O Brasil está
inventando os desmatadores patriotas
por
Luiz Carlos Azenha
Quando o Brasil
discutia de forma altamente polarizada o destino da reserva
Raposa Serra do Sol eu vivia em Washington. Pelo que lia e
ouvia, à distância, os indígenas estariam a serviço dos
Estados Unidos, parte de uma conspiração internacional para
desmembrar o Brasil.
Como repórter, fui até
lá gravar um documentário. E descobri que não era bem assim:
tinha sido um longa luta por autonomia, marcada por ameaças,
ações de intimidação e assassinatos brutais cometidos pelos
invasores da terra.
Agora, aquele mesmo
discurso surrado está de volta. Com alguns dos mesmos
atores. Quem defende a preservação ambiental estaria a
serviço de uma vasta conspiração. E os desmatadores? São
patriotas. Patriotas desmatadores. Eles querem detonar a
esfera pública de seus negócios, ou seja, se livrar das
obrigações legais que têm com o interesse comum. Agora,
escondidos sob a bandeira do Brasil!
Fiquem com o artigo do
Gilson Caroni:
DEBATE ABERTO
Amazônia: qual o
código da nossa esquerda?
Será o Código Florestal
a prova dos nove para o habitual transformismo que, vez por
outra, visita forças do campo progressista? É hora de a
esquerda se livrar do imaginário herdado do padrão fordista
e incorporar a luta pela preservação natural ao seu
horizonte político.
Gilson Caroni Filho, na Carta Maior, em
14.05.2011
Equilíbrio ambiental e
desenvolvimento sustentável são elementos indispensáveis
para o futuro do país. Exigem do movimento ecológico uma
reformulação radical que o torne matriz de uma nova
esquerda. A Amazônia é um exemplo. Seu desmatamento é obra
conjunta de latifundiários, grandes empresários e empresas
mineradoras.
São os inimigos a serem
confrontados prontamente. Será o Código Florestal a prova
dos nove para o habitual transformismo que, vez por outra,
visita forças do campo progressista? Ou talvez a inflexão de
fundo seja de maior envergadura. É hora de a própria
esquerda se livrar do imaginário herdado do padrão fordista
e incorporar a luta pela preservação natural ao seu
horizonte político. Fora disso, a palavra progressista
torna-se um vocábulo vazio. Um atributo discutível para quem
luta no campo democrático-popular. O ciclo da destruição das
nossas florestas é sobejamente conhecido
Desde a década de 1960,
a grilagem vem sendo ampliada por intervenções como o
estímulo à mineração e à expansão da pecuária e da lavoura
monoculturista, a abertura ou o asfaltamento de estradas e
outros projetos ditos de “povoamento” e, como agora, no caso
de projetos de hidrelétricas do Rio Madeira,
“desenvolvimento”. E isso desde o simples anúncio, quando
tais iniciativas ainda estão no papel.
Todos nós já vimos
tramas semelhantes em filmes de faroeste, em que os robber
barons tratam de se apossar, por quaisquer meios, das terras
por onde vai passar a ferrovia ou ser feita a represa.
Uma vez estabelecida a
ocupação, tem início a retirada da madeira de maior valor
comercial, destinada às carvoarias e às indústrias moveleira
e de construção civil, etapa que pode levar várias estações
de corte. Exauridos tais recursos, segue-se a “limpeza” da
área, por meio de corte raso e queimada, e o preparo da
terra para pastagem.
Quando a extração de
madeira se esgota, entra o gado, tipicamente de corte. Em
algum momento, a posse é esquentada por títulos falsificados
de propriedade que, exatamente por serem falsos, e porque os
registros e fiscalização são precários, geralmente não
aparecem nas estatísticas oficiais, em que as áreas griladas
continuam figurando como terras da União.
Ironicamente, essas
“propriedades” serão usadas como garantia para a obtenção de
empréstimos e financiamentos junto a bancos, tanto privados
como oficiais, e a agências de fomento.
A substituição do gado
pela soja ou por outras lavouras extensivas é determinada,
mais que por qualquer outro fator, pela demanda por essas
commodities e por seus preços relativos nos mercados
internacionais, sobre os quais o Brasil não tem qualquer
controle: são buyer markets, mercados de compradores. No
caso da soja, vale lembrar que há sinergia com a pecuária,
já que parte significativa da colheita vai para a produção
de farelo empregado em rações animais.
Além disso, o ciclo se
expande continuamente. Pois, enquanto a lavoura está
entrando numa área, os grileiros e as motosserras estão
abrindo novas “frentes de ocupação” em outra, para a qual o
gado por sua vez se expandirá ou mesmo deslocará, pois é
muito mais fácil deslocar reses do que vegetais.
Se deixada ao sabor do
mercado, a floresta de ontem se converte no polo madeireiro
de hoje, no pasto de amanhã, na lavoura extensiva de depois
de amanhã e, em última instância, em deserto.
O solo característico
da Floresta Amazônica, embora rico em elementos não
orgânicos como ferro e alumínio, é extremamente pobre em
nutrientes, e por si só jamais seria capaz de sustentar
florestas. E, no entanto, a floresta está lá. Como? O que
sustenta a floresta em pé é a própria floresta.
A decomposição dos
detritos vegetais e animais depositados pela própria
floresta sobre seu solo forma a “terra preta de índio”, um
fino tapete rico em húmus, e são os microorganismos aí
presentes que produzem os nutrientes de que as árvores se
alimentam.
Quando a cobertura
florestal é removida, o ciclo se rompe. Pois a camada de
“terra preta” é superficial e, sem a floresta para de um
lado renovar os componentes orgânicos e de outro segurá-los,
é rapidamente degradada. Até mesmo pela chuva, que nessas
condições, sem a floresta para proteger o solo do impacto
direto, carrega a terra para as barrancas dos rios
acelerando a erosão.
Uma vez derrubada,
portanto, a floresta não se recompõe. Disso sabe, ou deveria
saber, o deputado Aldo Rebelo. O campo progressista não
comporta alianças com forças antagônicas à sua história de
combatividade, coerência e superação. Estamos vivendo um
debate decisivo para a agenda que a esquerda pretende
propor. O fio da navalha onde tudo perde a cor, e
dificilmente se refaz, reaparece no cenário político. Como
nas florestas degradadas.
Gilson Caroni
Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas
Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta
Maior e colaborador do Jornal do Brasi