FHC olha para trás,
sempre
Maria Izabel
Azevedo Noronha*
O ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) mais uma vez volta à cena (Novos
desafios, O Estado de S. Paulo, 05/06) para fazer
comentários e dar conselhos ao governo brasileiro.
Curiosamente o
ex-presidente faz seus comentários como se jamais tivesse
tido poder de mando no nosso país para aplicar todas as
lições que agora quer dar aos atuais governantes. Na
verdade, começa seu artigo reconhecendo que o Brasil
ingressou no clube dos países que tomam decisões, mas faz
esta constatação como se isto fosse um evento da natureza e
não o resultado da aplicação de um projeto político que ele
e seu partido combatem.
Na realidade o texto do
ex-presidente serve para que ele novamente se insurja contra
esse projeto, para dizer que a estratégia correta para o
Brasil não seria o “projeto nacional”, pregando um nebuloso
“consenso” da sociedade, sem dizer de que forma esse suposto
“consenso” poderia ser construído e como se os demais países
não tivessem projetos nacionais.
Na verdade o que o
ex-presidente deseja é que o governo abdique de seu papel de
governar e conduzir a nação, deixando o espaço aberto para
que atuem as “forças sociais”, sem nenhuma mediação. É puro
neoliberalismo e sabemos onde isso vai dar.
FHC também critica a
política de alianças internacionais do Brasil, dizendo que
não podemos nos limitar a este ou aquele parceiro. Ora, o
Brasil nunca realizou alianças comerciais e políticas tão
amplas no cenário mundial, o que, sabidamente, nos deixou em
melhores condições de enfrentar a crise financeira
internacional.
O que incomoda o
ex-presidente do PSDB é que nosso país deixou de se limitar
a um papel subalterno, no qual se deixava levar pelas
diretrizes de algumas poucas potências e no qual ministros
eram constrangidos a tirar seus sapatos e passar por
vistorias em aeroportos dos Estados Unidos. Hoje o Brasil é
protagonista no nosso próprio continente, na África, na
Ásia, nos diálogos internacionais e na construção de uma
relação mais equilibrada entre as economias mais
desenvolvidas e os países em desenvolvimento.
Diz FHC em determinado
trecho de seu artigo que “É imperativo inovar, não abrir mão
da indústria e oferecer serviços em quantidade e qualidade
em saúde, educação, transportes, finanças etc.”. Entretanto,
no seu longo período de governo ele praticou o oposto,
desnacionalizando nossa indústria, abrindo mão da nossa
soberania e precarizando de forma drástica os serviços
públicos essenciais.
Na sequência, Fernando
Henrique Cardoso passa a criticar a democracia brasileira,
dizendo que as decisões fundamentais são tomadas de forma
autoritária, buscando outra vez uma descabida comparação
entre os governos Lula e Dilma e a ditadura militar. O
argumento, evidentemente, não procede. Poucas vezes no nosso
país houve tanta liberdade.
O governo, os
movimentos sociais e todas as forças que buscam o
desenvolvimento nacional com justiça social são
cotidianamente submetidos a verdadeiro massacre pela grande
mídia e até mesmo por setores do poder judiciário. Mas a
vida prossegue e a democracia está preservada, com todas as
decisões fundamentais sendo debatidas e aprovadas pelo
Congresso Nacional.
Finalmente o
ex-presidente chega ao ponto fulcral de seu artigo, que é a
tentativa de calar o ex-presidente Lula e, ainda, tentar
opor a presidente Dilma a seu antecessor. Trata-se de uma vã
tentativa, porque o governo Dilma é um governo de
continuidade e está assentado sobre as bases implementadas
em oito anos de construção do projeto nacional brasileiro.
FHC quer calar Lula
quando ele próprio não se calou um momento sequer desde que
deixou a Presidência da República. E geralmente utilizou o
grande espaço que detém na mídia para buscar sempre atrasar
o ritmo de desenvolvimento do nosso país. Se seus conselhos
fossem seguidos, o Brasil certamente não ingressaria no
“seleto clube dos países que tomam decisões” e permaneceria
como “papel carbono” dos interesses das grandes potências,
função a que foi relegado durante décadas por governos
descomprometidos com o nosso projeto nacional.
*Presidenta da
APEOESP, integra o Conselho Nacional de Educação e o Fórum
Nacional de Educação