Rudá Ricci e o Lulismo - Quando a Esquerda
Critica( excerto de entrevista a revista "Caros Amigos")
Rudá Ricci – O lulismo é um
sistema de gerenciamento do Estado e de políticas públicas.
Portanto, não é uma ideologia, não é um movimento. Ele
moderniza economicamente, mas é conservador do ponto de
vista político, o que a gente chama em ciência política de
modernização conservadora. E ele se montou como nos EUA o
fordismo se montou no século passado. Aliás, os dados de
ascensão social no Brasil são muito parecidos com os dados
da ascensão social dos Estados Unidos desse período. Eu acho
que é um fordismo tupiniquim, com um Estado muito forte e
centralizador. 65% do orçamento público está concentrado na
execução da União. Os municípios brasileiros dependem, em
sua maioria, de convênios estabelecidos com ministérios. Ele
usou como mecanismo de suporte social e desenvolvimento os
recursos do BNDES, o PAC e as obras públicas e, com isso,
conquistou o grande empresariado nacional. Todos os grandes
conglomerados
têm financiamento com o BNDES. E, na outra ponta, há,
principalmente no aumento real do salário mínimo, a grande
política de ascensão social no Brasil. Depois dela, vem o
crédito consignado e, depois, o Bolsa-Família, que tirou da
pobreza mas não gerou uma grande ascensão social,
principalmente para os pobres se tornarem classe média,
classe C. E aí vem a base do lulismo. E aí tem o suporte
político. De um lado, a coalizão presidencialista, que é
algo inédito no Brasil. O Getúlio Vargas até tentou montar
algo, mas o Estado Novo acabou destruindo o que ele tentava
forjar. Nós não tivemos na história republicana nenhuma
situação parecida com a atual. O Brasil desmontou o sistema
partidário, criou uma coalizão de tipo parlamentarista e
jogou a política do Brasil entre governistas e não
governistas, mas não é qualquer governismo, é lulista ou não
lulista. E os partidos de oposição estão completamente em
frangalhos, tanto PSTU quanto Psol de um lado, que não
conseguem em somar com todos os partidos de esquerda 1% da
intenção de voto nacional, e de outro, direita, o PSDB e o
DEM; o primeiro num de mus momentos de maior tensão interna,
a ponto e muitas lideranças falarem em refundação, e o
segundo praticamente destruído com a saída do Gilberto
Kassab. A última ponta é a do financiamento pelo Estado das
organizações populares no país, principalmente as centrais
sindicais.
Caros Amigos – O senhor afirma
que o Lula finalizou a modernização conservadora iniciada
pelo Getúlio Vargas. Como isso aconteceu?
RR – O conceito de modernização
conservadora é da sociologia e foi elaborado por um autor
chamado Barrington Moore. Atualizando isso para o caso
brasileiro, significa que se faz uma modernização econômica
sem mudar de maneira alguma a estrutura de poder, ela é
conservadora nesse sentido do poder. O Lula articulou todas
as lideranças clientelistas do Brasil, assim como Getúlio
fez isso. A impressão que se dava do Getúlio era que ele
estava atacando toda a base clientelista, dos coronéis, mas
muitos deles foram recriados através do getulismo. O Lula
recriou a mesma estrutura de poder.
A marca do getulismo e do
lulismo é a conciliação de interesses e não o enfrentamento.
Um exemplo é que se tem o Ministério da Agricultura de um
lado, tem o do Desenvolvimento Agrário do outro. Isso não é
por acaso. Se o Getúlio criou a base da industrialização do
país com um Estado organizado a partir de uma estratégia
desenvolvimentista e gerou a urbanização acelerada do país,
o Lula deu o passo final, que é a emergência de um mercado
consumidor de massa, da organização do investimento dos
empresários através do PAC.
CA - O lulismo é um
neogetulismo?
RR - É um neogetulismo sem o
autoritarismo do Getúlio. É uma espécie de síntese didática.
O lulismo completa o getulismo. Por isso que o Lula é o
líder da classe C. Ele é a expressão do sucesso dos pobres.
E ele soube usar isso.
CA - Na sua perspectiva, o
governo Dilma será mais conservador que o Lula?
RR – Na política, sim, não sei
na economia. Até agora a Dilma está sendo a expressão da
história dela, uma pessoa que veio da Polop, que era, nos
anos de chumbo, talvez a organização mais intelectualizada.
Depois, ela vai para organizações de luta armada que tinham
alta centralização e disciplina política, e depois ela foi
para o PDT. Ela junta essas coisas. A Dilma não é uma pessoa
da rua, ela é muito técnica, não tem a história e o discurso
do PT. Isso está muito evidente, ela tem objetivos, é muito
centralizadora, adota mecanismos de gestão que vem do alto
empresariado brasileiro, e isso é uma ruptura com o lulismo.
E eu não acho que o Lula está achando isso ruim, pois ele
volta com tudo depois.
CA – Qual é o seu balanço do
governo Lula? O que houve de positivo e negativo?
RR – O grande mérito do governo
Lula é que ele fez o país se reencontrar consigo mesmo. A
ideia de que o gigante estava adormecido… não está mais. O
Brasil é uma potência, está cada vez mais evidente para todo
mundo. Já somos o segundo da América, somos mais ricos que o
Canadá e o México.
O Lula conseguiu criar uma política de estabilidade, que
está assentada numa forte profissionalização da ação do
Estado na economia. Houve um aumento da capacidade e a
confiança nos agentes econômicos, como o Banco Central, o
Ministério da Fazenda, do Planejamento, eles sabem operar
com as técnicas de mercado e controlam mesmo a economia. Com
todos os ataques aos BNDES, ele foi um fomento ao
desenvolvimento. A segunda grande vantagem do governo Lula
foi articular uma intenção social de inclusão de massa com
desenvolvimento, algo que a gente não via há muito tempo no
Brasil. Talvez a última vez que a gente ouviu isso foi antes
do golpe de 1964. Efetivamente, quem juntou as duas coisas
foram João Goulart e Lula. E, finalmente, a política
externa. A política entrou como centro da diplomacia
brasileira para valer, e não como habilidade para fazer
negócio. Pela primeira vez, a política não foi só para abrir
mercado, mas para inserir o país como potência. Acho que o
Brasil disputou a América inteira e ganhou.
Com o Irã foi uma vitória, a história da negociação Brasil,
Turquia e Irã foi uma “vitória de
Pirro” ao contrário. Ou seja, parecia uma derrota de Pirro,
a comunidade e o G7 ficaram muito irritados, mas o Brasil
entrou na história agora, sabe negociar. E é um país da
América Latina que entrou no Oriente Médio. Eu acho que são
três campos muito importantes, que mudaram completamente o
país. O que foi ruim? É que parece que para se governar esse
país não se pode ser de esquerda. Na gestão participativa de
controle social, nós demos um passo atrás. Começamos o
governo Lula discutindo o plano plurianual, e nunca mais
voltou. O governo Lula deliberadamente rachou o movimento
social nas conferências que são cantadas em prosa e versos.
Só duas das 60 ou 70 que foram feitas viraram lei.