Aconteceu mais um
encontro do PSDB para discutir e
estruturar o que chamam de “nova
agenda” que o partido pretende
apresentar ao País. Nas palavras
do ex-senador Tasso Jereissati,
presidente do Instituto Teotônio
Vilela, seu órgão de estudos e
pesquisas, foi um evento
destinado a repensar o Brasil
“para as próximas décadas”.
Realizado no Rio
de Janeiro, reuniu as principais
lideranças tucanas e alguns
técnicos vinculados ao partido.
Desses, quase todos eram antigos
colaboradores dos governos de
Fernando Henrique Cardoso, com
participação destacada na
formulação do Plano Real e na
condução da política econômica.
Quem achar que
foi uma oportunidade incomum,
engana-se. Não que o PSDB faça
seminários assim a toda hora.
Mas eles estão longe de ser
raros.
Pensando bem, se
há algo que não falta aos
tucanos é tempo e oportunidade
para eles. Há pouco mais de um
ano, houve outro quase idêntico,
desta feita em São Paulo, no
Instituto Fernando Henrique
Cardoso. Como ocorreu em agosto,
em plena campanha eleitoral,
seus principais líderes
políticos não compareceram,
deixando-o restrito ao
ex-presidente e assessores. Seu
título era “Transição Incompleta
e Dilemas da (macro) Economia
Brasileira”, mas o conteúdo não
diferia desse de agora. Ele
também pretendia formular uma
receita para o futuro do Brasil.
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Tucanos sem ziriguidum
As duas faces de FHC
Nenhum de nossos
partidos congrega seus luminares
com tanta frequência. Nem o PT,
que tem vida partidária mais
intensa e regular. Para não
falar nos demais, que costumam
fazer seus encontros apenas nas
convenções nacionais e
estaduais, exigidas pela
legislação.
O curioso nessa
multiplicação de eventos tucanos
é que eles reúnem sempre as
mesmas pessoas, para tratar dos
mesmos assuntos. Por que são
assim?
Alguém, em algum
momento (sabe-se lá com qual
fundamento), vaticinou que os
problemas do PSDB e das
oposições nos últimos anos – a
começar pelo mais óbvio, suas
derrotas para o PT nas eleições
presidenciais –, têm uma só
origem: a não valorização do
“legado de Fernando Henrique”.
De acordo com
esse raciocínio, José Serra e
Geraldo Alckmin erraram ao não
elogiá-lo e foram além,
desvalorizando-o. Assim teriam
“jogado fora a identidade” e
deixado as bandeiras à
disposição do PT, que,
ardilosamente, as teria tomado.
Tudo que
aconteceu de bom com Lula e o PT
e tudo que sobreveio de mal para
o PSDB teria nascido aí. Mas
esse pecado original seria
corrigível, desde que houvesse a
celebração daquela herança,
equivocadamente, abandonada.
Essa tese nada
mais é do que uma lenda. Nem
Serra nem Alckmin, nem Serra de
novo, perderam, porque não
“valorizaram o legado de FHC”.
Nem, muito menos, Lula e Dilma
Rousseff venceram porque se
“apropriaram” de seu conteúdo.
A falha
fundamental do argumento é
esquecer que a opinião pública
se mostrou plenamente capaz de
fazer sua própria avaliação do
“legado de FHC” e o desaprovou.
Não por lhe ter sido subtraída
“a verdade”, mas por ter feito
um balanço de acertos e erros, e
chegado a um saldo negativo.
Para o PSDB de
hoje e para o conjunto das
oposições, o problema do “legado
de FHC” não é ser pouco
reconhecido, mas o inverso: ser
reconhecido até demais. Não é
que as pessoas não percebam as
coisas boas de seu governo
(aquelas que Lula teria,
espertamente, surrupiado), mas
que as contextualizam em um todo
de que não sentem saudade.
E ninguém
acredita que tudo o que Lula fez
e Dilma está fazendo são
continuações canhestras do que
herdaram. Quando FHC brada, como
no último encontro tucano,
“Pegaram o nosso (programa) e
(o) executaram mal”, ele pode
ganhar o aplauso dos
correligionários, mas afronta o
sentimento da vasta maioria da
sociedade.
Há algo de
patético nesses eventos. As
fotos que a mídia publica se
parecem com as dos encontros de
30 anos das turmas de escola.
Todos estão velhos, todos
perderam o vigor da juventude. É
difícil identificar, no cidadão
maduro de agora, o colega de
antigamente.
A “turma do Real”
envelheceu. Hoje, o compromisso
maior de seus integrantes parece
ser com as ideias que tinham há
20 anos (fora os que têm com
seus próprios bancos). Tanto que
permanecem com elas e nem
cogitam a possibilidade de
revê-las. E que, a cada
oportunidade, as repetem como um
mantra.
Será que é assim,
com as mesmas pessoas, dizendo
as mesmas coisas, que as
oposições pretendem se
apresentar nas próximas
eleições? Será que não
desconfiam que, em 2014, as
ideias de 1994 podem estar
velhas? Que, muito mais que
homenagear as propostas antigas,
precisam se renovar e defender
uma nova visão do Brasil?
Será que sua
“nova agenda” é permanecer na
adoração do passado?( Marcos
Coimbra, na "Carta Capital").