Teles iniciam 'guerra' com provedores
Operadoras de telefonia da Europa
disseram ontem que o Google, a Apple e o Facebook terão de colaborar para
ajudar a pagar os bilhões de dólares em investimentos em redes de
comunicação...
Matthew Campbell e Jonathan Browning
Bloomberg, de Paris e Londres
09/12/2010
Operadoras de telefonia da Europa disseram ontem que o Google, a Apple e o
Facebook terão de colaborar para ajudar a pagar os bilhões de dólares em
investimentos em redes de comunicação, necessários para o bom
funcionamento de seus serviços de banda larga.
Na medida em que companhias de telefonia móvel e empresas de internet
acrescentam vídeos, músicas e videogames na rede, operadoras como a France
Télécom, Telecom Italia e Vodafone querem um novo acordo que exija que
provedores de conteúdo, como a Apple e o Google paguem taxas ligadas ao
uso.
"Os provedores de serviços estão inundando as redes de comunicação sem
nenhum incentivo" ao corte dos custos, disse no mês passado o
executivo-chefe da France Télécom, Stéphane Richard. "Os provedores de
serviços precisam estabelecer um sistema de pagamentos em função do uso
que eles fazem", disse Richard, que tratou da questão na conferência "Le
Web", em Paris, terça-feira, e recebeu o apoio do executivo-chefe da
Telecom Italia, Franco Bernabè, e do executivo-chefe da Telefónica, César
Alierta, no que poderá se transformar em uma "guerra fria" com as empresas
da internet. Na medida em que mais consumidores acessam a web a partir de
dispositivos móveis, o custo de construção de redes de comunicação maiores
poderá superar o crescimento das receitas das operadoras de telefonia sem
fio, diminuindo seus retornos sobre os investimentos.
O descompasso entre os investimentos e as receitas "deverá comprometer a
sustentabilidade econômica do atual modelo de negócios das companhias de
telecomunicações", disse Bernabè. Segundo estimativas da consultoria IDC,
o número de conexões de dados móveis na Europa ocidental vai aumentar em
média 15% ao ano para 270 milhões em 2014, mas as receitas gerais obtidas
com os usuários finais vão cair cerca de 1% ao ano. Os investimentos
anuais das operadoras de telefonia com equipamentos de rede no período vão
crescer 28% em relação ao ano passado, para cerca de US$ 3,7 bilhões,
segundo a consultoria Canalys.
Empresas como Google e Yahoo! "usam as redes da Telefónica de graça, o que
é bom para eles, mas uma tragédia para nós", disse Alierta em fevereiro.
"Isso não pode continuar."
Certamente, as operadoras estão se beneficiando da crescente popularidade
do uso dos dados móveis. A receita doméstica com dados da France Télécom,
a maior vendedora dos iPhones da Apple depois da AT&T, cresceu 24% no
terceiro trimestre, subindo para quase 32% da receita de rede.
A explosão dos dados é uma "boa notícia", disse Richard, da France Télécom.
No entanto, trata-se de "um desafio para operadoras como nós", disse ele,
acrescentando que isso "levanta a questão do modelo de negócios da
transmissão móvel de dados". Diante do crescimento geral menor das
receitas, mesmo com a disparada do uso de dados, as operadoras estão
tentando repassar parte dos custos para os provedores de serviços.
Bernabè, da Telecom Italia, disse que a Apple, o Google, o Facebook e o
serviço de telefonia pela internet Skype "cada vez mais se parecem com
operadoras integradas no setor de redes de telecomunicações".
Os provedores de serviços e as operadoras de telefonia estão tentando
novos modelos. Nos EUA, o Google e a Verizon , a maior operadora doméstica
de telefonia móvel, exortaram as autoridades reguladoras a excluir as
conexões de internet móvel das potenciais regras de neutralidade na
internet, que poderão impedir as operadoras de reduzir parte do tráfego de
maneira seletiva.
A exceção, que não foi adotada pela Federal Communications Commission (FCC,
a agência reguladora), teria permitido às operadoras cobrar dos
consumidores ou dos provedores de conteúdo um ágio pelo fornecimento de
certos vídeos, jogos e outros aplicativos.
As regras encorajando o pagamento pelo uso das redes de comunicações têm
uma probabilidade maior de vingar na Europa, onde companhias como a France
Télécom e Telefónica estão entre os maiores empregadores da região.
Enquanto isso, as teles buscam meios de conseguir receitas com os clientes
que consomem muitos dados. A Vodafone, maior operadora de telefonia móvel
em receitas do mundo, pretende mudar para o sistema chamado de preço
gradual, baseado no uso de dados, depois de uma decisão parecida da AT&T
de parar com os planos ilimitados.
"Estamos mudando progressivamente da abordagem ilimitada, que sempre foi
uma característica de nosso setor, para algo mais sofisticado", disse
ontem Richard, da France Télécom. Os planos de dados ilimitados ficarão
cada vez mais raros, disse Rosalind Craven, analista da IDC em Londres.
Enquanto isso, os provedores de serviços afirmam que já pagam o
suficiente. "Atualmente, cerca de 40% de nossas despesas vão de qualquer
forma para as redes de comunicação - servidores, peering, ou redes de
transmissão de conteúdo e outros recursos", diz Giuseppe de Martino,
diretor regulador e legal da provedora de vídeos on-line Dailymotion , de
Paris. "Se as operadoras querem que dividamos as despesas, talvez
devêssemos falar em dividir também as receitas com assinaturas."
Bill Echikson, porta-voz do Google em Bruxelas, não quis fazer
comentários, assim como Trudy Muller, porta-voz da Apple em Cupertino, na
Califórnia.
A luta que se aproxima entre as operadoras é, em última análise, em
relação ao controle sobre os clientes e seus bolsos, afirma Paolo
Pescatore, analista da CCS Insight. "Eis aí certamente uma grande briga."
(Tradução de Mário Zamarian)