Marco Aurélio Weissheimer: os fantasmas no
sótão da velha mídiaFranklin
Martins, ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência
da República, abriu o Seminário Internacional Comunicações Eletrônicas
e Convergências de Mídias com uma observação que justificou o título
do encontro. A convergência de mídias é um processo irreversível e já
faz parte da vida cotidiana.
Por Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior,
via Vermelho
Um telefone celular não é mais meramente um
telefone. Tornou-se também um meio para acessar internet, rádio e
televisão. Essa convergência de tecnologias e meios de comunicação em
um pequeno aparelho abre novas possibilidades para a comunicação
humana, mas essas possibilidades vêm acompanhadas de problemas. Boa
parte desses problemas é causada por conflitos de mercado entre os
diferentes setores que fazem da comunicação seu bezerro de ouro.
No Brasil, alguns desses setores reagem
fortemente ao debate sobre a necessidade de regular esse novo mundo
tecnológico, social e econômico, que já é uma realidade. Essa reação
aparece revestida por um verniz ideológico que vê na ideia da
regulação uma tentativa de censurar e controlar a imprensa. Isso é uma
bobagem, disse Franklin Martins. E é mesmo. Não é difícil mostrar.
O Brasil acaba de sair de um duro processo
eleitoral onde, em um determinado momento, entidades empresariais do
setor das comunicações e seus respectivos veículos ensaiaram uma
mobilização nacional contra perigosíssimas ameaças à liberdade (de
imprensa e outras) que estariam pairando sobre a vida democrática do
país. O motivo? Uma crítica feita pelo presidente da República à
cobertura sobre as eleições. Houve alguma censura por parte do
governo? Nenhuma.
Houve, de fato, dois episódios de cerceamento à
liberdade de expressão na campanha este ano: um praticado pelo jornal
O Estado de São Paulo, que demitiu a colunista Maria Rita Kehl por não
tolerar a opinião dela publicada em suas páginas; e o outro praticado
pelo jornal Folha de S.Paulo que entrou na Justiça para tirar do ar o
site Falha de São Paulo, que fazia uma paródia às capas e manchetes da
publicação.
Esses jornais e outros veículos da chamada grande
imprensa seguem repetindo mantras ultraconservadores contra um debate
que já foi feito na imensa maioria dos países apontados por eles
mesmos como exemplos de liberdade de modernidade. Mas por trás de todo
esse conservadorismo, há uma razão mais pragmática: o avanço das
empresas de telecomunicação sobre o mercado da radiodifusão.
Só esse dado mercadológico já justificaria um
interesse mais positivo do setor de radiodifusão no debate da
regulação. Franklin Martins falou sobre isso ao saudar os
participantes do seminário. O faturamento das teles hoje é
aproximadamente 13 ou 14 vezes maior que o da radiodifusão. Sem
regulação, a radiodifusão vai ser atropelada por uma jamanta, resumiu
o ministro. E as grandes empresas do setor sabem disso.
A Folha de S.Paulo publicou um editorial, dia 15
de novembro de 2009, defendendo a restrição, em 30%, da presença de
capital estrangeiro nos portais de notícias no Brasil. A proposta
também é defendida pelas principais entidades do setor: Associação
Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e Associação
Nacional de Jornais (ANJ).
A posição defendida por essas entidades oferece,
na verdade, argumentos em defesa da necessidade de um novo marco
regulatório para o setor. Para elas, a restrição ao capital
estrangeiro, previsto no artigo 222 da Constituição Federal, aplica-se
a qualquer negócio que explore conteúdos, independentemente do meio
utilizado, seja TV, rádio, jornais ou a internet.
“Práticas desleais na internet colocam em risco
as bases que permitem o exercício da imprensa independente no país”,
protestou a Folha no editorial, acrescentando: “Quando um país como o
Brasil admite um oligopólio irrestrito na banda larga – a via para a
qual converge a transmissão de múltiplos conteúdos, como TVs, revistas
e jornais – alimenta um Leviatã capaz de bloquear ou dificultar a
passagem de dados atores que não lhe sejam convenientes”.
“Nossa legislação é um cipoal de gambiarras”
Do ponto de vista dessas empresas, portanto, o
debate sobre um novo marco regulatório para o setor envolve,
sobretudo, uma disputa de mercado com as grandes corporações do setor
de telecomunicações. Mas essa agenda não se resume a uma questão de
mercado. Há interesses públicos em jogo – como o direito à uma
informação de qualidade que contemple a diversidade cultural e
política do país – que vem sendo bloqueados pela intransigência do
grande capital privado do setor.
Para quem ainda tinha alguma dúvida, a dimensão
pública do tema ficou evidenciada nos relatos das experiências de
países como França, Inglaterra, Espanha, Portugal, Argentina e Estados
Unidos. A existência de um marco regulador na área da comunicação é
hoje um indicador da qualidade da democracia de um país.
O Brasil ainda engatinha nessa área. A nossa
legislação de telecomunicações, lembrou Franklin Martins, é
absolutamente ultrapassada, remontando a 1962, “quando havia mais
televizinho do que televisão”. Essa legislação é hoje um “cipoal de
gambiarras”, ilustrou o ministro. Ele deu outro exemplo: “Todos nós
sabemos que deputados e senadores não podem ter canal de televisão. E
todos sabemos que têm. O que vamos fazer?”
Os conferencistas internacionais contaram o que
seus países fizeram e seguem fazendo para proteger e incentivar a
produção independente nacional e regional, para evitar a concentração
de propriedade ou para defender crianças e adolescentes de
publicidades de bebidas e medicamentos, apenas para citar alguns
conteúdos. Propostas estas que seguem enfrentando forte resistência no
Brasil.
Uma resistência alimentada por preconceitos e
fantasmas arrastando correntes, na imagem adotada pelo titular da
Secretaria de Comunicação Social do governo brasileiro. “Só um debate
público transparente afasta os fantasmas. Queria convidar todos a
deixar os fantasmas no sótão. É lá que devem ficar”. Trata-se de um
debate irreversível, repetiu, fazendo uma previsão: “Estou convencido
que a área da comunicação no governo Dilma terá o mesmo tratamento que
a área de energia teve no primeiro governo Lula”.
Os primeiros meses de 2010 dirão se a previsão
poderá ser realizar ou não. O que parece certo é que dificilmente a
velha imprensa conseguirá bloquear esse debate usando seus fantasmas
empoeirados a acenar com a ameaça da censura, ameaça esta que só vem
se materializando nas suas próprias redações.