Os
porões da privataria
Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na
função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro
público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões
escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os
parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um
livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou
nas mais importantes redações do país, tornando-se um
especialista na investigação de crimes de lavagem do
dinheiro, vai descrever os porões da privatização da
era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o
processo de venda das empresas estatais. Ou se
aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar,
além disso, como ter parentes ou amigos no alto
tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras
de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de
campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso,
Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três dos
seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro
Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado.
Todos eles, afirma, tem o que explicar ao Brasil.
Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações
perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu
primo Gregório Marín Preciado, casado com a prima do
ex-governador Vicência Talan Marín. Além de primos, os
dois foram sócios. O “Espanhol”, como (Marin) é
conhecido, precisa explicar onde obteve US$ 3,2
milhões para depositar em contas de uma empresa
vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do
Banco do Brasil durante as privatizações dos anos
1990. E continuará relatando como funcionam as
empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do
Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador,
Verônica Serra e por seu genro, Alexandre Bourgeois.
Como os dois tiram vantagem das suas operações, como
seu dinheiro ingressa no Brasil …
Atrás da máxima “Siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr
perseguiu o caminho de ida e volta dos valores
movimentados por políticos e empresários entre o
Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais
especificamente as Ilhas Virgens Britânicas,
descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos
brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma
empresa equivale a uma caixa postal, as contas
bancárias ocultam o nome do titular e a população de
pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne
e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem
suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde
também são purificados os recursos do narcotráfico, do
contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e
da corrupção.
A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado,
ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do
PSDB à Presidência da República mescla uma atuação no
Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de
administração do Banco do Estado de São Paulo
(Banespa), então o banco público paulista – nomeado
quando Serra era secretário de planejamento do governo
estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no
Banco do Brasil de R$ 448 milhões (1) para irrisórios
R$ 4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira
era diretor da área internacional do BB e o
todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC.
(Ricardo Sergio é aquele do “estamos no limite da
irresponsabilidade. Se der m… “, o momento Péricles
de Atenas do Governo do Farol – PHA)
Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra,
representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o
consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro
de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor
milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria
ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três
estatais do setor elétrico (2).
O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o
primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado
US$ 3,2 milhões no exterior através da chamada conta
Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova York.
É o que revelam documentos inéditos obtidos dos
registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro
Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha
beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a
mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro
de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu
sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a
Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a
Ricardo Sérgio.
A documentação da Beacon Hill levantada pelo
repórter investigativo radiografa uma notável
movimentação bancária nos Estados Unidos realizada
pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os
comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo
parente do candidato tucano à Presidência na Franton
oscila de US$ 17 mil (3 de outubro de 2001) até US$
375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos
presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a
três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes
somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em
outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico
foi 2002, quando o primo disputou a presidência contra
Lula. A soma depositada bateu em US$ 1,5 milhão.
O maior depósito do endividado primo de Serra na
Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001.
Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de
US$ 404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro
paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario
Messer, figurinha fácil desse universo de transações
subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia
Federal, desfechada no ano passado, o Ministério
Público Federal apontou Messer como um dos autores do
ilusionismo financeiro que movimentou, através de
contas no exterior, US$ 20 milhões derivados de
fraudes praticadas por três empresários em licitações
do Ministério da Saúde.
O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, entre
eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil
e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela
justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a
lei.
Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões
extraídos do país para passear nos paraísos fiscais,
Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o
círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas
nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do
Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na
ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São
Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou
instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em
sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do
banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas
nos leilões de privatização realizados na era FHC.
Financiada pelo banco Opportunity, de Dantas, a
empresa possui capital de US$ 5 milhões. Logo se
transfere com o nome Decidir International Limited
para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha
de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do
Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil
ao comprar R$ 10 milhões em ações da Decidir do
Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria
Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se
percebe, todas as empresas tem o mesmo nome. É o que
Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de
gato e rato com quem estiver interessado em saber, de
fato, o que as empresas representam e praticam é
preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações
mais corriqueiras detectada na investigação.
Não é outro o estratagema seguido pelo marido de
Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de
Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco
Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna
dinheiro no Brasil ao investir R$ 7,5 milhões em ações
da Superbird. com.br que depois muda de nome para
Iconexa S.A…Cria também a Vex capital no Ctco Building,
enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec
Management no mesmo paraíso fiscal. “São
empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou
seja, levam dinheiro de um lado para o outro.
De modo geral, as offshores cumprem o papel de
justificar perante o Banco Central e à Receita Federal
a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição
de cotas de outras empresas, geralmente de capital
fechado, abertas no país. Muitas vezes, as offshores
compram ações de empresas brasileiras em operações
casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente
operações simuladas tendo como finalidade única
internar dinheiro nas quais os procuradores dessas
offshores acabam comprando ações de suas próprias
empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital
acontecia através de sucessivos aumentos de capital da
empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe,
maneira de obter do BC a autorização de aporte do
capital no Brasil. Um emprego alternativo das
offshores é usá-las para adquirir imóveis no país.
Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro
Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das
privatizações — que articulou os consórcios usando o
dinheiro do BB e do fundo de previdência dos
funcionários do banco, a Previ, “no limite da
irresponsabilidade” conforme foi gravado no famoso
“Grampo do BNDES” — foi o pioneiro nas aventuras
caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo
às offshores e as contas sigilosas da América Central
ainda nos anos 1980. Fundou a offshore Andover, que
depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que
também lhe pertenceria…
Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz
respeito a um dos maiores empresários brasileiros,
suspeito de pagar propina durante o leilão das
estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe
evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do
pagamento da US$ 410 mil por parte da empresa offshore
Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton
Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.
(1)A dívida de Preciado com o
Banco do Brasil foi estimada em US$ 140 milhões,
segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi
convertida em reais tendo-se como base a cotação
cambial do período de aproximadamente R$ 3,2 por um
dólar.
(2)As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a
Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de
Pernambuco.