De vez em quando, o estrondo das bombas do
Riocentro volta a ecoar nos meus ouvidos. Hoje,
por exemplo. Passaram-se mais de 30 anos e ainda
ouço aquelas desastradas explosões. Uma bomba
detonou antes da hora no colo de quem a
carregava. A outra, colocada na caixa de força
da estação elétrica, provavelmente mal iscada,
não causou maior prejuízo. Havia uma terceira,
desativada pelos peritos que acorreram ao local.
Como catalogar o episódio, tragédia ou comédia?
Ou tragicomédia, a ser atribuída a um misto de
delírio tropical com a incompetência daqueles
terroristas de Estado?
Agora pergunto: o que aconteceria se as bombas
explodissem conforme a programação urdida na
Vila Militar, sob o comando do general Gentil
Marcondes? Era noite de festa, véspera do Dia do
Trabalho, 30 de abril de 1981, 20 mil pessoas,
na maioria jovens, lotavam o Riocentro para
ouvir seus cantores preferidos. Não é árduo
imaginar a cena de pânico que se estabeleceria
se o plano desse certo, o corre-corre, os corpos
que caem, logo pisoteados por quem sobrevém de
carreira, o morticínio. Vinte mil pessoas
estiveram expostas naquela noite ao risco
monstruoso, milhares seriam as vítimas. A quanto
subiria o número de assassinados pela ditadura
nativa?
Há quem diga e escreva sobre papel impresso que
por 21 anos o Brasil foi dominado por uma “ditabranda”.
Há quem faça as contas: na Argentina morreram 30
mil, no Uruguai 3 mil, no Chile nem se sabe
quantos, aqui 300. “Apenas.” E se os terroristas
do I Exército conseguissem o que pretendiam? O
Brazil-zil-zil ombrearia na cifra dos eliminados
com os demais países do Cone Sul, ora viva.
Recordo que, naquela mesma noite, o chefe da
Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, pediu ao
ditador João Figueiredo a cabeça do general
Gentil, como se dera com o comandante do II
Exército, Ednardo D’Avila Melo, em janeiro de
1976, depois do assassínio do operário Manuel
Fiel Filho no DOI-Codi paulistano, aliás, outro
momento de monumental incompetência dos algozes
da Rua Tutoia. O Manuel a ser seviciado era
outro. O chefe do SNI, Octavio Medeiros,
manifestou-se contra a demissão. Golbery avisou,
peremptório: “Ou ele, ou eu”. Sinto muito,
replicou Figueiredo, fico com ele. Ou melhor,
com eles, Medeiros e Marcondes. Golbery esperou
três meses e, enfim, demitiu-se.
Que ditabranda é esta pronta a endossar um
atentado programado para matar milhares de
inocentes por obra de um plano tramado com a
evidente responsabilidade- de um general
comandante do Exército? Temo que a chamada
Comissão da Verdade, que acaba de ser aprovada
pelo Congresso, seja de fato destinada a
perpetrar outro gênero de atentados, contra a
memória e a história do País. Como era de se
esperar, aflora a tese de que a simples
aprovação da Comissão da Verdade representa um
avanço notável. Este também é o Brasil useiro,
inescapável, imaturo, eternamente disposto à
conciliação dos senhores.
Por trás de uma deplorável tradição de arreglos
selados há séculos para deixar as coisas como
estão, vinga ainda a conveniência de um exército
que em vez de servir ao Estado por este é
servido. Um exército de ocupação, é o caso de
dizer. Em proveito de quem? De si próprio? Ora,
ora… Em relação aos tempos das bombas do
Riocentro, novas levas fardadas substituíram
aquelas dos ditadores da casta. Quem continua a
postos são os vetustos donos do poder, os
paisanos que mandam de fato, se não aqueles ao
menos os novos intérpretes da mentalidade de
antanho, sempre viva, imutável. E tão sincera e
eficazmente defendida pela mídia nativa.
As Forças Armadas no golpe de 64 arcaram com o
papel de gendarmes dos senhores da Casa-Grande.
Na ocasião, Raymundo Faoro via nelas o sucedâneo
dos capitães do mato. Quem fala de ditadura
militar, em boa ou má-fé, escamoteia a verdade,
foi ditadura, e ponto final, e de inaudita
ferocidade, embora amiúde estulta no
desperdício, digamos assim, da raiva e da
violência, quando bastaria muito menos para
atingir seus nefastos objetivos. Não se trata
agora de punir os sobreviventes terroristas de
farda, de fato parvos paus-mandados. Trata-se de
entregar à execração perene, infelizmente
tardia, os primeiros responsáveis por uma quadra
tão dolorosa, a vincar em profundidade o atraso
do Brasil.
Poupo-me e poupo os leitores de lugares-comuns a
respeito da importância da memória, em proveito
da verdade histórica. Resta entender que a
reconstituição não interessa à chamada elite e
aos seus aspirantes. Na resistência à elucidação
dos eventos do passado infeliz, estes vêm antes
que um ou outro chefe militar ancorado ao
passado.
Mino Carta