Suportar a verdade
Por
Vladimir
Safatle
Nos próximos dias, o
governo deve conseguir aprovar, no Congresso, seu projeto
para a constituição de uma Comissão da Verdade. O que
deveria ser motivo de comemoração para aqueles realmente
preocupados com o legado da ditadura militar e com os crimes
contra a humanidade cometidos neste período será, no
entanto, razão para profundo sentimento de vergonha.
Pressionado pela Corte
Interamericana de Justiça, que denunciou a situação
aberrante do Brasil quanto à elucidação e punição dos crimes
de tortura, sequestro, assassinato, estupro e ocultação de
cadáveres perpetrados pelo Estado ilegal que vigorou durante
a ditadura militar, o governo brasileiro precisava mostrar
que fizera algo.
No caso, “algo”
significa uma Comissão da Verdade aprovada a toque de caixa,
sem autonomia orçamentária, sem poder de julgar, com apenas
sete membros que devem trabalhar por dois anos, sendo que
comissões similares chegam a ter 200 pessoas.
Tal comissão terá
representantes dos militares, ou seja, daqueles que serão
investigados. Como se isso não bastasse, a fim de tirar o
foco e não melindrar os que se locupletaram com a ditadura e
que ainda dão o ar de sua graça na política nacional, ela
investigará também crimes que porventura teriam ocorrido no
período 1946-64. Algo mais próximo de uma piada de mau
gosto.
Um país que, na
contramão do resto do mundo, tende a compreender exigências
amplas de justiça como “revanchismo” não tem o direito de se
indignar com a impunidade que se dissemina em vários setores
da vida nacional.
Aqueles que preferem
nada saber sobre os crimes do passado ainda estão
intelectualmente associados ao espírito do que procuram
esquecer.
O povo brasileiro tem o
direito de saber, por exemplo, que os aparelhos de tortura e
assassinato foram pagos com dinheiro de empresas privadas,
empreiteiras e multinacionais que hoje gastam fortunas em
publicidade para falar de ética. Ele tem o direito de saber
quem pagou e quanto.
Esta é, sem dúvida, a
parte mais obscura da ditadura militar. Ou seja, espera-se
de uma Comissão da Verdade que ela exponha, além dos crimes
citados, o vínculo incestuoso entre militares e
empresariado. Vínculo este que ajuda a explicar o fato da
ditadura militar ter sido um dos momentos de alta corrupção
na história brasileira (basta lembrar casos como Capemi,
Coroa Brastel, Lutfalla, Baumgarten, Tucuruí, Banco
Econômico, Transamazônica, ponte Rio-Niterói, relatório
Saraiva acusando de corrupção Delfim Netto, entre tantos
outros).
Está na hora de
perguntar, como faz um seminário hoje no Departamento de
Filosofia da USP: Quanta verdade o Brasil suporta?
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