
Renato Rovai: “MinC rasga compromisso de
campanha da candidata Dilma Rousseff”
21 de janeiro de 2011 às 13:23
por Renato Rovai
A ministra da Cultura Ana de Holanda lançou uma ofensiva contra a liberdade do
conhecimento. Na quarta-feira pediu a retirada da licença Creative Commons do
site do Ministério da Cultura (MinC), que na gestão de Gilberto Gil foi pioneiro
em sua adoção no Brasil.
O exemplo do MinC foi àquela época fundamental para que outros sites
governamentais seguissem a mesma diretriz e também publicassem seus conteúdos
sob essa licença, como o da Agência Brasil e o Blog do Planalto.
A decisão da ministra é pavorosa porque, entre outras coisas, rasga um
compromisso de campanha da candidata Dilma Rousseff. O site de sua campanha foi
publicado em Creative Commons o que denotava compromisso com esse formato.
Além desse ato simbólico, que demonstra falta de compromisso com o livre
conhecimento, a ministra pediu o retorno ao Ministério da Cultura do Projeto de
Lei de Revisão dos Direitos Autorais, que depois de passar por um debate de sete
anos e uma consulta pública democrática no governo Lula, estava na Casa Civil
para apreciação final e encaminhamento ao Congresso Nacional.
O que se comenta é que a intenção da ministra é revisar o projeto a partir das
observações do ECAD, um órgão cartorial e que cumpre um papel danoso para a
difusão da cultura no Brasil.
Para quem não conhece, o ECAD é aquele órgão que entre outras coisas contrata
gente para fiscalizar bares e impedir, por exemplo, que um músico toque a música
do outro. É uma excrescência da nossa sociedade cartorial.
Este blog também apurou que Ana de Holanda pretende nomear para a Diretoria de
Direitos Intelectuais da Secretaria de Políticas Culturais o advogado
Hildebrando Pontes, que mantém um escritório de Propriedade Intelectual em Belo
Horizonte e que é aliado das entidades arrecadadoras.
Como símbolo de todo esse movimento foi publicado ontem no site do Ministério da
Cultura, na página de Direitos Autorais, um texto intitulado “Direitos Autorais
e Direitos Intelectuais”, que esclarece a “nova visão” do ministério sobre o
tema. Vale a leitura do texto na íntegra , mas segue um trecho que já esclarece
o novo ponto de vista:
“Os Direitos Autorais estão sempre presentes no cotidiano de cada um de nós,
pois eles regem as relações de criação, produção, distribuição, consumo e
fruição dos bens culturais. Entramos em contato com obras protegidas pelos
Direitos Autorais quando lemos jornais, revistas ou um livro, quando assistimos
a filmes, ou simplesmente quando acessamos a internet.”
Essa ofensiva de Ana de Holanda tem várias inconsistências e enseja algumas
perguntas:
A principal, o governo como um todo está a par desse movimento e concorda com
ele?
Afinal a presidenta Dilma Rousseff se comprometeu, como Ministra da Casa Civil e
candidata à presidente da República, a manter o processo de revisão dos direitos
autorais e promover a liberdade do conhecimento. E um desses compromissos foi
firmado na Campus Party do ano passado, em encontro com o criador das licenças
Creative Commons, Lawrence Lessig.
O atual ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, quando candidato
ao governo de São Paulo, também se comprometeu com esta luta, inclusive numa
reunião que contou com a presença deste blogueiro, na Vila Madalena, em São
Paulo.
O que a atual presidenta e o ministro Mercadante pensam desta inflexão?
E o pessoal do PT ligado à Cultura, o que pensa disso?
Muitos dos militantes petistas da área comemoraram a indicação de Ana de
Holanda.
Alguns entraram em contato com este blog para dizer que os compromissos
anteriores não seriam rasgados.
E agora, o que eles pensam dessas decisões da ministra?
Dilma Rousseff foi eleita também para dar continuidade ao governo Lula. Se havia
interesse em revisar certas diretrizes na área da Cultura e que vinham sendo
implementadas com enorme sucesso e repercussão nacional e internacional, isso
deveria ter ficado claro. Isso deveria ter sido dito nos diversos encontros que
a candidata e gente do seu partido tiveram com esses setores.
Essas primeiras ações do MinC não são nada alentadoras. Demonstram um sinal
trocado na política do ministério exatamente no que de melhor ele construiu nos
anos de governo Lula.
Não há como definir de outra forma essa mudança rota: é traição com o movimento
pela democratização da cultura e da comunicação.
A ministra precisa refletir antes de declarar guerra a esse movimento social.
E o PT precisa assumir uma posição antes que seja tarde.
Porque na hora H, não é com o povo do ECAD e com o da indústria cultural que ele
conta.
PS: Conversei com um amigo que entende de conteúdos licenciados em Creative
Commons e ele me disse que a decisão da ministra de mudar o licenciamento do
site vale exatamente nada no que diz respeito ao que foi produzido na gestão
anterior.
Aquele conteúdo foi ofertado em Creative Commons e o Ministério não pode
simplesmente revogar a licença de uso.
Se isso for feito, o Ministério infringe a licença Creative Commons e se torna
um infrator de direitos.