Amadeu:
Internet tem janela para controle cultural e político
A entrevista com o sociólogo
Sergio Amadeu foi feita por Juliana Sada,
do Escrevinhador – e disseminada em lista pelo
Castor Filho:
Você poderia explicar o que
é o Plano Nacional de Banda Larga e qual a sua importância?
O Plano Nacional de Banda Larga
é um conjunto de ações do governo para levar a internet com velocidade
razoável para todo território nacional. Hoje grande parte do nosso
território tem acesso apenas à conexão discada. Isto impede que se
faça uma série de coisas: acesso à prestação de serviços online,
acesso à multimídia…
Portanto o Plano Nacional tenta
levar as redes de alta velocidade a todos municípios, a todas
periferias das grandes cidades porque as empresas operadoras de
telefonia, responsáveis pela banda larga, não fizeram isso até hoje.
Nada impedia que essas operadoras levassem banda larga para o nordeste
ou mesmo para a Cidade Tiradentes. Há mil restrições em locais onde
não é rentável ter banda larga. Aí vem a questão: a banda larga que
foi implementada no Brasil é cara e de baixa qualidade, muito
instável.
O Plano Nacional de Banda Larga
amplia a rede de banda larga fazendo parcerias também com pequenos
empreendedores, com empresas estatais e retomando a Telebrás – não
como a empresa estatal que era mas como um gestor do sistema. Este
será mais amplo em relação ao gerado pelas privatizações, que é um
sistema de grande operadoras que querem uma alta taxa de remuneração e
por isso deixam abandonadas as regiões carentes.
O Plano Nacional de Banda Larga
no fundo é o reconhecimento de que a Anatel não conseguiu que a
empresas operadoras, simplesmente por medidas regulatórias,
expandissem a banda larga. Até porque a banda larga, ao contrário da
telefonia fixa, não tem metas de universalização. Então as operadoras
cobram o que querem e não são obrigadas a cobrir todo o território. Já
o reconhecimento de que elas não estão dando conta dessa necessidade
urgente do nosso país, fez com que o governo retomasse a Telebrás pra
criar uma competição justa e importante com essas operadoras. E elas
vão ter baixar preço, vão ter que ampliar sua malha.
E que deficiências você vê no projeto do governo?
O que o governo está propondo
ainda não é o ideal porque ele está trabalhando com 512k de
velocidade, isso é completamente insuficiente. Em relação ao custo,
não sabemos ao certo mas deve ser em torno de 15 ou 25 reais, que não
é o ideal para a realidade socioeconômica brasileira.
Acho que a gente tem que observar
que as operadoras fracassaram nesse modelo só do mercado, nada impede
ou impedia que colocassem banda larga em todo o lugar então o que o
governo está fazendo é uma ação competitiva também que é necessária ao
modelo de privatização que houve.
Se você tirar todos os impostos
do custo de banda larga hoje, você ainda tem um dos serviços mais
caros do mundo. O argumento das operadoras é que são muito tributadas,
podem até ser mas não é esse o problema. O problema é que eles tem um
modelo de remuneração absurdo, eles querem controlar o tráfego da
rede. É uma coisa muito absurda, um dos dirigentes dessas operadoras
dizia “olha vocês não podem navegar no horário que vocês querem, vocês
tem que navegar no horário que tem menos tráfego”. Ora, eu pago caro e
ele ainda quer dizer que horário eu devo usar.
Se deixarem que as forças de
mercado atuem livremente nós estamos perdidos, nós não vamos conseguir
ter atendidas as necessidades informacionais da sociedade. É básico
isso. E por isso que o plano é bem interessante apesar de que espero
que ele melhore, que o governo reconheça a necessidade de preços mais
baixos e banda mais alta.
A retomada da Telebrás é o
ponto do plano que está sendo mais atacado.
Claro, porque as operadoras
queriam receber o dinheiro, queriam tirar o imposto e manter
praticamente os preços que elas praticam. Ou seja, o governo daria
bilhões para elas fazerem no modelo absurdo, de desrespeito ao
consumidor que elas vêm praticando.
Então seguindo a lógica de vários
outros países extremamente modernos, como a Holanda, o governo montou
uma empresa que vai articular a competição. Daí é obvio que as
operadoras disseram “não, isso é incorreto”. Incorreto para o modelo
de privatização que houve no Brasil que premiou essas empresas sem
exigir padrão de qualidade e baixo preço.
A Telebrás será uma empresa de
gerenciamento e de articulação. Tem vários pequenos provedores de
conexão que ficam sufocados por essas grandes empresas. Com a Telebrás
, eles poderão competir com as grandes. Isso é bom. A Telebrás poderá
ajudar também as prefeituras que desejarem abrir o sinal, já que hoje
as que fazem isso são altamente taxadas pelas operadoras. Então elas
sufocam as possibilidades de uso coletivo, de um programa social e de
direito humano à comunicação que é dar o sinal de rede gratuitamente.
Das grandes operadoras, quantas são que dominam o mercado
nacionalmente?
Elas estão se fundindo, hoje
talvez sejam quatro no máximo. É um mercado oligopolizado, ou seja,
poucos ofertantes de serviço. Isso é um problema. E eles tem muito
dinheiro.
O processo de convergência de
digital, ou seja de tudo ir pras redes digitais, gera uma economia de
rede mais forte. Ou seja as empresas vão se coligar, é uma tendência
mundial. E o capital é concentrador, enquanto houver capitalismo vai
ser concentrador. Só uma operadora em São Paulo fatura mais que todo
setor de radiodifusão no Brasil, que deve ter faturado 18 bilhões. Só
uma operadora fatura mais, ou seja, tem muito mais poder econômico.
Quais obstáculos estão postos para a implementação do Plano Nacional
de Banda Larga?
A Dilma ganhando, eu acho que
fica tudo bem mas se ela perder, o plano vai ser feito do jeito que as
operadoras querem. E para eles é uma briga econômica. Tomara que dê
certo mas vai ter que dar porque isso é estratégico. As empresas já
estão percebendo isso. Vai ter que ter, não tem jeito.
O que significa a
democratização do acesso à internet? Como as pessoas se beneficiam
disto?
Eu acho, apesar de ser bastante
controverso, que as pessoas ganharam mais poder comunicativo. A
internet, por ser uma rede distribuída, dá mais condições das pessoas
se comunicarem, muito mais que no período antes da internet. O
telefone não permitia que eu mandasse uma informação que pudesse ser
vista por milhares de pessoas, hoje você tem pontos na rede que tem
capacidade de dialogar com muitas pessoas. Então ela aumentou o poder
comunicativo, sem dúvida nenhuma.
Por outro lado, ela reduziu este
mesmo poder de grandes grupos. A Globo é muito mais poderosa que um
blogueiro, não tem cabimento achar que não. Mas ela começa a enfrentar
movimentos e críticas, ela começa a enfrentar ondas na rede. Como foi
o #dilmafactsbyfolha . A Folha atua como um partido politico, não só
ela mas principalmente. Então ela faz combinações com as campanhas de
José Serra e Geraldo Alckmin, ela coloca as manchetes de acordo com a
campanha…E ela fez uma manchete completamente descabida e aí gerou um
reação. Ninguém sabe exatamente com quem começou mas se você for ver
foi de uma pessoa comum indignada e as pessoas acharam legal e
começaram a falar, a tirar sarro da Folha. A manchete era “Dilma erra
e dá prejuízo de 1 bilhão para consumidor” e o pessoal começou a
colocar toda a culpa do que acontecia na Dilma. Isso gerou uma
desmoralização da Folha de S.Paulo e isso não tende a diminuir. Esta
retirada de poder dos grupos é importante. Agora isso quer dizer que
vai acabar a empresa jornalistica? Claro que não. Só que essas
empresas, se elas forem querer atuar achando que tem o poder que tinha
antes, elas vão de dar mal. Elas terão que conviver com a rede. Então
acho que isso beneficia muito a nossa sociedade.
A mídia de massas era importante
por um lado porque fiscalizava os governos mas quando ela queria atuar
de modo classista contra interesses populares e democráticos, ela atua
com a maior tranquilidade. Então hoje você tem um jogo mais complexo.
E eu acho isso extremamente positivo, teremos uma diversidade maior de
atores. Isso é o que está acontecendo hoje.
Quais são os obstáculos que estão postos e quais iniciativas de
cerceamento da liberdade na internet?
Existem governos, como o da
China, e grupos de pessoas ou políticos conservadores que querem
transformar os protocolos, o controle que é dado tecnicamente na
internet em controle político e cultural.
É difícil a gente falar isso: a
rede amplia a liberdade de expressão, amplia a capacidade de interação
entre as pessoas, ela é uma rede que permite a liberdade nesse
sentido. Mas ela é uma rede também de controle. Ela é uma rede
cibernética: de comunicação e controle.
Atualmente você pega um grupo
como o Google que conseguiu atrair a atenção e interesse das pessoas,
que passaram a entregar as suas informações voluntariamente, porque
era legal usar o Gmail,o Youtube, o Orkut, as aplicações, o mecanismo
de busca…É uma empresa que não obrigou ninguém a passar tanta
informação para eles mas eles são um repositório de informações jamais
alcançado por alguém história da humanidade.
Nunca tivemos uma situação onde
pudessemos falar tanto e nunca fomos tão controlados. É uma aparente
contradição mas não é. A própria rede para ser dispersa, tem que ser
extremamente controlada. Mas na hora que eu transformo esse controle
tecnológico, que é tipico da cibernética, em controle cultural e
começo a dizer que deve passar por determinados lugares, que tem que
definir o comportamento político cultural das pessoas. Daí eu tenho
algo extremamente grave. Então nós estamos com um grande problema
hoje. E uma das grandes expressões desse problema de transformação do
controle tecnológico em controle político se dá em torno da
neutralidade da rede.
Você pode explicar o conceito de neutralidade da rede?
A internet ela pode ser entendida
como uma rede lógica, uma rede de informações. Para usarmos a
internet, utilizamos a infraestrutura de telecomunicações, ou seja, os
controles do que a gente chama de camada física da rede. Essas
operadoras de telecom querem controlar o fluxo de informações que
passa por seus cabos.
A internet até hoje não funcionou
assim porque uma camada era neutra em relação às outras. Daí o termo
neutralidade da rede. Ou seja, até hoje não era permitida a
discriminação dos pacotes [de informação], seja por origem, destino,
conteúdo…
Agora essas operadoras dizem
“não, nós estamos com um problema: as pessoas tão baixando vídeo e
compete com um tráfego importante de dados. Os vídeos tem que pagar
para andar na minha rede”. É como se fossem pedágios virtuais nesse
sentido. E elas querem assim: se o blog do Sergio Amadeu não tiver
acordo com uma operadora americana, não vão abrir o blog com a mesma
velocidade do MSN, que tem um acordo.
Então nós vamos implantar
estradas pedagiadas, vamos implantar as regras de mercado dentro do
ciberespaço. O ciberespaço sempre permitiu ação do mercado mas ele não
é o mercado, ele é o espaço comum, onde todos eram tratados de maneira
equânime. E as operadoras com essa tentativa de restrição, estão
interferindo diretamente no meu interesse, na minha liberdade de me
comunicar.
Isso coloca em risco a
criatividade da rede. Se eu criar uma nova aplicação, o que vai
acontecer? Uma operadora pode dizer “não sei o que é isso, não vou
deixar passar”. O Twitter poderia não existir, o Youtube…Pois todo
mundo que quiser criar algo vai ter que ser sócio deles, senão não vai
poder caminhar nas redes. Isso é uma aberração.
Defender a neutralidade na rede,
é defender a liberdade de expressão, de criação, de invenção. E é uma
das coisas mais importantes no mundo da internet hoje.
Que iniciativas existem
nesse sentido?
Nos EUA, a Justiça deu ganho de
causa à empresa Conquest que alegava poder privilegiar determinados
pacotes de informação em detrimento a outros em sua rede. E a FCC, a
Anatel deles, está contra essa decisão e tem ações legais no
parlamento americano para aprovar projetos que garantam a neutralidade
na rede, contra a discriminação dos pacotes.
No Brasil colocamos no Marco
Civil da Internet que um dos princípios da internet no Brasil é a
neutralidade na rede. Isso colocaria, ao menos no nosso território,
uma situação difícil para operadoras que começassem a interferir nos
pacotes. É um movimento no qual a gente tenta aprovar leis em todos
os países importantes do mundo pra garantir a neutralidade da rede.
Porque isso não depende de
cada país já que o acesso não tem fronteiras, certo?
Essa questão é bem interessante.
O que a gente quer fazer em cada país é garantir que a internet
continue livre e não fazer uma lei para dizer “meu país é diferente”.
Então é um espírito de uma parte da opinião pública mundial que luta
por isso. Olha que interessante: a internet é transnacional mas se os
EUA aplicarem o processo de quebrar a neutralidade, eles vão impor
essa lógica no mundo inteiro pois é la que estão os maiores provedores
de conteúdo e as principais redes sociais.
Então, na verdade, temos que
lutar com leis contra o poder de oligopólio desse controladores das
redes físicas. A rede física é que controla os cabos, satélites, cabos
submarinos…Esses caras são oligopólios no mundo, é mais fácil a gente
convencer o governo americano a fazer algo do que a convencermos uma
operadora dessa. Porque eu não posso elegê-los, eu não posso
controlá-los. Eles não se guiam por preceitos democráticos, é a
ditadura do capital. Então é muito grave, daí estranhamente para
defender a liberdade transnacional, a gente recorre às leis
nacionais. Dizendo “neste pedaço da terra, o fluxo é livre, naquele
também, naquele também” e se esses países forem os mais importantes, a
gente venceu a batalha.
E qual o interesse das operadoras em fazer isso? Tem a ver com o
interesse da indústria fonográfica em barrar o download de músicas,
por exemplo?
O interesse maior é eles ganharem
mais dinheiro, é cobrar. E aí tem a indústria do copyright, que pensa
“bom, se eles puderem controlar a rede, eu faço um acordo com eles pra
não passar protocolo bitorrent pela rede deles e aí eu acabo com a
pirataria”. É ilusão dos caras isso. Mas o principal interesse das
operadores é aumentar seu controle, eles pegam o controle técnico que
tem – os computadores sabem que pacotes estão passando – e aí eles
ganham mais dinheiro.
E para ganhar mais dinheiro eles
destroem a liberdade de expressão, de criação. Eles passam a ter um
controle grande porque se eu inventar a Web 3D, vou ter fazer um
acordo com ele porque se não eles podem barrar meu conteúdo. Vamos ter
cercas digitais e eles só abrem a porteira mediante pagamento ou
acordo. Isso é um controle gigantesco sobre a criatividade.
No mundo, as operadoras estão se
concentrando – vão ser de 10 a 12 grandes operadoras, que tem mais
poder que estados. E é um poder sobre a comunicação e então a gente
tem que superar essa nossa dependência desse tipo de companhia – não
sei ainda qual seria a solução mas a situação atual é grave. Essas
empresas são estratégicas do ponto de vista do direito a comunicação
hoje e elas tem que ter o controle social.
Quem são as grandes empresas
de telecom? Quem são esses grupos que controlam o mercado?
Tem algumas empresas grandes dos
EUA, a AT&T, Conquest, Verizon…Alguns grupos europeus como a
Telefônica, a Vodafone e algumas alemãs. Tem duas grande chinesas,
muito grandes. Mas o que está acontecendo é que essas empresas estão
se coligando, então o grande perigo é essa enorme concentração. É um
setor estratégico, eles tem toda a infraestrutura da rede. Por
exemplo, como é que a China faz: eles não deixam que alguns IPs sejam
lidos, o fluxo de alta velocidade vem e ao entrar na China, tem um
computador que filtra. É o chamado grande firewall chinês, a grande
barreira.
É possível haver uma regulação a nível mundial? Alguma instância de
decisão?
Não, acima dos Estados Nacionais
tem acordos. Seria uma boa ideia a gente tentar fazer um acordo em
defesa da liberdade na internet mas é muito difícil. No momento nós
temos que ganhar a opinião pública em cada país. Porque aí as
sociedades em cada local brigam. Na Espanha tem uma briga forte em
defesa da neutralidade da rede. Na França infelizmente a gente perdeu
para o Sarkozy, que criou lei absurdas. Mas a gente tem um movimento
mundial.
Você pode explicar sobre a
lei aprovada na França e que foi debatida no parlamento de vários
países europeus?
A grande iniciativa hoje é
chamada “three strikes”, são as três batidas. Eles identificam que
você está baixando, por exemplo, um arquivo de música. Então ele
violam a sua privacidade para ver que tipo de arquivo você está
baixando. Se for um arquivo protegido pelo copyright, ou melhor
dizendo cerceado pelo copyright, eles te mandam um aviso “você está
violando a lei” – é a primeira batida. Se você continuar, eles te
mandam um segundo aviso e na terceira vez eles cortam a sua conexão,
em geral por um ano.
Qual o problema disso? Pense na
minha casa que tem três pessoas usando a internet, só eu baixei a
música. Na hora que me desconectam, são prejudicadas outras pessoas
que não tem nada a ver com isso. Quer dizer, é uma lei inexequível.
Tanto é que na França ela foi aprovada há mais de um ano mas não foi
aplicada.
A grande questão em relação ao IP
[Internet Protocol, número de identificação de um computador na rede]
é a seguinte: para você navegar na internet você tem que ter um número
de IP, então é muito fácil identificar o IP, a máquina e a região em
que está. O grande problema é você individualizar o IP, ou seja,
vincular um IP a uma identidade civil. Daí toda aquela navegação, tudo
o que aquele IP fez pode ser rastreado por outros e não só
autoridades. Basta que eu sabia que o IP xis é do Sergio Amadeu. Eu
acabo seguindo o rastro digital. Então é uma coisa bem complicada do
ponto de vista da privacidade