Editoras Livres Versus Editoras Baratas

                                            Por Janos Biro

Se você publica textos na internet já deve ter recebido algum "convite" de uma editora barata. Uma editora barata contrata pessoas para entrar em sites de hospedagem de textos e fisgar qualquer escritor amador, prometendo realizar seus sonhos de ter um livro publicado "com qualidade" e vendido em grandes livrarias. Tudo que o autor precisa fazer é um "investimento inicial", e logo depois, se o livro fizer sucesso, poderá receber seu parte, geralmente 10%.

 

O que o autor amador não sabe é que as editoras baratas não estão exatamente vendendo livros. O que elas vendem são sonhos. Elas alimentam o ego de um autor com a promessa de que ele pode se tornar conhecido, quando na maioria das vezes não é isso que ocorre. Não duvido que algumas dessas editoras baratas ganhem mais dinheiro com o investimento dos autores que com os livros que vendem. Isto porque não é nada barato colocar um livro numa prateleira visível da livraria (e esses são os únicos livros que vendem de verdade), e na maioria das vezes importa muito pouco o conteúdo do livro.

 

Muitas pessoas que gostam de escrever sonham em ter um livro publicado por uma editora, mas poucos param para pensar na realidade do mercado editorial. Ele não é muito diferente do mercado fonográfico, por exemplo, que todos sabemos ser controlado por "jabás". No mercado editorial, como em muitas áreas semelhantes, o que importa é o QI (quem indica).

 

Na elaboração do manifesto das editoras livres, algumas das discussões que tivemos foram: O que diabos é uma livraria? Por que livros tem que ser vendidos em livrarias? A maioria das pessoas acha que o direito autoral defende a obra de pessoas maliciosas, que podem pegar um livro, registrá-lo, e ganhar muito dinheiro com isso. É irônico, pois se não houvesse direito autoral, não haveria roubo de direito autoral, e toda obra seria livre. Mas não vamos entrar nessa discussão agora, o fato é que se seu objetivo é ganhar dinheiro, vamos ser realistas, sua chance de fazer isso escrevendo livros é quase zero. Sua habilidade para escrever é o que menos importa, há ótimos escritores que jamais serão conhecidos pelo grande público. Uma editora barata não garante que você seja lido, ela garante apenas que algum dinheiro seja ganho na produção desse livro, mesmo que seja o dinheiro do autor.

 

No Brasil o livro é artigo de luxo, as pessoas que compram muitos livros geralmente só compram livros quando eles aparecem na lista dos "mais vendidos". Poucas pessoas lêem e poucas pessoas compram livros. As pessoas que realmente gostam de ler não se importam se um livro está sendo bem vendido ou não, elas se importam com o conteúdo. Sem dúvida uma visibilidade maior é desejável, mas daí a dobrar ou triplicar o custo de um livro apenas para isso me parece uma grande inversão de prioridades.

 

O que é uma livraria? Uma livraria é para um livro como uma loja de grife é para uma roupa. Você não está pagando pela qualidade do livro, nem pelo material e muito menos para manter o autor escrevendo. Você paga por marcas, pelo jabá do livro. Uma editora livre não terá livros em prateleiras de livrarias, porque suas obras são livres, podem ser disponibilizadas na internet e podem ser copiadas por qualquer um. Se você pode ter uma cópia barata, porque gastar dinheiro com uma cópia cara? Apenas as editoras ganham com isso. Eu conheço pessoalmente exemplos de pessoas que mandaram sua obra para editoras baratas e não venderam nada, ou então foram ignorados pela editora. Com menos esforço do que aquele que você tem para juntar o dinheiro que a editora barata cobra, é possível fazer uma distribuição muito melhor do seu livro. Apenas disponibilize- o na internet! Faça um blog, ou imprima e tire fotocópias e distribua para seus amigos. Disponibilizar seu livro gratuitamente na internet já garante mais leitores do que teria vendendo seu livro na internet, porque poucas pessoas no Brasil gastam dinheiro em livros de autores desconhecidos.

 

A maioria dos autores amadores que publicam em editoras baratas não consegue vender seus livros para muitas pessoas fora do seu círculo de amizade. Se você escreve bem, terá mais sorte num concurso. Por que dar todo esse dinheiro às editoras apenas para comprar um status de "escritor profissional"? As editoras baratas entopem suas prateleiras de livros de autores que, por melhores que sejam, serão menos lidos do que aqueles que disponibilizam seus livros de graça, e na maioria das vezes gastarão muito mais dinheiro com isso.

 

Desta forma, a estrutura de uma editora barata é quase como a de uma pirâmide de dinheiro. Qualquer um pode publicar um livro, porém cada autor é apenas mais um num mar de livros que ninguém lerá, cada um deles disputando uma vaga num mercado de concorrência injusta. Os exemplos pessoais que eu conheço mostram que é muito mais satisfatório e muito mais eficiente distribuir seus livros livremente do que tentar se inserir numa indústria onde livros não passam de coisas para serem consumidas. Não são mais cultura, e certamente não são livres. O lema do site Sabotagem, que disponibiliza livros gratuitamente para milhares de leitores é "Conhecimento não se compra". O site era constantemente atacado por associações de pessoas que se não querem que o conhecimento seja livre, que só querem lucrar com ele. Se você tem algo importante para dizer ao mundo, porque cobrar por isso? É uma lógica muito peculiar.

 Aproveite e entenda esse conceito num jogo simples: Free culture: A cultura é gratuita.

 http://playthisthin g.com/free- culture

Dica de ação: Já roubou algum livro da livraria? Geralmente é bem fácil. E que tal desafiar a lógica da propriedade autoral fazendo o oposto, isto é, colocando cópias de livros ou publicações livres nas prateleiras da livraria? Inclua um aviso, por exemplo: "Esse livro é uma obra livre. Pegue-o, copie-o ou passe para frente", "O conhecimento não se compra" ou "Não gaste seu dinheiro". A melhor maneira de fazer isso é entrar numa livraria com uma pasta na mão, tampando o livro que você quer inserir. Então pegue um livro como se fosse comprá-lo, vire a pasta rapidamente e coloque-o sobre o livro a ser inserido. Ande um pouco com o livro e a pasta na mão. Depois, finja que se interessou por outro livro, e volte para devolver o livro que você pegou à prateleira. Quando fizer isso, pegue-o junto com o livro a ser inserido e coloque rapidamente.  A próxima pessoa que pegar o livro provavelmente notará o livro intruso atrás dele.
http://antizero. wikispaces. com