A crise eco-antropológica



O capitalismo neoliberal está em crise. Isto não deve causar surpresa a ninguém,pois ele foi criado para responder à crise anterior, e fez isso ganhando algumtempo em troca da geração de instabilidade. Agora o tempo acabou, e não é maispossível retornar à estabilidade dos “negócios de sempre”. A desregulamentação dosmercados se tornou um vício, uma prática que fortalece a si mesma. Para salvara rentabilidade, é preciso sacrificar empregos. A economia mundial é movidapelo excesso de consumo. Se o consumo diminui, algo precisa compensar essaperda, e não há mais de onde tirar dinheiro. O dinheiro público passa a serusado para pagar dívidas privadas e evitar a queda de um mercado muitoimportante, o que geraria um efeito dominó.



O papel da cultural global é fazer com que nos sintamos bem em cooperar com a reestruturação econômica para diminuir oimpacto da crise sobre o capitalismo. E uma das soluções sugeridas é um eco-capitalismo.Trata-se de abrir um novo espaço para o lucro tornando a produção industrial eos serviços um pouco mais ecológicos. Os consumidores irão pagar por isso seforem convencidos que é a responsabilidade deles é ter carros menos poluentes eusar fontes de energia mais sustentáveis. Quando a cultura diz “salve oplaneta”, de fato ela está dizendo “salve a economia”.



Não que o dano ao meio-ambiente não seja real. Mas o eco-capitalismo não atinge acausa da crise ambiental, apenas alguns efeitos. O discurso ecológico serve dedesculpa para salvar o capitalismo. Por meio dele, é possível promover um novoideal de “bem-estar social”. Um que não obrigue o Estado a gastar dinheiropúblico, mas ao contrário, que justifique um investimento na iniciativa privadae também gere um novo mercado de consumo. Assim, não será preciso prejudicar asgrandes empresas que mantém a estrutura da civilização. Ao contrário, elasserão beneficiadas com dinheiro público, com a desculpa de que se trata de umincentivo para criação e adoção de estratégias e tecnologias mais ecológicas. Ogoverno cria leis garantindo isso, não apenas porque os políticos também sãoinvestidores nessas empresas, mas porque este é o único modo de sustentar aeconomia global.



É o dinheiro público que cobre os gastos para transformar a atual civilização numacivilização mais ecológica. Mais do que isso, o processo de desestabilização iniciadono neoliberalismo se perpetua graças a esse investimento. Quem tem dinheiropode comprar para salvar o mundo. Quem não tem nada a oferecer para o “planeta”será prejudicado, porque provavelmente só poderá recorrer aos meios“não-ecológicos” como fonte de renda.



O movimento ambientalista é uma válvula de escape, um escudo político. Leis,acordos e políticas para poupar o planeta dos danos ambientais causados por produtosde uso cotidiano jamais serão suficientes. Ao contrário, servem apenas paraimpedir que as mudanças realmente significativas ocorram. São falsas soluções.Estamos cientes disso. Mas onde estão as verdadeiras soluções? Elas ainda estãoinvisíveis, porque mesmo os mais radicais ainda acreditam em “democracia deverdade”, “segurança alimentar”, “decrescimento”, “preservação dos recursosnaturais” e discursos desse tipo. Seus propositores se consideram radicaisporque se opõem às soluções propostas pelo “lado B do mainstream”, como osbiocombustíveis. Eles compreendem uma parte da verdade, mas não vão até o fundoda questão. A ala radical, a menos radical e a nada radical são todasreformistas do nosso ponto de vista, porque não criticam a civilização como um todo.É tudo farinha do mesmo saco.



Nesses termos, não faz realmente muita diferença se o ideal é beneficiar as empresasou o povo, se todos ainda vivemos integrados a um sistema maior chamadocivilização. Não faz muita diferença se o interesse é a segurança energética oua segurança alimentar, se o que se defende no fundo é a perpetuação de um modode vida civilizado. Não adianta criticar apenas o comércio de carbono, se todaproposta ainda se ajusta a um modelo econômico que trata a vida como uma mercadoria,um produto, uma propriedade. Não adianta dizer que as monoculturas são desertosverdes, se mesmo a uma forma mais ecológica de cultivo for usada para alimentarum deserto de sentido.



É claro que é deplorável a situação em que se encontra a parcela mais pobre dapopulação mundial, e seria ótimo se com alguns ajustes na civilizaçãopudéssemos alimentar e dar dignidade a todas essas pessoas. Mas esperar que ogoverno ou as corporações cooperem com isso é perda de tempo. Além disso, essasmedidas não vão resolver a causa dos problemas que afetam o mundo hoje. Elaspodem no máximo aliviar o sofrimento temporariamente. Enquanto o processocivilizatório continuar ocorrendo, nenhuma ação humana poderá nos salvar daobliteração total.



A mudança climática é apenas um dos efeitos da civilização. A questão é solucionar acausa. Governos e corporações não são os únicos inimigos. A cultura global e anova subjetividade que ela criou são inimigas mais insidiosas. O capitalismoverde é uma continuação do capitalismo baseado em petróleo e guerras, equalquer outro tipo de capitalismo não irá sobreviver. Mais do que isso, ocapitalismo é um estágio da civilização, e passar para o próximo estágio nãosoluciona nosso verdadeiro problema. Estamos lidando com crises dentro decrises dentro de crises. A crise central, mais importante e mais fundamental, étambém a mais antiga, mais primitiva e mais invisível...




Aceito sugestões, complementações, correções, questionamentos e críticas.




Abraços




Janos


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