
"A história da civilização é a história da
superação dos preconceitos" - Luís Roberto Barroso, procurador do Estado,
advogado no Rio de Janeiro, professor de Direito Constitucional da UERJ, mestre
em Direito pela Universidade de Yale.
O que pensar dessa afirmação, considerando que ela está sendo avaliada fora do
seu contexto? Antes de tudo, não se trata de uma afirmação isolada, mas da
expressão de uma crença que se encontra difusa e está se tornando mais arraigada
em nossa cultura. Algumas pessoas dizem que a crítica à civilização já virou
moda e não há mais o que debater sobre esse assunto. Mas as pessoas ainda se
referem à civilização como um ideal de progresso. O cerne da questão
civilizatória raramente aparece.
A frase está sendo usada como uma maneira de afirmar que o progresso leva ao
respeito da diversidade, incluindo a homoafetividade, e ao aumento dos direitos
individuais, que segundo a doutrina democrática, devem sempre crescer na medida
em que avançamos na história e desenvolvemos nossa capacidade de "socialização".
Há duas formas de pensar sobre isso. Primeiro, aceitemos o que foi afirmado: a
civilização avançou na medida os preconceitos foram sendo superados, ou
vice-versa. Isso implica em afirmar que quanto menos civilizada uma população,
mais preconceituosa ela é. Se o homem nasceu sem civilização, ele nasceu do
preconceito absoluto. A luta contra o preconceito seria de certo modo a luta
contra a naturalidade intolerante do homem primitivo. E mais, em nenhuma época
tantos preconceitos foram superados quanto na era dominada pela sociedade
industrial e pela economia capitalista. Isso faz algum sentido?
Sim. Essa é uma frase solta. Ela poderia encontrar embasamento teórico na
filosofia de Roger Ellman (http://the-origin.org/), por exemplo. A civilização
levaria à superação do preconceito porque nela cada vez mais indivíduos precisam
"cooperar" entre si e "conviver" com a diferença em espaços compartilhados e
modos de vida regidos por leis mais homogêneas. Os romanos já haviam percebido
que para que o império possa se expandir e manter sua coesão ao mesmo tempo, era
preciso educar as pessoas vindas de diferentes culturas e religiões a serem mais
"tolerantes" com a diversidade, e a aceitarem o direito romano, como um direito
que é "igual para todos", no lugar de suas tradições, que expressões da relação
específica entre uma população e um meio. Este tem sido o sentido da luta pela
"igualdade" e pela "liberdade" na civilização. Seria o pluralismo uma conquista
da humanidade ou uma exigência econômica do expansionismo e da globalização
desta cultura? Mesmo que a frase fosse verdadeira, o que ela defende é algo
duvidoso. Ainda há pessoas que tentam ficar neutras, afirmando que não devemos
julgar o pluralismo, apenas constatar sua presença nas nossas vidas e nos
adaptar a ele, porque negá-lo seria negar a realidade. Essa é uma das concepções
mais ideológicas que você pode encontrar em defesa da civilização.
Por outro lado, consideremos que a frase foi infeliz e que de fato a civilização
tenha se livrado de muitos "preconceitos" durante sua história, mas ao mesmo
tempo tenha gerado muitos outros. Houve realmente um avanço? Em que sentido?
Ainda aceitamos o sentido pejorativo da palavra "preconceito" que vem da
tradição iluminista. Até que ponto podemos dizer que culturas tradicionais são
mais preconceituosas apenas porque olham com desconfiança para pessoas que se
comportam de modo atípico? Isso não seria antes um resultado da capacidade de
julgar e distinguir o "certo" do "errado", que é uma capacidade em processo de
extinção na civilização? É preciso compreender qual até que ponto o que é
chamado de "preconceito" não se trata na verdade da condição de possibilidade
para uma comunidade traditiva, de uma comunidade que não se expande e não
compete no mercado global. Questionemos a crescente necessidade, que pode ter
sido naturalizada pela civilização, mas de fato nunca foi natural, de ser
"diferente", de ser "único", de se "destacar da multidão" ou de "afirmar sua
identidade". O cosmopolitismo tem uma origem histórica. Quais são suas bases?
Essa não é bem uma necessidade humana, mas talvez uma obsessão civilizada. Uma
obsessão que pode ter sido gerada pela perda dos critérios de identidade. A
identidade de um indivíduo só podia ser forjada num conjunto de relações sociais
que faziam sentido para o todo. Sem sentido e sem identificação comuns não há
identidade. O que o pluralismo pede é justamente que tenhamos a liberdade de não
nos identificar "de cima para baixo", ou seja, de "ser você mesmo", de
identificar a si mesmo "a partir de si mesmo". Este é o grande paradoxo: não há
nada em nós mesmos que possamos identificar como um "eu mesmo", senão em
comparação com algo que está fora de nós. É somente no outro que eu conheço a
mim mesmo.
Depois que nos despirmos de todo preconceito, o que vai sobrar é tolerância? Que
tipo de tolerância? Tolerância a que? Parece que tanto na aceitação quanto na
rejeição de tudo que é "humano", estamos rejeitando o discernimento.
Esta discussão, longe de ser moda, é tão mal compreendida que alguns rapidamente
acusarão de nazismo qualquer defesa à importância dos laços familiares, e não
das relações na "rede global". "Civilização" é um termo que ainda dá o que
pensar, e que precisa ser pensado, pois continua sendo usado para propagar
ideais com grande potencial para gerar doenças no sistema de crenças.
Abraços
Janos
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