Pelo Fim do Patriarquismo

15.(O Jardim das Peculiaridades)- O patriarquismo se manifesta claramente na interação humana cotidiana. Se um homem tem uma personalidade forte é considerado carismático. Mas se é uma mulher que se destaca, o sistema a marca pejorativamente como mulher macho etc. O patriarquismo é uma realidade de opressão e de controle. Reafirma-se com a violação e com a violência física. E existe na medida em que exista categorias de gênero separatistas, cujo miolo ideológico radica na presunção de certas características físicas, psicológicas, sociais, emocionais, intelectuais, morais etc., distinguidas por gênero. Pensar, por exemplo, que as mulheres são em geral de uma forma e que os homens são em geral de outra, pressupõe a existência de perfis humanos determinados categoricamente pelo sexo de cada qual: mulheres de um lado, homens do outro. O patriarquismo é, por um lado, o discurso escrito pelos homens para justificar os privilégios masculinos e, pelo outro, uma prática política repressiva. É ideologia e poder. E depende da separação de gênero. De outro modo, todo mundo se degeneraria. Para desmantelá-lo, é necessário recriar outro tipo de discurso que não só degenere a ideologia, senão que também estabeleça uma nova forma de relação política.
A política é uma noção proveniente do conceito de "polis": a antiga cidade grega, germe da civilização ocidental. Sua organização se configura definitivamente com a idéia romana de coisa “pública” (do latim “rês publicus”). Na antiga Roma, os assuntos públicos – ou comuns – estavam nas mãos de um grupo de varões patrícios. São eles os que escreveram cedo a lei que relega as mulheres a um outro espaço, fora do público. Na Grécia, os poetas também foram expulsos desse espaço público. O projeto platônico de "República" não considerava nem os artistas nem os poetas com méritos suficientes para integrar os assuntos de Estado. Certamente, as mulheres estavam relegadas ao domínio. Na realidade, todos foram expulsos de tamanha coisa pública, menos os patrícios. Para justificar a expulsão do estético do âmbito público, Platão repetia insistentemente que “os poetas eram mentirosos”, já que não se ajustavam à sua lógica sofista. Da mesma forma, talvez também fossem considerados 'maricas' e sensíveis. Isto é algo que ainda se repete e se pensa em variados círculos, especialmente naqueles unidos ao poder. A infantilização das mulheres, dos poetas e artistas, dos indígenas, das minorias, das culturas primitivas etc., levou-se a cabo por meio de seu exílio ao chamado “mundo do feminino”. Este se associa pejorativamente ao débil, ao emocional e ao ilógico. Tal noção foi cedo aprendida à força pelos povos colonizados e universalizada depois pelo logos civilizador: o pensamento lógico instrumental. Assim, a “rês” pública coisifica os modos de interação social e intersubjetivos entre os seres humanos e acelera o processo de reificação.
Em castelhano, falar de reses – para se referir ao gado bovino – é falar de coisas. Para o logos, a natureza é uma coisa que se instrumentaliza. O patriarquismo instrumentalizou as mulheres, mas também os homens. É, em rigor, uma ramificação ideológica da razão instrumental, porque constrói categorias genéricas entre homens e mulheres para suprimir e controlar.
A peculiaridade desmantela estas categorias. Uma mulher é uma criatura peculiar e única. Um homem é outra criatura peculiar e única. As categorias “mulher” e “homem” tendem a anular essa peculiaridade, ao mesmo tempo que geram o separatismo. Talvez a única política possível que anule as formas de inter-relação social e intersubjetiva hierárquicas seja através do carnaval. Este é um festival onde todas as pétalas das peculiaridades humanas se desdobram sem bases sistêmicas, salvo os que ordene a própria natureza. E deve-se praticar todos os dias. Todos temos um lugar no jardim do planeta: homens e mulheres, meninos e meninas, anciãos e anciãs. Nossas diferenças biológicas ou preferências amorosas não devem ser motivo algum para que alguém fique de fora do horto planetário. A distinção entre o privado e o público foi construída artificialmente para garantir o funcionamento repressivo do controle patriarcal. Abolir tal distinção significa abolir também as noções genéricas que marcaram o início desta civilização.