
Reter dados de internautas não ajuda na
luta contra cibercrimes
Jennifer Baker, do IDG Now – via Observatório do Direito à Comunicação
De acordo com grupo alemão especializado em liberdades civis, armazenar
informações pode até mesmo prejudicar a segurança na web.
O armazenamento de dados de telecomunicação não ajuda a combater crimes, de
acordo com um relatório da polícia alemã, divulgado nesta quinta-feira (27/1).
A Diretiva de Proteção de Dados da União Europeia, que atualmente está em
revisão, exige que as empresas nacionais de telecomunicações armazenem
informações de seus clientes, com o intuito de facilitar em casos de
investigação e prevenção contra crimes graves.
A Diretiva foi implementada na Alemanha em 2008, mas não surtiu efeito contra a
realização de crimes graves, de acordo com um estudo detalhado feito pelo grupos
de liberdades civis AK Vorrat. No ano passado, autoridades alemãs concordaram
com um veto sobre retenção de dados, por considerar que ela interfere nos
direitos fundamentais dos cidadãos. Outro país que se declarou a ação
inconstitucional foi a Romênia.
De acordo com a lei, empresas de telefonia fixa e móvel e provedores de Internet
seriam obrigados a reter dados de tráfego e localização, como também sobre os
planos assinados por todos os clientes. A lei entrou em vigor na Alemanha em
2008, determinando um período de seis meses para que os dados fossem
armazenados. Mas, durante o período em que esteve em vigor, os crimes graves
subiram para aproximadamente 64 mil e menos crimes foram solucionados: 77,6% em
2007 contra 76,3% em 2009.
“Isto é porque os usuários começaram a usar técnicas para evitar que seus dados
fossem capturados”, disse o grupo AKVorrat. Além disso, os que queriam
permanecer ‘anônimos’ tinham opções, incluindo cafés, acessos via Wi-Fi,
serviços para tornar o usuário anônimo e telefones públicos, por exemplo.
“Esse tipo de comportamento torna sem sentido a retenção dos dados, como também
frustra qualquer técnica de investigação mais específica, que poderia ser
utilizada para a aplicação da lei. “O armazenamento pode ser ruim para as
investigações criminais, porque ele também tornam inúteis algumas técnicas”,
comentou a organização.
Mas existe uma alternativa. O ministro da Justiça alemã, Sabine
Leutheusser-Schnarrenberger, quer ver uma abordagem diferente sobre o caso,
incluindo a investigação dos dados somente para casos específicos.
A Autoridade Europeia para a Proteção de Dados (AEPD), Peter Hustinx, também
comentou o assunto em dezembro, quando exigiu que a Comissão Europeia demonstre
a necessidade e justificativa da aplicação desta lei com fatos e números
concretos. “Sem essa prova, ela deveria ser revogada ou substituída por um
mecanismo menos invasivo e que atenda aos requisitos de necessidade e da
proporcionalidade”, disse ele.
Segundo a Comissão Europeia, existem em média 148 mil pedidos por ano para a
manutenção dos dados em cada um dos 20 países que aplicaram a lei. “Se os dados
não são úteis, as autoridades policiais não gastariam recursos humanos e
financeiros solicitando estes números”, argumentou o Comissária dos Assuntos
Internos, Cecilia Malmström.
Ações judiciais que questionam a retenção de dados estão atualmente em curso em
diversos países membros da União Europeia, enquanto outros como Áustria,
Bélgica, Grécia, Irlanda, Luxemburgo e Suécia não chegaram a aplicá-la. O
Tribunal Europeu de Justiça deve decidir a questão em 2012.