Noblat
Quem é você para decidir pelo Brasil (e pela História) quem é
grande ou quem deixa de ser? Quem lhe deu a procuração? O Globo?
A Veja? O Estadão? A Folha?
Apresento-me: sou um brasileiro. Não sou do PT, nunca fui. Isso
ajuda, porque do contrário você me desclassificaria, jogando-me
na lata de lixo como uma bolinha de papel. Sou de sua geração.
Nossa diferença é que minha educação formal foi pífia, a sua
acadêmica. Não pude sequer estudar num dos melhores colégios
secundários que o Brasil tinha na época (o Colégio de Cataguases,
MG, onde eu morava) porque era só para ricos. Nas cidades
pequenas, no início dos sessenta, sequer existiam colégios
públicos. Frequentar uma universidade, como a Católica de
Pernambuco em que você se formou, nem utopia era, era um
delírio.
Informo só para deixar claro que entre nós existe uma pedra no
meio do caminho. Minha origem é tipicamente “brasileira”, da
gente cabralina que nasceu falando empedrado. A sua não. Isto
não nos torna piores ou melhores do que ninguém, só nos faz
diferentes. A mesma diferença que tem Luis Inácio em relação ao
patriciado de anel, abotoadura & mestrado. Patronato que tomou
conta da loja desde a época imperial.
O que você e uma vasta geração de serviçais jornalísticos
passaram oito anos sem sequer tentar entender é que Lula não
pertence à ortodoxia política. Foi o mesmo erro que a esquerda
cometeu quando ele apareceu como líder sindical. Vamos dizer que
esta equipe furiosa, sustentada por quatro famílias que formam o
oligopólio da informação no eixo Rio-S.Paulo – uma delas, a do
Globo, controlando também a maior rede de TV do país – não
esteja movida pelo rancor. Coisa natural quando um feudo começa
a dividir com o resto da nação as malas repletas de cédulas
alopradas que a União lhe entrega em forma de publicidade. Daí a
ira natural, pois aqui em Minas se diz que homem só briga por
duas coisas: barra de saia ou barra de ouro.
O que me espanta é que, movidos pela repulsa, tenham deixado de
perceber que o brasileiro não é dançarino de valsa, é passista
de samba. O patuá que vocês querem enfiar em Lula é o do
negrinho do pastoreio, obrigado a abaixar a cabeça quando
ameaçado pelo relho. O sotaque que vocês gostam é o
nhém-nhém-nhém grã-fino de FHC, o da simulação, da dissimulação,
da bata paramentada por láureas universitárias. Não importa se o
conteúdo é grosseiro, inoportuno ou hipócrita (“esqueçam o que
eu escrevi”, “ tenho um pé na senzala” “o resultado foi um
trabalho de Deus”). O que vale é a forma, o estilo envernizado.
As pessoas com quem converso não falam assim – falam como Lula.
Elas também xingam quando são injustiçadas. Elas gritam quando
não são ouvidas, esperneiam quando querem lhe tapar a boca. A
uma imprensa desacostumada ao direito de resposta e viciada em
montar manchetes falsas e armações ilimitadas (seu jornal
chegou ao ponto de, há poucos dias, “manchetar” a “queda” de
Dilma nas pesquisas, quando ela saiu do primeiro turno com 47% e
já entrou no segundo com 53 ) ficou impossível falar com
candura. Ao operário no poder vocês exigem a “liturgia” do
cargo. Ao togado basta o cinismo.
Se houve erro nas falas de Lula isto não o faz menor, como você
disse, imitando o Aécio. Gritos apaixonados durante uma disputa
sórdida não diminuem a importância histórica de um governo que
fez a maior revolução social de nossa História. E ainda querem
que, no final de mandato, o presidente aguente calado a campanha
eleitoral mais baixa, desqualificada e mesquinha desde que
Collor levou a ex-mulher de Lula à TV.
Sordidez que foi iniciada por um vendaval apócrifo de ultrajes
contra Dilma na internet, seguida das subterrâneas ações de
Índio da Costa junto a igrejas e da covarde declaração de Monica
Serra sobre a “matança de criancinhas”, enfiando o manto de
Herodes em Dilma. Esse cambapé de uma candidata a primeira dama
– que teve o desplante de viajar ao seu país paramentada de
beata de procissão, carregando uma réplica da padroeira só para
explorar o drama dos mineiros chilenos no horário eleitoral –
passou em branco nos editoriais. Ela é “acadêmica”.
A esta senhora e ao seu marido você deveria também exigir
“caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade”.
Você não vai “decidir” que Lula ficou menor, não. A História não
está sendo mais escrita só por essa súcia de jornais e
televisões à qual você pertence. Há centenas de pessoas que, de
graça, sem soldos de marinhos, mesquitas, frias ou civitas,
estão mostrando ao país o outro lado, a face oculta da lua. Se
não houvesse a democracia da internet vocês continuariam
ladrando sozinhos nas terras brasileiras, segurando nas rédeas o
medo e o silêncio dos carneiros.
Carlos Torres Moura
Além Paraíba-MG