O jornalismo, a
corrupção e o PT
Por
Edmilson Lopes Júnior,
no
Terra Magazine
Uma
narrativa recorrente em
certos ambientes, e
reproduzida à exaustão em
não poucos veículos de
comunicação, aponta a
ascensão do Partido dos
Trabalhadores a cargos de
mando no país como o ponto
inicial da corrupção no
país. Tudo se passa como se
tivéssemos vivido, até 2002,
em uma ilha de
administradores probos e
políticos campeões da
moralidade pública.
O
estabelecimento de uma
relação direta entre a
ascensão do PT a postos de
governos e a entronização da
corrupção como pauta
primeira da preocupação
nacional é mais do que uma
embromação histórica. E é
também algo mais do que mera
luta política, como
apreendem, equivocadamente,
os petistas. No curto prazo,
é a única forma de garantir
visibilidade pública para
quem já não tem como
garanti-la através da
elaboração de alternativas
políticas e econômicas para
o país. Mas, e aí tocamos no
que é fundamental: o apelo
moralista contra a corrupção
supostamente desencadeada
pelo petismo (antes, por
suposto, essa era uma
prática inexistente no país)
é a trilha mais fácil a ser
seguida por setores
jornalísticos que perderam a
condição de mediadores
culturais privilegiados no
país.
O jornal
Folha de São Paulo é a
melhor expressão dessa
derrocada cultural da
imprensa brasileira. Antes,
ponto de apoio para um
jornalismo que expressava
uma reflexão criativa e
criativa da vida política
nacional, o jornal paulista
foi se deixando encurralar
nesse triste e patético
lugar social de um
jornalismo que, sob a
decoração modernosa, não se
diferencia muito das
“críticas” moralistas
proferidas em programas
popularescos de TV. Não
fossem as referências
esparsas a um ou outro
pensador legitimado no mundo
acadêmico, que distância
existiria entre alguns dos
textos produzidos pelos
colunistas do jornal e os
discursos do Pastor Malafaia?
Ora, não é o
petismo o responsável pela
sua ascensão da corrupção ao
topo da pauta do jornalismo
pátrio. Uma de suas causas
está na própria configuração
atual da atividade política.
Dado que a midiatização da
atividade é a via quase
única para o resgate de
alguma legitimidade, os
políticos se tornaram
prisioneiros da “imprensa”.
Tanto é assim que não poucos
dentre eles atuam e se
pensam como celebridades.
Que todos os principais
legislativos tenham criado
as suas próprias emissoras
de rádio e tv, essa outra
expressão da irresistível
força da visibilidade
midiática sobre a atividade
política.
Paradoxalmente, maior
visibilidade e pouca
diferenciação no que diz
respeito a propostas
substantivas contribuíram
para que a busca da
distinção tivesse como
referentes quase exclusivos
a moral e a estética.
Some-se a isso o cansaço
geral para com as tarefas
necessárias para o fermento
da esfera pública e o que
emerge? Uma forma de se
“fazer política” (e
jornalismo diário) que tem
na denúncia do governo de
plantão a sua única razão de
ser.
Se um ator
com veleidades de
patrocinador de reformas
sociais e econômicas ocupa
um posto de governo, aí
então estão dadas as
condições para o cerco
moralista ao “poder”. Não há
muita novidade nisso, é bom
que se frise. Repete-se no
Brasil nestes últimos anos,
com todas as tinturas de
mais uma farsa tropical, o
que ocorreu na Espanha na
segunda metade da década de
1980. Quando da primeira
ascensão do PSOE ao governo.
Naquele tempo, determinado
jornal espanhol conseguiu
pespegar no partido do então
Primeiro-Ministro Felipe
Gonzalez a marca da
corrupção. Com isso,
pavimentou o caminho para a
ascensão do direitista PP.
Lá, como cá, a direita
encontrou no moralismo a
forma de aparecer na vida
política. Que setores
supostamente críticos tenham
incorporado essa pauta
nestas plagas, eis aí uma
confirmação da assertiva
definitiva de Lévi-Strauss:
“os trópicos são menos
exóticos do que démodés”.
Exemplar do
que apontei mais acima é uma
coluna de autoria do
jornalista Fernando Barros e
Silva, publicada no sábado
passado no jornal Folha de
São Paulo. Encimada pelo
título “Toninho do PT, 10
anos depois”, a coluna
consegue ser surpreendente,
mas não exatamente pela
argúcia analítica. Poucas
vezes se leu em um grande
jornal algo tão
irresponsável e leviano.
Tendo o assassinato de
Toninho, então Prefeito de
Campinas pelo PT, em 2001,
como mote do texto, o
jornalista lança insinuações
sobre quem seria o
verdadeiro responsável pela
morte do saudoso político
campineiro. E conclui
atirando no seu alvo
preferido: “Não sabemos
ainda a resposta. Mas
sabemos quem matou a
honestidade quando chegou no
poder em Campinas, em Santo
André, no país”.
Parafraseemos o colunista.
Qual o futuro de um
jornalismo que,
desacreditado no seu papel
de mediador cultural, vai se
reduzindo à condição de
pregador moralista? Também
não sabemos a resposta. Mas
sabemos quem matou a
objetividade analítica no
jornalismo paulista.
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