A mudança no Egito virá pela internet?
Global - O que se fala...
por e-Thesis*
01-Fev-2011
 

Toque de recolher, supressão de direitos civis e bloqueio total do acesso à internet para 80 milhões de pessoas foram, na semana passada, algumas das medidas tomadas por Hosni Moubarak, o homem que insiste em se manter presidente do Egito contra a vontade da grande maioria dos egípcios. Conheça abaixo algumas das providências, tomadas em várias partes do mundo, para restabelecer um mínimo de comunicação à população do Egito. Saiba, também, como aderir ao movimento de defesa da liberdade dos egípcios. E, entre outras informações, conheça a alternativa de acesso fornecida por engenheiros do Google e Twitter.

Desde que Moubarak entrou para a História como o responsável pelo primeiro bloqueio total da internet, impedindo o acesso aos grandes fornecedores internacionais e removendo o espaço IP egípcio da Internet global, muitos procuram saídas que minimizem o problema. A Renesys, empresa que atua como autoridade de inteligência de internet em âmbito global, por exemplo, sugere que, por ora, a única saída seria por meio de chamadas telefônicas tradicionais, assumindo que o funcionamento destas tenha se mantido, ou via satélite. Segundo a companhia, um dos poucos fornecedores egípcios hoje acessíveis, quatro dias após o início da crise, é o grupo Noor, que fornece serviços de Internet para uma série de pontos chaves egípcios e internacionais, entre eles o I-score, o egípcio Crédit Bureau e o GNT, National Technology Group, que processa a internet para os setores de aviação, bancos e financeiro. A Universidade Americana no Cairo também tem acesso à internet através da Noor, assim como a Bolsa egípcia - embora várias agências internacionais noticiem, hoje, que não se publicou informações de bolsas de valores oriundas do Egito. O acesso via Noor, além disso, pode ser muito lento.

A própria Renesys informa em seu blog que, talvez surpreendentemente, a MCDR (que trata da liquidação das ações, das empresas e da dívida pública) não pode ser alcançada no momento, apesar de transitar pela Noor. A situação, enfim, é muito volátil.

De acordo com James Cowie, CTO da Renesys "Numa ação sem precedentes na história da internet, o governo egípcio parece ter ordenado que provedores de internet encerrassem todas as conexões internacionais de internet. Rotas críticas européias e asiáticas de fibra óptica que passam através do Egito parecem ter sido afetadas. Mas cada provedor de serviços de internet do Egito, empresa, banco, cyber café, site das embaixadas, escola e escritório do governo - que contavam com os quatro grandes ISPs egípcios para a sua conectividade- se encontra agora isolado do resto do mundo. Link Egypt, Vodafone/Raya, Telecom Egypt, Etisalat Misr e todos os seus clientes e parceiros estão, no momento, fora do ar".

Especificamente, às 22:34 UTC (00:34 hora local) do dia 31 de janeiro de 2011, a Renesys observou a retirada simultânea de praticamente todas as rotas para as redes egípcias na tabela global de roteamento da internet. Aproximadamente 3.500 BGP [Border Gateway Protocol] ou rotas individuais foram retiradas, não deixando caminhos válidos pelos quais o resto do mundo mantenha a troca de tráfego com provedores de serviços de internet no Egito. "Praticamente todos os endereços de internet do Egito são agora inacessíveis, em todo o mundo", acrescentou Cowie.

O próprio executivo verificou o fato. Através do miniRank, um dos mais populares sites egípcios, onde ele constatou que era incapaz de atingir 22 dos 25 sites. Os únicos sítios que responderam foram os das grandes companhias de automóveis. De resto, ele era redirecionado para sites fora do Egito. Este fato demonstrou que muitos dos DNS (Domain Name System) egípcios não funcionam. Por exemplo, os domínios frcu.eun.eg, ns.mcit.gov.eg e ns.idsc.gov.eg apresentam mensagens de falha retornando do servidor.

A banda baixa em RTC [uma solução de segurança normalmente acessível por todos a partir de uma linha telefônica existente e que antes da implantação do ADSL era o modo de conexão clássico, inclusie aqueles conectados em RNIS] faz, agora, o papel de rota de segurança. O que chega ao Ocidente, via Tunísia, são reivindicações do povo egípcio por uma mudança radical de poder e de mais liberdade. Mas, de fato, poucas pessoas podem comunicar ao exterior o que se passa no Egito.

A saída dos engenheiros do Google e Twitter

Google e Twitter forneceram hoje uma solução para ajudar os egípcios a ultrapassar o bloqueio da internet perpetrado pelo governo egípcio. Uma pequena equipe de engenheiros do Twitter, Google e SayNow [empresa adquirida na semana passada pelo Google] desenvolveram uma solução que permitirá aos egípcios se comunicar com o exterior, via internet. É claro que sua execução depende de os internautas egípcios estarem ao corrente de sua existência, e a solução tem sido pouco divulgada pelos vários sites.

A idéia consiste em deixar uma mensagem de voz sobre um dos números internacionais colocados à disposição dos egípcios na conta Twitter Officiel Speak2tweet (+16504194196 , +390662207294 , +97316199855). Uma vez enviada, a mensagem é instantaneamente adicionada à conta Speak2tweet de Twitter com a hashtag #Egypte. As mensagens também podem ser ouvidas ao se compor os números de telefone ou através da conta Twitter Speak2tweet.

A situação local

Desde que o povo egípcio decidiu que não quer Hosni Moubarak à testa do governo local, se tem vivido um clima de forte tensão por todo aquele país. Fontes indicam que mesmo os serviços de telefonia móvel foram atingidos pelas sanções. Malgrado o conflito, o Egito conserva as pirâmides, o canal de Suez e um PIB de 500 milhões de dólares. É forte a especulação sobre a decretação de um possível estado de emergência. Mas se conspirações existem, o mais lamentável é estarem 80 milhões de egípcios privados da internet.

Desde as manifestações que se seguiram à reeleição contestada de Mahmoud Ahmadinejad no Irã, as autoridades egípcias procederam a diversos bloqueios massivos de serviços e ordenou a interrupção de serviços em alguns pontos geográficos. Mas, ainda não havia ordenado o corte do serviço no conjunto do país. Considerado "inimigo da Internet" pela organização Repórteres sem Fronteiras, o governo do Egito procede há anos a perseguições judiciais e policiais dos blogueiros e dos sites de internet que denunciam a corrupção e as políticas do regime de Mubarak. Mas, ao contrário da Tunísia, o Egito não havia criado os sistemas de filtragem de sites ou serviços.

Mas, esta política mudou com o início das grandes manifestações neste mês de janeiro de 2011: as autoridades bloquearam de ponta a ponta, temporariamente, serviços como Twitter ou Facebook. Na quinta-feira passada, a cidade de Suez, palco de violentas manifestações na véspera, foi praticamente cortada do resto do mundo, com três fortes perturbações ao acesso à internet e às redes de telefonia móveis e fixas.

Segundo diversos testemunhos por todo o país, os SMS foram bloqueados na sexta-feira. Segundo fonte próxima à Vodafone, que gera a principal rede de telefonia móvel do país, as autoridades governamentais simplesmente cortaram as antenas-relais dentro e nas proximidades das grandes cidades.

Para bloquear a internet não é preciso um botão vermelho

"Bloquear a web nos países que exercem controle importante sobre os fornecedores de acesso não é difícil, porque as empresas que exploram as redes de cabos dependem frequentemente de licenças do governo », disse Craig Labovitz, responsável científico da Arbor Networks. "Não existe um grande botão vermelho, mas, simplesmente, uma chamada telefônica para uma dúzia de pessoas chaves", acrescentou ele. O Egito conta com quatro principais fornecedores de acesso à internet: Link Egypt, Vodafone/Raya, Telecom Egypt e Etisalat Misr, todos dependentes da licença que lhes é fornecida pela ARNT, autoridade de regulamentação das telecomunicações do Egito.

O setor de TIC no Egito

As tecnologias da informação e das comunicações (TIC) do Egito conheceram um crescimento muito rápido ao longo dos últimos anos: foi multiplicado por dois o número de linhas fixas que hoje atingem o volume de 10,4 milhões a uma taxa de penetração superior a 13%. Houve também a multiplicação por 15 do número de assinantes da telefonia móvel, que atingiu teledensidade de 10%. Multiplicou-se por 10 o número de usuários de internet, que é agora de 5 milhões. Uma taxa de penetração da ordem de 6%. A infraestrutura de telecom exigiu investimentos importantes: entre US$ 800 milhões e 1,2 bilhão entre 2000 e 2004).

Uma lei de regulamentação das telecomunicações foi promulgada (Lei n°10-2003 de 4/02/2003) e a Autoridade Nacional de Regulamentação das Telecomunicações (ANRT) foi criada.

A ‘receita' de Moubarak

Um poder absoluto desde 1981 (o de Hosni Moubarak), uma oposição reduzida ao silêncio, uma imprensa amordaçada ou persuadida, a repressão sistemática de toda voz dissonante, um poder de compra em perpétua erosão, desemprego galopante e corrupção generalizada. Eis alguns fragmentos que compõem o cartão postal do Egito, hoje, um país em plena ebulição às vésperas das eleições presidenciais 2011, que os observadores já qualificam como decisivas.

Os espaços da liberdade de expressão foram bastante reduzidos desde o assassinato de Anuar Sadat, em 1981. Instaurado inicialmente para lutar contra o terrorismo, o regime de exceção, que segundo a oposição não mais se justifica, restringe as liberdades civis e autoriza prisões arbitrárias. O regime serve também de álibi ao poder para justificar o bloqueio nos campos político e midiático.

Com as ruas interditas e perigosas para os opositores que se aventuram por elas, os egípcios em número cada vez maior encontraram refúgio na internet para dizer, escrever e mostrar situações ou eventos embaraçosos para o poder. Os jovens, que representam 60 % da população, são os primeiros a tomar de assalto a web para partilhar sua insatisfação com este quadro.

A internet se transforma em última trincheira para uma população desiludida. E não foi por acaso que o grande movimento de 6 de Abril de 2008, que paralisou diversas cidades egípcias, tenha partido principalmente da internet. A palavra de ordem de greve foi lançada no Facebook antes de encontrar eco entre as centenas de milhares de simpatizantes pelo país a fora. O Egito não havia conhecido mobilização semelhante por várias décadas.

Diante da forte mobilização, sobretudo dos sindicatos e políticos, na internet, o poder de Moubarak teve à época os mesmos reflexos autoritários de agaora: blogueiros e jornalistas presos, sites fechados, acompanhamento cerrado do conteúdo web etc. Mas, pelo visto, nada foi capaz de recuar esta nova geração de dissidentes. A despeito de inúmeras prisões e do assédio contínuo, a blogsfera egípcia, a mais importante do mundo árabe, de mantém viva e dinâmica. A mudança no Egito virá pela internet?

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