DEU NO BLOG DO SILVIO MEIRA
debate na revista eletrônica horizontes,
da sociedade brasileira de computação [SBC], sobre a regulamentação
[ou não] das profissões de informática.
CONTRA A REGULAMENTAÇÃO, ricardo anido, professor da unicamp e
diretor de relações profissionais da sbc [negrito
nosso]:
…A restrição do exercício da profissão na área de Informática
a detentores de diplomas de alguns cursos não condiz com a
realidade, nem no Brasil nem no exterior. Em nenhum país com
economia avançada essa restrição existe: Estados Unidos, Inglaterra,
França, Alemanha, Japão, Itália, Canadá, por exemplo, não restringem
a atuação de profissionais da área. Nossos concorrentes diretos na
busca por atração de oportunidades na área de informática, em
especial Índia, China, Irlanda e Rússia, também não colocam qualquer
restrição à atuação na área. Se a profissão fosse
regulamentada na Suíça, Tim Berners-Lee não teria inventado e
implementado a primeira versão da World Wide Web, já que ele tem um
diploma de Física. Raymond Samuel Tomlinson, com diploma de
Engenharia Elétrica, fosse a profissão regulamentada nos EUA, não
teria construído o primeiro sistema de correio eletrônico. Bill
Gates, primeiro programador e fundador da Microsoft, não terminou
seu curso de graduação em Harvard e não poderia ter trabalhado na
área e iniciado a maior empresa de software do mundo.
desde sua fundação, a SBC tem lutado contra a regulamentação das
profissões [e não da profissão, pois as profissões de informática são
dezenas…] de informática. este combate tem tido sucesso até agora, mas
um novo alinhamento de forças, no ambiente legislativo, ameaça
restringir a atuação, na área, apenas aos diplomados por algum curso
“da área”, registrados em um conselho profissional idem. por trás dos
panos, há uma intensa atividade de fábricas de diplomas [que tem
vagas, mas não alunos] e virtuais donos de conselhos regionais e
federais, interessados nas anuidades dos seus futuros tutelados.
A FAVOR da regulamentação, antônio neto, presidente do sindicato
dos trabalhadores em processamento de dados de são paulo [negrito
nosso]:
…E o Bill Gates? Todos os modelos de regulamentação que temos
proposto pressupõem a exigência de capacidade técnica comprovada
apenas para os gerentes, líderes e/ou responsáveis pelo projeto.
Pelo que nos consta, Bill Gates jamais foi o responsável (nem o
principal executivo da empresa ele era) pelos seus projetos, e se
fosse poderia contratar um gerente credenciado e continuar
trabalhando normalmente. E os geniozinhos não seriam, em
hipótese alguma, excluídos do mercado. Eles seriam, como qualquer
pessoa de juízo e bom senso iria exigir, supervisionados por alguém
que tivesse noções multidisciplinares e que colocasse ordem na casa.
E não poderia fazer qualquer coisa que lhe desse na telha, sem a
menor responsabilidade, como, com certeza, todos nós gostaríamos que
acontecesse no desenvolvimento de algo que afetasse nossa saúde,
segurança, dinheiro, governo, etc.
este blog apóia em gênero, número e grau a posição CONTRA A
REGULAMENTAÇÃO promovida pela SBC desde o princípio dos tempos; não é
porque o país é cartorial e tem suas relações de profissão, trabalho e
emprego ainda no séc. XVIII que nós todos temos que cair no fosso
comum e suicidar nosso futuro em nome de um carimbo, um conselho e uma
“profissão” como tantas outras que só existem, hoje, só porque são
“regulamentadas”.
além do mais, ninguém com mais de dois neurônios quer ser tutelado
por qualquer outro alguém que bote “ordem na casa” e, por uma módica
quantia, assinaturas nos projetos, como no sistema bisonho-cartorial
de profissões regulamentadas que temos hoje em pindorama.
regular as profissões de informática –se pegasse- teria todo tipo
de efeito colateral, afetando inclusive o desenvolvimento de software
livre, uma das mais criativas –e desordenadas- atividades do setor de
software… que tem o apoio, em gênero, número e grau, de países
emergentes como o brasil. segundo ricardo anido [negrito
nosso]…
…E como ficaria o movimento de software livre? O
desenvolvimento de software de forma cooperativa e distribuída é um
dos exemplos mais interessantes e bem sucedidos do uso da tecnologia
da Internet para o bem da sociedade. Pessoas com interesses comuns e
conhecimento de programação têm desenvolvido soluções avançadas de
software, de alta qualidade, que são utilizadas gratuitamente, tanto
por empresas, governos ou indivíduos. Através de mecanismos às vezes
complexos de revisão para garantia de qualidade, a comunidade de
software livre consegue permitir que qualquer pessoa contribua no
desenvolvimento dos aplicativos. As contribuições são
aceitas considerando exclusivamente a qualidade do código produzido,
não importando a nacionalidade, formação escolar ou profissão do
contribuinte. Muitos médicos, engenheiros, músicos, físicos,
biólogos, dentistas, matemáticos e outros profissionais participam
ativamente do desenvolvimento de software livre, com o conhecimento
em programação adquirido de forma auto-didata.
pra terminar, anido, em nome da SBC, diz que [negrito
nosso]…
…A SBC entende que, para proteger os trabalhadores da área de
informática, e lutar por melhores salários e condições de trabalho,
o único caminho é fortalecer os sindicatos e as associações
de classe. A proteção artificial que uma regulamentação da profissão
baseada na exigência de diploma fornece aos trabalhadores da área de
informática, pela restrição à atuação de profissionais competentes
que não têm diploma, ou têm diploma em outra especialidade, é
prejudicial à sociedade como um todo, além de fazer o país
rapidamente perder competitividade, com grande prejuízo para as
empresas, fechando um círculo vicioso que acabaria por diminuir o
número de postos de trabalho na área de informática.
vá, você mesmo, ler a discussão na íntegra. você, eu, nós e nossos
representantes no congresso é que vão decidir. tomara, para o brasil e
para os brasileiros que trabalham em informática, que –pelo menos
neste caso- vença o status quo… pois a atual
desregulamentação das profissões de informática é uma das poucas
atualidades do nosso regime profissional e trabalhista, de resto um
arcabouço merecedor de uma completa e radical reescritura, porque
fonte de todo tipo de ineficiências e responsável por uma parte
considerável do que se costuma chamar de custo brasil.
e tem mais: há uma campanha em andamento para regulamentar uma
porrada de outras profissões, incluindo design e
dee-jaying. já imaginou? nem botar um
som num bailinho você vai poder mais; para isso, será necessário uma
graduação em animação & baladas, incluindo, na grade curricular,
cadeiras como o lugar e o tempo do funk na noite carioca e
lounge & debussy: uma estética lenta e suave para inaugurações e
fins de festa.
e não só: o conselho federal de dee-jaying ordenará que só
poderá tocar um certo tipo de música quem já tiver pago as cadeiras
correspondentes e, claro, pago a anuidade. para garantir o mais
estrito cumprimento das regras, será criada uma patrulha musical,
responsável por investigar feijoadas, churrascos, buchadas, festas
infantis, bares, restaurantes, casas noturnas e garantir que todo
mundo perto de um pick-up é diplomado em curso reconhecido e
tem sua carteirinha em dia. claro que o DJ só vai estar tocando o que
o conselho autorizar para cada nível de formação e contexto.
pra garantir a ordem na casa, multas de todos os tipos e tamanhos
serão lavradas contra os estabelecimentos que não cumprirem as regras
[e não contra os supostos DJs, note bem], como forma de coagir a
sociedade a acatar a supervisão dos responsáveis pela nossa diversão.
botar um CD, ligar um iPod no amplificador ou sintonizar uma estação
qualquer e deixar o som rolar, em lugares com mais de 50 pessoas, será
terminantemente proibido e o conselho, para garantir o leite das
crianças de quem investiu em uma graduação em dee-jaying,
passará uma lei federal obrigando tais ambientes a ter um DJ
permanente em sua folha, registrado e em dia com suas obrigações
profissionais… vade retro.
parece exagero? volte pra informática, reescreva o exemplo dos DJs
no contexto de software e programadores [por exemplo] e vai parecer
com o que teremos rolando por aí se as profissões de informática forem
mesmo regulamentadas. afinal de contas, uma profissão regulamentada é
um monopólio… e os “donos” dos monopólios, como mostra a história
universal, acabam querendo, sempre, dominar o mundo.