Informe
publicitário pago publicado fora de Minas Gerais, que levou
o PSDB mineiro a recorrer ao Ministério Público
por
Luiz Carlos Azenha
Foram 112 dias de greve, encerrados em 27
de setembro passado com a promessa de que haveria
negociações. O governo fez uma proposta, rejeitada pelo
SindUTE, o
Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas
Gerais, sob a alegação de que não atendia à reivindicação
básica, a adesão de Minas ao piso nacional.
O governo decidiu, então, levar adiante a
votação do substitutivo número 5 ao projeto de lei 2.355. Na
noite de 23 de novembro, por 51 votos a 20, o texto foi
aprovado.
Para Beatriz Cerqueira, coordenadora-geral
do Sindicato, as ações de Antonio Anastasia (PSDB) revelam
descompromisso com a política federal de valorização do
professor, que se organizou em torno da aprovação do Piso
Salarial Profissional Nacional, em 2008. A lei foi objeto de
uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) movida por
governadores de estado até ser confirmada pelo Supremo
Tribunal Federal (STF) em abril de 2011.
Em vez de implantar o piso, no entanto, em
fevereiro de 2011 o governo mineiro criou uma nova forma de
remuneração, o subsídio, estabelecendo que os servidores em
educação poderiam optar pelo novo modelo até 10 de agosto.
Dos 200 mil servidores que puderam escolher, 153 mil
rejeitaram o subsídio.
Agora, com a aprovação do substitutivo, o
subsídio será imposto a todos.
Os professores começaram a campanha
salarial reinvindicando o piso conforme calculado pela
Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação (CNTE), de R$
1.597,00. Recuaram para o piso calculado pelo Ministério da
Educação, de R$ 1.187,00, valor sobre o qual seriam
acrescidas as gratificações e vantagens. O governo mineiro
pagará R$ 1.122,00 em 2012 com todas as gratificações e
vantagens, inclusive vale-transporte e vale-alimentação, já
embutidas. Além disso, os professores mineiros em início de
carreira perderão direitos adquiridos pelos antecessores. E
não há compromisso do governo Anastasia com o reajuste
previsto para o piso em 2012 — segundo Beatriz Cerqueira, de
16%.
A dirigente sindical se surpreendeu com o
compartamento da bancada governista na Assembleia: “Votaram
um projeto que nem eles conheciam e que não discutiram com
ninguém”. Como o projeto foi votado em regime de urgência,
as sessões se sucederam durante 12 horas. Só a oposição se
manifestou. Os governistas ficaram em silêncio.
Beatriz considera que o comportamento não
revelou força, mas fraqueza do governo, que se apoiou na
tradicional estratégia conservadora diante dos movimentos
sociais: criminalização, judicialização e campanhas
midiáticas.
Polícia, Justiça e Mídia, onde o governo
mineiro ganha todas (sem falar no Ministério Público, que
foi quem pediu que a greve fosse declarada ilegal).
O PSDB chegou a ponto de recorrer ao
Ministério Público depois que o SindUTE publicou anúncios
sobre a greve nos jornais
Folha de S. Paulo e
Correio Braziliense,
alegando que as publicações ficavam fora da base sindical.
Por outro lado, o governo Anastasia acaba de lançar uma nova
campanha publicitária de “esclarecimento”, em que faz
acusações diretas ao SindUTE.
A publicação dos dois anúncios do
sindicato foi paga com dinheiro de contribuições
voluntárias, portanto, com dinheiro privado; a campanha do
governo Anastasia, que inclui comerciais na TV e no rádio, é
bancada com dinheiro público.
“Tudo terminou de uma forma extremamente
autoritária”, diz Beatriz. “Toda vez que alguém discorda do
governo, argumenta, discute conteúdo e debate números, como
nós, que temos acompanhado a execução do orçamento do
Estado, aí o governo não dá conta do diálogo”, argumenta.
“O que o governo fez foi só adiar o
conflito, porque a insatisfação que existe hoje na escola é
principalmente por causa de outro elemento: com este projeto
o governo retira direitos da categoria. Você tem servidores
que têm direito a determinadas vantagens ou gratificações em
decorrência da função que exercem que deixarão de existir e
não poderão mais ser adquiridas a partir de janeiro de 2012.
Então, estamos diante de um governo que não cumpre o que
assina, que não consegue estabelecer uma relação de diálogo,
não resolve o conflito da relação de trabalho e retira
direitos da categoria”.