Pluralizar a informação
23 de setembro de 2010 às
10:15h
César Augusto Baldi
Um dos grandes pilares de
uma sociedade democrática e plural é a defesa das liberdades de expressão e de
crença. Não constituem, todavia, direitos que não são reconhecíveis de início,
mas sim fruto de um processo de construção, de resistência a racismos,
colonialismos, etnocentrismos, sexismos e outras opressões que tem constituído
todas as sociedades. E no Brasil não é diferente.
À afirmação, pelo STF,
de um direito à liberdade de expressão, com o reconhecimento da não recepção
constitucional da antiga lei de imprensa, não se lhe dispensou tratamento de
total ausência de regras, nem tampouco inexistência de princípios éticos,
necessidade de reparação em caso de abuso, direito de resposta, ponderação de
interesses, explicitação de fundamentos e, por que não, também transparência.
Ética e transparência não são princípios somente aplicáveis às autoridades
públicas, mas a todos que desempenham relevantes funções públicas.
A concentração da
“grande imprensa” nos estados do Sudeste, em especial no eixo Rio-São Paulo
teve algumas conseqüências, que hoje vêm sendo detectadas como indícios de
que, também aqui, se faz necessária uma “reforma” e uma ampliação do processo
democrático. Salientem-se algumas.
Primeiro, que a
localização geográfica teve como condão que a imagem do país fosse construída
à semelhança do espaço geográfico onde era produzida, com a exclusão,
portanto, das visões de mundo e dos conhecimentos que provinham do
Nordeste e do Norte, em
especial, e, em parte, do Centro-Oeste. O Sul foi visto, no geral, como a
personificação da Europa e, culturalmente, incluído como “acessório” ao eixo
economicamente dominante. Isto produziu, por outro lado, uma redução da
própria visão de país, que ficou sempre dependente das influências, manias e
temas que eram discutidos no Sul e Sudeste, representantes da modernidade, e
“exportados” pro resto do país, em ritmos de “civilização”.
Segundo, que esta
“provincialização” espacial era, também, um profundo provincianismo social e
econômico. Os jornais do Sul e Sudeste sempre difundiram uma visão de que os
valores da classe econômica e social que representavam eram, da mesma forma,
os valores universalizáveis para todo o espaço territorial nacional. Outras
percepções da realidade foram, sistematicamente, rechaçadas.
De um lado, portanto, um
colonialismo interno a estabelecer hierarquias entre as regiões, de outro, um
colonialismo cultural, a destacar os princípios retores da sociedade. Tudo que
não se enquadrou numa das duas posições, foi sempre considerado um absurdo, a
irracionalidade, o atraso e o caos.
Terceiro, que a formação
dos conglomerados de imprensa esteve baseada, paradoxalmente, numa estrutura
familiar, ao mesmo tempo em que todos os demais ramos de atividade foram se
profissionalizando de forma distinta, estabelecendo parâmetros de qualidade e
visões estratégicas de futuro e de encaminhamento de questões. Estes grupos,
porém, ficaram à mercê das sucessões familiares e das “heranças” que o pai
fundador estabeleceu para o feliz destinatário. Um quadro que, em setor
público, seria similar ao sistema cartorial e ao nepotismo. Mas que nunca foi
criticado, nem interna, nem externamente.
Quarto, que tal situação
ficou imune, durante muito tempo, à quebra do monopólio interpretativo. Ao
contrário dos processos de “privatização” e de abertura de comunidades
interpretativas, os grandes veículos de comunicação ficaram, no geral, alheios
à possibilidade de serem questionados, enquanto detentores da própria
informação. Não imaginaram a possibilidade de alterações significativas com a
internet ( ou melhor, supuseram que bastava a migração do papel para o novo
meio, sem necessidade de alteração de linguagem e formas de abordagem), nem
sequer que veículos de menor porte, com maior capilaridade social, ou mesmo o
rádio, pudessem alterar o quadro que sempre se manteve estável. Uma arrogância
de comportamento que talvez explique, psicologicamente, a necessidade de
sempre chamar os criticados de “arrogantes”, mas ser absolutamente
“refratários” a qualquer crítica ao seu comportamento, logo tachada de
“censura”, “dificuldade de aceitar questionamento”, “ditadura” e outros
atributos, que, como sempre, dizem mais sobre quem os propala do que sobre
quem recebe a qualificação. Uma leitura dos sete principais jornais do país
demonstra uma afinidade muito maior de pensamento que uma pluralidade-
salutar- efetiva de posições.
Quinto, porque as poucas
iniciativas de “abertura” da comunidade interpretativa são sempre tímidas. As
figuras do “ombudsman” se converteram, em regra, na “Rainha da Inglaterra” dos
veículos de comunicação, com estabilidade garantida no exercício do “mandato”,
com a possibilidade de receber as críticas do leitor, mas sem qualquer poder
para alterar linha editorial, incluir retificações, permitir direitos de
resposta, abrir possibilidades investigativas, aceitar sugestões de pauta.
Fosse um poder público, a acusação seria falta de transparência e opacidade da
estrutura. As 45 mil mensagens no twitter ridicularizando a manchete da FSP de
05/09/2010, solenemente ignoradas pelo jornal, são a demonstração mais cabal
da resistência à crítica interna e da definição de pautas à mercê de outras
comunidades interpretativas.
Sexto, porque a redução
do processo de interpretação e de produção do conhecimento se fez paralelo à
assunção de características de nítido cunho partidário ou de contrariedade a
determinadas posições políticas. A referência da presidente da ANJ no sentido
da fragilidade da oposição, com a necessidade de que a imprensa assumisse a
condição desta, é demonstração da opção de uma linha editorial que deixa de
ser imparcial e apartidária, mas tem vergonha de assumir tais posições. Em
qualquer país democrático, a transparência implicaria, ao mesmo tempo, que os
jornais explicitassem suas escolhas políticas, cabendo ao leitor vigiar os
compromissos de igualdade na cobertura das informações do processo eleitoral.
Assim foi na última eleição dos Estados Unidos e, aqui, a exceção parece ser
Revista Carta Capital. Os demais veículos, como diz Renato Janine Ribeiro,
sustentam uma candidatura, mas não reconhecem tal fato. Tal situação não é
demérito: é a afirmação do compromisso que a imprensa tem o seu leitor ou seu
assinante. Um compromisso que deveria ser prioritário. Aqui, se finge
imparcialidade, se rechaça partidarismo, e ninguém ousaria afirmar que
“aparelhada” mesmo é a imprensa, que tanto critica o aparelhamento. Mais uma
vez, as acusações dizem mais sobre o acusador que sobre o acusado.
Sétimo, porque estes
sucessivos mecanismos de falta de feed-back e de transparência acarretam, por
outro lado, um descompromisso dos veículos com apuração de determinados fatos
e situações, ao mesmo tempo em que efetuam pactos com situações que não seriam
as mais éticas ou “republicanas”. A afirmação da ombudsman da FSP de que, se
os informantes fossem apenas pessoas ilibadas, as páginas da redação seriam
folhas em branco, é, ao mesmo tempo, o reconhecimento de uma profunda
promiscuidade entre imprensa, servidores públicos, políticos e criminosos. Os
sucessivos escândalos, a produção de “dossiês”, a violação de informações
privilegiadas, os “assassinatos” de reputação parecem indicar um sistema de
retroalimentação do qual a chamada “velha mídia” não consegue escapar. O
sucesso comercial do veículo depende- tudo leva a crer- da permanente criação
de factóides, escândalos ou manchetes estapafúrdias, mesmo que desconectadas
da realidade, desmentidas pelos envolvidos. Com a complacência, até o presente
momento, do Judiciário e do Ministério Público, que não tem rechaçado, com a
veemência necessária, a violação sistemática de direitos fundamentais, em
especial do contraditório, ampla defesa, não-culpabilidade e privacidade. Mas
também muitas matérias veiculando racismo e sexismo. Como se o processo
eleitoral ou a rapidez das informações implicasse o abandono destes direitos
ou a sua defesa seletiva. As pautas de “moralização da política” convivem, sem
qualquer conflito ético, com a utilização de imoralidades e informações do
“submundo”.
Oitavo, porque tal
situação coloca, também, uma discussão do princípio democrático. Até que ponto
grupos econômicos- e é disto também que se tratam os grandes jornais do
Sudeste, em especial- podem, a pretexto de veicular informação, estabelecer
pautas de discussão, excluir possibilidades de interpretação, definir regras
de comportamento e tentar, inclusive, influenciar o voto do eleitor, por
discordar de pesquisas de opinião? É democraticamente justificável tal
comportamento? Que conseqüências têm referido comportamento para o
aprimoramento ou não- dos processos democráticos do país?
Ao contrário, portanto,
do que, cotidianamente, tem se afirmado, a liberdade de imprensa não corre
perigo por conta do poder público no Brasil, mas fundamentalmente por conta do
poder privado oligopolizado. Uma agenda de discussão da informação vai ter que
passar, pelo menos, pela discussão de: a) desprovincialização dos meios de
comunicação ou o reconhecimento de que nenhum veículo pode se “arvorar” como
representativo do país inteiro, mas apenas do seu local; b) descolonização dos
conhecimentos, incorporando outros olhares, outras pautas e procurando
entender o mundo com outras lentes e não somente com a “monocultura da mente”
imperante; c) abertura da imprensa, tnato interna, quanto externa, à crítica,
quanto ao reconhecimento de limitações dos profissionais e necessidade de
construção coletiva do conhecimento (o que vem sendo feito por alguns blogs na
internet); d) alteração das estruturas societárias, talvez com introdução,
finalmente, do capitalismo e da concorrência neste mercado, ou mesmo inserção
de grupos estrangeiros; e) reconhecimento de opções políticas, partidárias e
comportamentais de forma explícita nos editoriais, com transparência para os
leitores fiscalizarem, criticarem e discutirem tais opções, sem que isto
contamine a produção da matéria jornalística no restante do veículo de
comunicação; f) adoção de um respeito aos direitos fundamentais como eixo
transversal (afinal, não são os principais defensores de tal respeito nas
relações internacionais do Brasil?) das condutas, assegurando-se direito de
resposta e oitiva da parte adversa, independentemente de previsão legal, como
regra; g) respeito à demodiversidade e sociodiversidade, aceitando que as suas
opções feitas podem não ser representativas da maioria da população, mas nem
por isso estas não são igualmente defensáveis ( fim do monopólio da
“certeza”). Talvez isto também passe pela necessidade de uma maior
transparência dos servidores públicos, relativamente a suas informações
pessoais, vínculos comerciais, parentesco, evitando-se “chantagens” por
escândalos ou dossiês, e mesmo uma nova legislação estabelecendo formas
distintas de tratamento a abusos referentes a violação de sigilo pessoal
profissional e desrespeito de direitos fundamentais. Uma discussão que o
presente momento demonstra ser tão necessária quanto impostergável. É o
reconhecimento de que uma verdadeira liberdade de imprensa ainda é um processo
em construção. A sociedade quer mais, não menos. E os veículos de comunicação
também precisam democratizar-se e pluralizar-se. Mas, fundamentalmente, o
direito à liberdade de expressão não se faz à custa da irrelevância dos demais
direitos.
*César Augusto Baldi é
mestre em Direito ( ULBRA/RS), doutorando Universidad Pablo Olavide (
Espanha), servidor público desde 1989, é organizador do livro “Direitos
humanos na sociedade cosmopolita” ( Ed. Renovar, 2004).