O IMPULSO PARA REBELIÃO

Na sociedade moderna somos todos cercados por uma densa rede de normas
e regulamentos. Estamos à mercê de grandes organizações como empresas,
governos, sindicatos, universidades, igrejas, partidos políticos e em
consequência disso somos impotentes. Como resultado da servidão,
impotência e outras indignidades impostas pelo sistema, há uma
frustração generalizada que leva a um impulso de rebelião. E é aqui
onde o sistema realiza seu truque mais hábil: através de um brilhante
movimento de mão ele direciona a rebelião em seu próprio benefício.
Muitas pessoas não compreendem as raízes da sua própria frustração,
disso resultando uma revolta sem rumo. Eles sabem que querem se
rebelar, mas não sabem contra o que se rebelar. O sistema, por sorte,
é capaz de atender essas necessidades proporcionando-lhes uma lista de
estereotipadas queixas-padrão para se rebelarem: racismo, homofobia,
questões das mulheres, pobreza, exploração no trabalho... Todo o saco
de roupas-sujas das lutas “ativistas”.

Um grande número de pretensos rebeldes mordem a isca. Na luta contra o
sexismo, o racismo, etc., etc., estão apenas trabalhando para o
sistema. E apesar disso, eles imaginam que estão se rebelando contra o
sistema. Como isto é possível?

Em primeiro lugar, até os anos 1950 o sistema ainda não estava
comprometido com a igualdade para negros, mulheres e homossexuais,
portanto, a ação em prol dessas causas era realmente uma forma de
rebelião. Como consequência, essas causas passaram a ser
convencionalmente consideradas como causas rebeldes. Elas atualmente
mantêm esse status como uma simples questão de tradição, isto é,
porque cada geração rebelde imita as gerações anteriores.

Em segundo lugar, há ainda um número significativo de pessoas, como
indiquei anteriormente, que resistem às mudanças sociais que o sistema
requer e algumas destas pessoas ainda são figuras de autoridade, como
policiais, juízes ou políticos. Estes reacionários fornecem um alvo
para os pretensos rebeldes, alguém contra quem se rebelarem.
Comentaristas como Rush Limbaugh, vociferando contra os ativistas,
ajudam no processo: Os ativistas ao verem que irritaram alguém,
reforçam a ilusão de que estão se rebelando.

Em terceiro lugar, a fim de entrarem em conflitos, mesmo com a maioria
dos dirigentes do sistema aceitando plenamente as mudanças sociais que
o sistema exige, os pretensos rebeldes mostram raiva exagerada sobre
assuntos triviais e insistem em soluções que vão além do que os
dirigentes do sistema consideram prudente. Por exemplo, exigem o
pagamento de indenizações aos negros e muitas vezes se enfurecem com
qualquer crítica a um grupo minoritário, não importando o quão
prudente e razoável seja a crítica. Desta forma, os ativistas são
capazes de manter a ilusão de estarem se rebelando contra o sistema.
Mas a ilusão é um absurdo. Agitação contra o racismo, o sexismo, a
homofobia e afins não constituem uma rebelião contra o sistema, mais
do que a agitação contra a disputa política e a corrupção. Aqueles que
trabalham contra a corrupção não estão se rebelando, mas atuando como
agentes do sistema: Eles estão ajudando a manter os políticos
obedientes às regras do sistema. Aqueles que trabalham contra o
racismo, sexismo e homofobia estão igualmente agindo como aplicadores
do sistema: Eles ajudam o sistema suprimir o desvio racista, sexista,
homofóbico e atitudes que causam problemas para o sistema. Mas os
ativistas não atuam apenas como aplicadores do sistema, também servem
como uma espécie de pára-raios, que protege o sistema ao afastarem o
ressentimento público para longe do sistema e de suas instituições.
Por exemplo, há várias razões pelo qual foi vantajoso para o sistema
ter as mulheres fora de casa e no trabalho. Se o sistema, há cinqüenta
anos, como representado pelo governo ou pela mídia, tivesse começado
do nada uma campanha destinada a tornar socialmente aceitável que
mulheres centralizassem suas vidas na carreira e não em casa, a
natural resistência humana a mudanças teria causado um generalizado
ressentimento público. O que realmente aconteceu foi que as alterações
foram lideradas por feministas radicais, direcionadas a uma distância
segura pelas instituições do sistema. O ressentimento dos membros mais
conservadores da sociedade era dirigido principalmente contra as
feministas mais radicais, do que contra o sistema e suas instituições,
porque as alterações patrocinadas pelo sistema pareciam lentas e
moderadas se comparadas com as soluções mais radicais defendidas pelas
feministas e, mesmo estas mudanças relativamente lentas, foram vistas
como tendo sido forçadas por pressão dos radicais.

Assim, em poucas palavras, o truque mais hábil do sistema é o
seguinte:
(A) Por razões de sua própria eficiência e segurança, o sistema
precisa trazer mudanças sociais profundas e radicais para conciliar
com as novas condições resultantes do progresso tecnológico.
(B) A frustração da vida sob estas circunstâncias impostas pelo
sistema conduz a impulsos rebeldes.
(C) Impulsos rebeldes são cooptados pelo sistema a serviço das
mudanças sociais que ele exige; ativistas se “rebelam” contra valores
antigos e ultrapassados que já não servem para o sistema e em favor de
novos valores que o sistema precisa que aceitemos.
(D) Desta maneira, os impulsos rebeldes que de outra forma seriam
perigosos para o sistema recebem um escape que não é apenas
inofensivo, mas útil ao sistema.
(E) Muito do ressentimento público resultante da imposição de mudanças
sociais é removido do sistema e suas instituições e é dirigido para os
radicais que lideram as mudanças sociais.

É claro que este truque não foi antecipadamente planejado pelos
dirigentes do sistema, que sequer estão conscientes de um truque ter
sido realizado. A forma como ele funciona é mais ou menos assim:

Ao decidir que posição tomar sobre qualquer assunto, os editores,
publicitários e proprietários dos meios de comunicação devem,
consciente ou inconscientemente, considerar vários fatores. Eles devem
considerar como os seus leitores ou espectadores vão reagir ao
divulgado sobre um assunto, devem considerar como seus anunciantes,
seus colegas na mídia e outras pessoas poderosas irão reagir e devem
considerar o efeito na segurança do sistema do que publicarem ou
transmitirem.

Normalmente estas considerações práticas superam qualquer sentimento
pessoal que possam ter sobre o assunto. São variados os sentimentos
pessoais dos líderes da mídia, anunciantes e outras pessoas poderosas.
Eles podem ser liberais ou conservadores, religiosos ou ateus. O único
terreno comum e universal entre os líderes é o seu comprometimento com
o sistema, sua segurança e seu poder. Portanto, dentro dos limites
impostos pelo o que o público está disposto a aceitar, o principal
fator determinante do divulgado pelos meios de comunicação é um
consenso de opinião, entre os líderes da mídia e outras pessoas
poderosas, do que seja bom para o sistema.

Então, quando um editor ou outros líderes da mídia decidem qual
atitude tomar sobre um movimento ou uma causa, o primeiro pensamento é
saber o que há no movimento que seja bom ou ruim para o sistema.
Talvez ele diga para si mesmo que sua decisão tenha motivações morais,
filosóficas ou religiosas, mas é um fato observável que, na prática, a
segurança do sistema tem prioridade sobre todos os outros fatores ao
determinar a atitude da mídia. Por exemplo, se um editor de revista de
notícias observa os movimentos da milícia, ele pode ou não simpatizar
pessoalmente com algumas das reivindicações e objetivos, mas ele
também vê que haverá um forte consenso, entre seus anunciantes e
colegas na mídia, de que os movimentos da milícia são potencialmente
perigosos para o sistema e, portanto, devem ser desencorajados. Ele
sabe que, sob estas circunstâncias, sua revista deve tomar uma atitude
negativa em relação ao movimento da milícia. A atitude negativa da
mídia provavelmente é parte da razão pela qual o movimento das
milícias enfraquece.

Quando o mesmo editor observa o feminismo radical, ele vê que algumas
das soluções mais extremas seriam perigosas para o sistema, mas ele
também vê que o feminismo tem muito de útil ao sistema. As
participações das mulheres no mundo técnico e empresarial integram
melhor elas e suas famílias no sistema. Seus talentos estão a serviço
do sistema em questões técnicas e de negócios. A ênfase feminista pelo
fim da violência doméstica e estupro também atende às necessidades do
sistema, já que o estupro e o abuso, assim como outras formas de
violência, são perigosos para o sistema. Talvez o mais importante: o
editor reconhece que a lástima, a falta de sentido do trabalho
doméstico moderno e o isolamento social da dona de casa moderna podem
levar a muitas mulheres grave frustração, frustração esta que causará
problemas para o sistema a menos que seja permitido às mulheres um
escape em carreiras no mundo técnico e empresarial.

Mesmo que este editor seja um machista, que pessoalmente se sinta mais
confortável com as mulheres numa posição subalterna, ele sabe que o
feminismo, pelo menos em uma forma relativamente moderada, é bom para
o sistema. Ele sabe que sua postura editorial deve ser favorável com o
feminismo moderado ou enfrentará a desaprovação de seus anunciantes e
outras pessoas poderosas. É por isso que a atitude da mídia tem sido
geralmente de apoio ao feminismo moderado, misturado ao feminismo
radical e constantemente hostil somente com as posições feministas
mais extremas. Através deste processo os movimentos rebeldes que são
perigosos para o sistema estão sujeitos a propaganda negativa,
enquanto que os movimentos rebeldes que se acreditam úteis para o
sistema são cautelosamente incentivados na mídia. A inconsciente
absorção da mídia e da propaganda influencia os pretensos rebeldes a
se “rebelarem” de modo a servir os interesses do sistema.

Os intelectuais universitários também desempenham um papel importante
na realização do truque do sistema. Embora apreciem se imaginarem
pensadores independentes, os intelectuais (com exceções individuais)
são o grupo atual mais sobressocializado, mais conformista, mais
manso, mais domesticado, mais mimado, dependente e fraco. Como
resultado, seu impulso para rebelião é particularmente forte. Mas
porque são incapazes de pensamento independente para eles é impossível
a rebelião real. Como consequência, são os bobos do truque do sistema,
que lhes permite irritar as pessoas e apreciarem a ilusão de rebelião
sem jamais desafiar os valores fundamentais do sistema. Por serem
professores dos jovens os intelectuais universitários estão em posição
de ajudar o sistema a desempenhar o seu truque nos jovens, o que fazem
ao direcionar os impulsos dos jovens rebeldes para as metas
normatizadas e estereotipadas: o racismo, o colonialismo, as questões
das mulheres, etc. Os jovens que não são estudantes universitários
aprendem, através da mídia ou através do contato pessoal, as questões
de “justiça social” dos estudantes rebeldes e os imitam. Desse modo,
uma cultura juvenil se desenvolve em um modo estereotipado de rebelião
que se espalha através da imitação dos seus pares – tal como os
penteados, estilos, roupas e outras modas difundidas através da
imitação.

3. O TRUQUE NÃO É PERFEITO

O truque do sistema, naturalmente, não funciona perfeitamente. Nem
todas as posições adotadas pela comunidade “ativista” são consistentes
com as necessidades do sistema. Neste contexto, algumas das
dificuldades mais importantes que o sistema lida estão relacionadas
com o conflito entre os dois tipos de propaganda que este tem que
usar: propaganda de agitação e propaganda de integração[3].

A propaganda de integração é o principal mecanismo de socialização na
sociedade moderna. É a propaganda projetada para incutir nas pessoas
atitudes, crenças, valores e hábitos para serem ferramentas do sistema
seguras e úteis. Ela ensina as pessoas a reprimir ou sublimar
permanentemente os impulsos emocionais que são perigosos para o
sistema. Seu foco está nas atitudes de longo prazo e valores mais
profundos de ampla aplicabilidade, ao invés de atitudes específicas e
questões momentâneas.

A propaganda de agitação joga com as emoções das pessoas em situações
específicas em vigor de modo a trazer a tona certas atitudes ou
comportamentos. Ao invés de ensinar as pessoas a suprimirem perigosos
impulsos emocionais, visa estimular certas emoções para fins bem
definidos, em momentos determinados.

O sistema precisa de uma população ordenada, dócil, cooperativa,
passiva e dependente. Acima de tudo de uma população não-violenta uma
vez que requer do governo o monopólio no uso da força física. Por esta
razão a propaganda de integração precisa nos ensinar a ficarmos
horrorizados, assustados e chocados com a violência, para que não a
usemos mesmo quando com muita raiva. (Por “violência” nos referimos a
agressões físicas em seres humanos.) De maneira geral, a propaganda de
integração tem de nos ensinar valores mansos e suaves que enfatizam a
não-agressividade, interdependência e cooperação.

Por outro lado, em contextos específicos para alcançar seus próprios
objetivos, o próprio sistema considera útil ou necessário recorrer à
métodos brutais e agressivos. A guerra é o exemplo mais óbvio. Em
tempo de guerra o sistema depende da propaganda de agitação: Para
obter aprovação pública a uma ação militar ele joga com as emoções das
pessoas para torná-las assustadas e com raiva de inimigos reais ou
imaginários.

Nesta situação há um conflito entre a propaganda de integração e a
propaganda de agitação. Aqueles dos quais os valores mais mansos e a
aversão à violência têm sido mais profundamente incutidos não são
facilmente convencidos a aprovar uma sangrenta operação militar. Aqui
o truque do sistema, em certa medida, sai pela culatra. Os ativistas
que se “rebelaram” todo o tempo em favor dos valores da propaganda de
integração, continuam a fazê-lo durante a guerra. Eles se opõem ao
esforço de guerra, não apenas por ser violenta, mas por ser “racista”,
“colonialista”, “imperialista”, etc., todos contrários aos valores
suaves e mansos ensinados pela propaganda de integração.

O truque do sistema também sai pela culatra quando o assunto é o
tratamento dos animais. Muitos, inevitavelmente, estendem aos animais
os valores suaves e a aversão à violência que lhes é ensinada no que
diz respeito aos seres humanos. Eles se horrorizam com o abate de
animais para carne e outras práticas prejudiciais aos animais, tais
como a redução das galinhas a meras produtoras de ovos, mantidas em
pequenas gaiolas ou na utilização de animais em experimentos
científicos. A oposição aos maus-tratos de animais pode ser útil para
o sistema, até certo ponto: porque uma dieta vegana é mais eficiente
em termos de utilização de recursos do que uma carnívora, o veganismo,
se amplamente adotado, contribuirá no alivio do fardo colocado sobre
os recursos limitados da Terra pelo crescimento da população humana.
Mas a insistência dos ativistas pelo fim do uso de animais em
experiências científicas está diretamente em conflito com as
necessidades do sistema, uma vez que, para o futuro próximo, não é
provável existir algum substituto viável para os animais como objetos
de pesquisa. Igualmente, o fato de o truque do sistema falhar algumas
vezes não o impede de ser um dispositivo extraordinariamente eficaz,
como um todo, em transformar impulsos rebeldes em vantagem do sistema.

É preciso reconhecer que o truque aqui descrito não é o único fator
determinante na direção em que os impulsos rebeldes tomam em nossa
sociedade. Muitas pessoas sentem-se fracas e impotentes (pela boa
razão de que o sistema realmente nos torna fracos e impotentes) e,
portanto, obsessivamente identificadas com as vítimas, os fracos e
oprimidos. Essa é parte da razão pelo qual as questões de vitimização
tornaram-se o padrão de questões ativistas, como o racismo, o sexismo,
a homofobia e neo-colonialismo.

4. UM EXEMPLO

Tenho comigo um livro de antropologia[4], em que noto vários bons
exemplos da maneira em que os intelectuais universitários na sociedade
moderna ajudam o sistema em seu truque disfarçando conformidade como
crítica. O mais bonito destes exemplos é encontrado nas páginas
132-36, onde o autor cita de modo “adaptado” um artigo de um Rhonda
Kay Williamson, uma pessoa intersexual (isto é, uma pessoa que nasce
com características físicas masculinas e femininas).

Williamson afirma que os índios americanos não só aceitavam pessoas
intersexuais, mas especialmente os valorizavam[5]. Ela contrasta esta
atitude com a atitude euro-americana, o qual ela identifica com a
atitude de que seus próprios pais sobre ela. Williamson foi maltratada
cruelmente pelos seus pais. Eles a desprezavam pela sua condição
intersexual. Diziam-na que ela foi “amaldiçoada e entregue ao diabo” e
a levaram para igrejas carismáticas para expulsarem o “demônio” dela.
Ela ainda recebeu guardanapos para “tossir o demônio”.

Mas é obviamente ridículo equiparar isso com a moderna atitude euro-
americana. Pode ser próxima a atitude euro-americana de há 150 anos,
mas hoje em dia quase todo o educador, psicólogo, sacerdote ou membro
superior do clero, ficaria horrorizado com esse tipo de tratamento de
uma pessoa intersexual. A mídia nunca sonharia apresentar esse
tratamento favoravelmente. Os atuais americanos de classe média podem
não aceitar a condição intersexual como os índios, mas poucos
deixariam de reconhecer a crueldade do tratamento de Williamson.

Os pais de Williamson obviamente eram desvios, malucos religiosos
cujas atitudes e crenças estavam fora dos valores do sistema. Desse
modo, ao apresentar uma crítica da moderna sociedade euro-americana,
Williamson estava realmente atacando os desvios minoritários e
culturalmente atrasados que ainda não se adaptaram aos valores
dominantes da América atual.

Haviland, autor do livro, na página 12 retrata a antropologia cultural
como iconoclasta, desafiando os pressupostos da moderna sociedade
ocidental. Isto é tão contrário a verdade que seria engraçado se não
fosse tão patético. O dominante da antropologia americana moderna é
desprezível subserviente aos valores e pressupostos do sistema. Quando
os atuais antropólogos fingem desafiar os valores de sua sociedade,
geralmente questionam apenas valores antigos, obsoletos e
ultrapassados, mantidos por ninguém, a não ser os desvios e
retardatários que não acompanharam as mudanças culturais que o sistema
exige de nós.

Isso é muito bem ilustrado pelo uso do artigo de Williamson e
representa a inclinação geral do livro de Haviland. Haviland joga com
fatos etnográficos que ensina seus leitores lições de politicamente
correto, mas ele subestima ou omite totalmente os fatos etnográficos
que são politicamente incorretos. Assim, enquanto ele cita Williamson
para enfatizar a aceitação das pessoas intersexuais pelos índios ele
não menciona, por exemplo, que entre muitas tribos indígenas, as
mulheres que cometiam adultério tinham o nariz cortado[6], enquanto
que nenhuma punição era infligida a homens adúlteros; ou que entre os
índios Crow se um guerreiro fosse atingido por um estranho tinha que
matar imediatamente o ofensor, senão ele ficaria irremediavelmente
desonrado aos olhos de sua tribo[7]; Haviland nem discutiu o habitual
uso da tortura pelos índios do leste dos Estados Unidos[8]. É claro
que fatos dessa natureza representam a violência, o machismo, a
discriminação de gênero e, portanto, são incompatíveis com os valores
atuais do sistema e costumam ser censurados como politicamente
incorretos. Mas não duvido de que Haviland seja perfeitamente sincero
em sua crença de que os antropólogos desafiam as suposições da
sociedade ocidental. A capacidade de auto-ilusão dos intelectuais
universitários facilmente se estica tão longe.

Para concluir, quero deixar claro que não estou sugerindo que seja bom
cortar o nariz para o adultério ou que qualquer outro abuso de
mulheres deva ser tolerado, nem quero ver ninguém desprezado ou
rejeitado por ser intersexual ou por causa de sua raça, religião,
orientação sexual, etc., etc., etc. Mas atualmente em nossa sociedade
estas questões são, no máximo, problemas de reforma. O truque mais
hábil do sistema consiste em converter poderosos impulsos rebeldes a
serviço destas modestas reformas que de outra forma tomariam uma
direção revolucionária.


NOTAS

[1] Mesmo a análise mais superficial da mídia de massa, nos modernos
países industrializados ou mesmo em países que apenas aspiram à
modernidade, confirma que o sistema é comprometido com a eliminação da
discriminação em matéria de religião, raça, sexo, orientação sexual,
etc, etc, etc. Seria fácil encontrar milhares de exemplos que ilustram
isso, mas aqui podemos citar apenas três, de três países diferentes.

Estados Unidos: “Mostra Pública de Afeto”, USA News & World Report, 09
de setembro de 2002, páginas 42-43. Este artigo fornece um bom exemplo
de como a propaganda funciona. Toma uma posição ostensivamente
objetiva ou neutra sobre uniões homossexuais, dando algum espaço para
as opiniões daqueles que se opõem a aceitação pública da
homossexualidade. Mas quem lê o artigo, com o seu tratamento
distintamente simpático a um casal homossexual, terá a impressão de
que a aceitação da homossexualidade é desejável e, a longo prazo,
inevitável. Particularmente importante é a fotografia do casal
homossexual em questão: Um par fisicamente atraente foi selecionado e
foi fotografado atraentemente. Ninguém com um mínimo de compreensão da
propaganda pode deixar de ver que o artigo constitui propaganda a
favor da aceitação da homossexualidade. E tenha em mente que os USA
News & World Report é uma revista de centro-direita.

Rússia: “Putin denuncia intolerância”, The Denver Post, 26 de julho de
2002, página 16A. “Moscou, o presidente Vladimir Putin criticou
veementemente o preconceito racial e religioso na quinta-feira, ‘Se
deixarmos essa bactéria chauvinista de intolerância nacional ou
religiosa se desenvolver, vamos arruinar o país’, disse Putin em
declarações reproduzidas com destaque na televisão russa, na noite de
quinta-feira”. Etc, etc.

México: “Persiste Racismo contra indígenas” (“O racismo contra os
povos indígenas persiste”), El Sol de Mexico, 11 de janeiro de 2002,
página 1/B. Legenda de foto: “Apesar dos esforços em dar dignidade ao
povo indígena de nosso país, eles continuam a sofrer
discriminação...”. O artigo relata os esforços dos bispos do México em
combater a discriminação, mas diz que os bispos querem “purificar” os
costumes indígenas a fim de libertar as mulheres de seu status
tradicional de qualidade inferior. El Sol de México tem a reputação de
ser um jornal de centro-direita.

Qualquer um que quiser pegar o problema pode multiplicar por mil os
exemplos. A evidência de que o próprio sistema é empenhado em eliminar
a discriminação e vitimização é tão óbvia e tão grande que não da para
imaginar porque os radicais acreditam que a luta contra estes males é
uma forma de rebelião. Só se pode atribuir a um fenômeno bem conhecido
dos propagandistas profissionais: As pessoas tendem a bloquear, a não
perceber ou recordar informações que entram em conflito com sua
ideologia. Veja o artigo interessante, "Propaganda", em The New
Encyclopædia Britannica, Volume 26, Macropædia, 15ª edição, 1997, p.
171-79, especificamente a página 176.

[2] Nesta seção eu disse algo sobre o que o sistema não é, mas não
disse o que o sistema é. Um amigo meu indicou que isso pode deixar o
leitor perplexo, então eu acho melhor explicar que, para efeitos deste
artigo, não é necessário ter uma definição precisa do que o sistema é.
Eu não pensaria em alguma forma de definir o sistema em uma única e
bem-definida frase e eu não quero quebrar a continuidade do trabalho e
com uma longa, desajeitado, e desnecessário digressão abordando a
questão do que o sistema é, então deixei essa pergunta sem resposta.
Não acho que a minha falta de resposta prejudicará gravemente a
compreensão do leitor sobre o ponto que eu quero fazer neste artigo.

[3] Os conceitos de “propaganda de integração” e “propaganda de
agitação” são discutidos por Jacques Ellul, em seu livro Propaganda,
pub. Alfred A. Knopf 1965.

[4] Haviland, W. A., Cultural Anthropology, 9 Ed Harcourt Brace &
Company, 1999.

[5] Presumo que esta afirmação é preciso. Isso certamente reflete a
atitude navajo. Ver Gladys A. Reichard, Navaho Religion: A Study of
Symbolism, Princeton University Press, 1990, page 141. Este livro foi
publicado originalmente em 1950, bem antes de a antropologia Americana
ser imensamente politizada, então não vejo motivo para ver tal
informação como um caso à parte.

[6] Isto é bem conhecido. Ver, e.g., Angie Debo, Geronimo: The Man,
His Time, His Place, University of Oklahoma Press, 1976, página 225;
Thomas B. Marquis (interpreter), Wooden Leg: A Warrior Who Fought
Custer, Bison Books, University of Nebraska Press, 1967, página 97;
Stanley Vestal, Sitting Bull, Champion of the Sioux: A Biography,
University of Oklahoma Press, 1989, página 6; The New Encyclopædia
Britannica, Vol. 13, Macropædia, 15th Edition, 1997, artigo “American
Peoples, Native”, página 380.

[7] Russell, Osborne, Journal of a Trapper, Bison Books edition,
página 147.

[8] O uso da tortura por índios do oeste dos EUA é bem conhecido. Ver,
e.g., Clark Wissler, Indians of the United States, Revised Edition,
Anchor Books, Random House, New York, 1989, páginas 131, 140, 145,
165,282; Joseph Campbell, The Power of Myth, Anchor Books, Random
House, New York, 1988, página 135; The New Encyclopædia Britannica,
Vol. 13, Macropædia, 15th Edition, 1997, o artigo “American Peoples,
Native”, page 385; James Axtell, The Invasion Within: The Contest of
Cultures in Colonial North America, Oxford University Press, 1985,
citação de página não disponível.

por Ted Kaczynski

título original: "The System's Neatest Trick"
do livro: "The Road to Revolution"

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