QUEM TEM MEDO DA DEVASSA?
por
João Whitaker
Vocês repararam como no discurso oficial em
torno do “escândalo” da Receita Federal aparece reiteradamente o
argumento da “vida devassada” – no caso, a vida da Verônica Serra?
A idéia é de que a quebra de sigilo representa
uma violação escandalosa da vida privada de cada um, que vê suas
contas escancaradas. Um risco para o Estado de Direito, que deve zelar
pela privacidade dos seus cidadãos.
Formalmente, o
argumento é corretíssimo, tudo que a Lúcia Hippolito queria para se
indignar à vontade na CBN. Há de fato aí uma questão que deve ser
averiguada, pois não é agradável saber que nossa administração pública
não zela como deveria por nossos dados pessoais. Mas sinceramente eu
nunca confiei plenamente que meus dados fornecidos para a tal Nota
Fiscal Paulista, ou para fazer o Bilhete Único, ou mesmo para tirar os
documentos do carro fossem assim tão religiosamente guardados. Aliás,
o que não falta é documento de carro clonado surgindo por ai.
No âmbito da iniciativa privada, para não falar
em cartões clonados com a “ajuda” de funcionários das instituições
bancárias, não consigo mais usar minha conta UOL na internet de tanto
Spams que recebo. No celular agora virou comum receber ligações de
telemarketing. Pergunta: quem vazou meu mail e meu número para todos
esses anunciantes?
Quando as próprias empresas
alimentam uma cultura de vazamentos para todos os lados, e em um país
em que o Estado ainda é uma máquina
bastante corroída pela corrupção (e por isso vulnerável), não deveria
parecer tão incomum um sujeito qualquer conseguir um atestado com um
documento falso em um posto remoto da Receita Federal. É escandaloso,
mas não é novidade.
A grande imprensa – consternada – resolveu agora
analisar o porquê do escândalo “não pegar”: para ela, a grande maioria
da população sequer
paga IR, e por isso acha essa história um tanto complexa. Até ai, tudo
ok: o povão não paga IR, e ainda bem. Esses assuntos podem mesmo lhe
parecer distantes.
Agora, o que me espanta é essa divisão que vem
subjacente ao argumento, como se houvesse dois grupos: um dos que
pagam IR e entendem o
escândalo, e outro dos que não pagam e não entendem.
Ai está o ponto sobre o qual vale chamar a
atenção: há ainda um terceiro grupo, para o qual a mídia não deu
atenção, pois entre os que pagam
o IR, há uma enorme maioria para quem a palavra “devassa” não
significa muita coisa. Em outras palavras, para quem trabalha
honestamente e ganha seu salário a duras penas, e ainda paga o IR no
fim do ano, ou recebe restituição, a palavra “devassa” ou mesmo
“quebra de sigilo” não tem nem de longe o significado terrível e de
desmoronamento do Estado que a grande mídia quer dar. No máximo pode
significar uma dor de cabeça igual a de saber que seu documento foi
clonado. Nada agradável, porém também nada que me faça achar que o
Estado brasileiro de repente está desmoronando.
Isso porque para essa maioria, não há o que ser
devassado. Querem ver meu IR? Sem problemas: vai aparecer lá que dou
aulas em duas faculdades, que faço uma ou outra palestra, e que pago
uma fortuna de IR no fim do ano por ter duas fontes de pagamento.
Algum problema em devassar-me? Nenhum, salvo eventualmente algum
constrangimento menor, quanto à privacidade de saberem meus bens, mas
nada de muito significativo.
Ou seja, o discurso da “vida devassada” que a
grande mídia está usando é de um elitismo sem tamanho. E por isso não
pega também nem na classe média que paga IR.
Quem tem tanto medo de ter a vida fiscal
“devassada” é certamente quem tem muito, mas muito a esconder. Quem
tem muito dinheiro, quem declara bens incompatíveis com o estilo de
vida pública que leva, e assim por diante. Ou seja, a elite da elite.
Só para eles ter a “vida
devassada” pode ter esse aspecto tão aterrorizante.
Acho até que boa parte da classe média deve
inclusive olhar com certa ironia e um pouco de curiosidade perversa a
possibilidade de saber quais as eventuais falcatruas que os famosos
podem ter feito, e que tanto os fazem temer em ter as contas
devassadas. Incluindo-se aí a filha do Serra.