
Esse Editorial foi transcrito da TELETIME
"
Há cerca de um mês, a Anatel determinou a suspensão das
vendas do serviço de acesso banda larga Speedy, da Telefônica. Foi a
mais drástica medida contra uma operadora de telecomunicações de
que se tem notícia desde a intervenção na CRT, ainda no final dos anos
90. O episódio, marcante não apenas pelo aspecto simbólico do ponto de
vista regulatório, é ainda mais significativo do ponto de vista
operacional. Pela primeira vez desde a privatização do Sistema Telebrás,
uma concessionária de serviços públicos de telecomunicações, com
alta capacidade de investimento e notória experiência operacional, falha
de maneira retumbante ao atender a uma demanda de mercado.
Desde a primeira grande pane na rede da Telefônica, em 2 de julho de
2008, que deixou 2 milhões de pessoas, repartições públicas e empresas
sem acesso à Internet por 72 horas no Estado de São Paulo, um ano se
passou.
Depois disso, foram mais quatro grandes panes no serviço de acesso à
Internet e uma que comprometeu o serviço de voz.
Exatamente um ano atrás, TELETIME trazia reportagem de capa sobre o
problema na rede da Telefônica, ouvindo especialistas e apontando
possíveis causas. Na explicação oficial dada pela empresa naquela
ocasião, o presidente da Telefônica, Antônio Valente, ainda sem muita
clareza do que havia acontecido, descartava a hipótese de que o apagão
tivesse se dado por falta de manutenção ou de investimentos na
infraestrutura para abarcar o crescimento explosivo da banda larga no
País. “A rede está preparada para o crescimento”, enfatizava o
executivo.
Hoje, um ano depois e sem resolver o problema, a Telefônica assumiu
publicamente a responsabilidade pelas sucessivas falhas e segue dizendo
que o problema não é falta de investimento ou manutenção, mas agora
atribui o problema justamente à grande expansão da rede de banda larga.
“O mercado de telecomunicações do Estado de São Paulo, em
particular o de banda larga, é caracterizado por aumentos expressivos na
quantidade de usuários, na intensidade de uso dos serviços, na
complexidade da operação necessária para suportar esses serviços, e no
volume de atividades destinadas justamente à expansão e modernização da
rede”, contextualizou a companhia, chamando a atenção para sua
expressiva expansão na base de usuários e na cobertura, a mudança de
padrão de uso dos clientes e as seguidas intervenções na rede. Tudo
isso, disse a tele, contribuiu para que a situação chegasse onde chegou.
Em outra ocasião, a Telefônica reconheceu que seus servidores DNS têm
capacidade inferior à demanda. Depois, se descobriu, pelos processos
administrativos abertos na Anatel, que a empresa permitiu que seus
fornecedores utilizassem equipamentos não homologados pela agência. Por
fim, a empresa anunciou um plano para resolver os problemas em 180 dias.
O plano inclui a revisão de procedimentos e realocação de investimentos.
Executivos da matriz da Telefônica que estiveram no Brasil no final de
junho disseram ao TELETIME News que acreditavam que esses problemas se
devem à gestão local, já que a Telefônica no Brasil era a única, dentro
de um modelo administrativo adotado pela tele espanhola em vários outros
países, que estava dando problema.
Fica no ar a impressão de que há um problema mais grave por trás dessa
questão.
Há um ano, a empresa se dizia preparada para o crescimento, apesar da
pane. Um ano depois, as panes continuaram e a empresa atribuiu o fato ao
crescimento do mercado de banda larga.
É estranho que uma empresa do porte da Telefônica, com sua importância
social e econômica e com a quantidade de bons profissionais que tem, não
tenha se planejado para o crescimento do mercado de banda larga, não
tenha detectado o impacto do YouTube e outros serviços altamente
populares no padrão de uso da Internet, ou tenha se prejudicado tanto em
função das intervenções para a portabilidade (o que não aconteceu em
outras operadoras). Parece que os executivos da matriz espanhola fazem
um diagnóstico simplista. A Telefônica no Brasil tem um tamanho, um peso
e uma complexidade de operação diferentes da Telefônica no Peru, por
exemplo.
E por isso mesmo precisa ter muito mais agilidade e autonomia do que
esses outros mercados. Mas não é o que acontece. Há muitos anos se
escuta aqui e ali, de diferentes funcionários e executivos da empresa,
que tudo precisa passar pela Espanha e que as decisões no Brasil são
lentas e complicadas. É mais provável que o tal problema de gestão da
Telefônica esteja aí".
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