
O último artigo que eu escrevi, fala sobre tecnologia e nossa
dependência dela, especialmente quanto ao paradigma das redes e seus efeitos na
sociedade:
Dependência das redes
1. Play the game
Na nossa sociedade, a interação mediada pela tecnologia parece ter um papel de
relevância crescente. É a tecnologia que conecta o mundo numa só rede, e se a
globalização é um fenômeno cultural, podemos dizer que é um fenômeno dependente
de suportes tecnológicos. Logo, a globalização da ideologia é também a
globalização da tecnologia ou da cultura tecnológica. Não apenas isso, a
colonização cultural também gera dependência tecnológica. Esta dependência não
acaba assim que os lugares colonizados pela cultura global se tornam capazes de
criar seus próprios suportes tecnológicos, assim como a dependência cultural não
acaba só porque um país submetido à cultura global começa a criar seus próprios
produtos culturais típicos da globalização, como filmes ao estilo de Hollywood.
Não há soberania tecnológica de um país, nem autonomia tecnológica, pois são os
imperativos da cultura tecnológica que permanecem regendo. Além disso, por se
tratar de algo que avança numa velocidade acelerada, a dependência tecnológica é
também um processo crônico de dependência do avanço dos suportes tecnológicos.
Esta tecnologia de globalização apresenta um paradoxo: ela une indivíduos ao
mesmo tempo em que fragmenta identidades e provoca solidão. A solidão em escala
global se dá principalmente porque a conexão a uma rede social virtual pouco
significa em relação à proximidade tópica, o encontro. Participar de uma rede
social e interagir dentro dela é quase como fazer parte de um grande jogo. Um
jogo que exige interação entre jogadores, mas que continua sendo uma atividade
distinta daquilo que pode ser chamado de social[1]. É uma simulação de
socialização, que vai se tornando cada vez mais realista, a ponto de os
participantes desejarem incluir todos os aspectos de sua vida dentro dessa
simulação, por meio de fotos, vídeos e uma presença virtual cada vez mais
palpável. Assim, como num jogo de realidade alternativa[2], perdemos a noção
daquilo que separa a vida real da vida simulada. A vida simulada pelo perfil do
usuário e carregada na internet se torna a própria vida do usuário. A atividade
na internet já é por si só uma “segunda vida”, uma vida virtual e simulada, onde
o usuário interpreta a si mesmo, e está sempre livre para adicionar ou eliminar
alguns detalhes sobre sua vida. Ele está de fato criando um personagem, tal qual
um candidato a emprego cria uma imagem para atrair seus empregadores em
potencial. O usuário de redes sociais cria uma imagem de si mesmo que possa
atrair parceiros em potencial, mesmo que para uma interação transitória e
casual.
Tal como num jogo, há ações que irão somar ou subtrair “pontos” do seu status
virtual, que fica subentendido e pode ser avaliado por uma série de sinais,
incluindo o número de amigos. Um usuário pode até dizer que é espontâneo, mas
parecer ser espontâneo é algo que conta pontos positivos. E isso acontece
exatamente porque o modo mais fácil de chamar a atenção é agregar muitos
atributos atraentes. Mentir sobre suas próprias qualidades é como trapacear no
jogo, mas a aparência de espontaneidade faz parte das regras ocultas do jogo[3].
Como em toda interação humana, não temos acesso direto à sinceridade do outro.
Como no jogo da conquista, mentiras podem ser bem mais agradáveis do que a
verdade, e por isso são toleradas até certo grau, às vezes até mesmo exigidas.
Com isso se cria uma cultura da mentira, pois a exigência de verdade pode
inviabilizar a interação. Logo, temos um novo tipo de dependência, a dependência
de maquiar a realidade para poder ser competitivo num mundo onde a
espontaneidade é um produto criado pelo usuário de modo tão artificial quanto
uma imagem modificada por computador.
2. Crise de identidade
A crise nas bases institucionais da identidade está relacionada ao fato de que
as ferramentas para se construir uma identidade falsa são as mesmas usadas para
divulgar sua identidade real. A instituição que dava suporte à identidade não
existe mais, ela foi substituída pelo suporte tecnológico, que não comporta
limites definidos entre verdadeiro e falso. A rigor, é quase impossível definir
o que é verdadeiro e o que é falso nas redes. Só podemos ter estimativas de
confiabilidade. Quanto mais dependemos da nossa própria rede para confirmar a
verdade dos fatos, mais o suporte tecnológico se apropria dos nossos critérios
de distinção da realidade, o que significa que a dependência avança para um novo
patamar: passamos a depender da rede virtual para conhecer o real. O que está ou
não conectado na rede vai nos dizer o que supostamente está conectado ou não na
vida real, e viemos a nos encontrar numa crise epistemológica, isto é, uma crise
na origem do conhecimento e na definição da verdade.
A crise partiu das relações de trabalho, criando a necessidade de uma gestão da
empregabilidade, e alcançou outros aspectos da vida social, gerando uma
necessidade de gestão da própria identidade, que se confunde com a gestão da
imagem. O indivíduo cria seu próprio perfil com base na auto-imagem que tem de
si mesmo, e chama isso de ‘eu’. Se todos nós temos imagens distorcidas de nós
mesmos, produzidas pelo próprio ambiente social, nossos perfis justificam essas
imagens e as fortalecem, aprofundando a distorção. O usuário é aquilo que ele
faz de si mesmo, e sem recorrer a bases tradicionais, ele acaba seguindo os
fluxos oferecidos pela cultura global. Ele pode escolher por diversas
configurações, mas essa diferença no fundo é irrelevante, porque todas estão
seguindo uma mesma regra básica: você precisa subir de nível. O indivíduo
nascido e criado nas redes está centrado em suas próprias realizações e
habilidades, valoriza a flexibilidade e a facilidade de conexão em redes
transitórias. A flexibilidade implica em aceitar riscos cada vez maiores, uma
vez que você não pode contar com o apoio de uma instituição fundada em
princípios sólidos, mas está por sua própria conta num jogo de vida ou morte.
Você precisa cumprir as expectativas de consumo do mundo global ou será
descartado.
Mas essas expectativas não são impostas por leis ou coerções. Elas podem ser
justificadas por discursos como: “seja você mesmo” e “permaneça jovem para
sempre”. Elas são imperativos silenciosos que mal são percebidos enquanto se
está concentrado no ato de jogar. Provavelmente será preciso perder quase tudo
para perceber que a estratégia de simplesmente tentar ser quem você realmente é
não dá certo. É nesse momento em que o sujeito se cansa de “ser bonzinho”, e
adere a um ethos global como se este fosse o grande salvador de sua
possibilidade de sobrevivência social. Não deve ser difícil coletar narrativas
de pessoas que viveram por muito tempo de um modo mais autêntico, e então
desistiram de tudo por um pouco de reconhecimento, status, ou afeto. Elas podem
justificar isso da forma como quiserem, mas uma análise social pode revelar que
tudo isso não passa de um método de controle social extremamente eficiente,
porque joga com os sentimentos mais profundos das pessoas, incluindo sua
auto-estima.
3. Engenharia da obsessão
A globalização divide as pessoas, porque seguindo seus imperativos, elas se
tornam competidoras por um espaço na lista de melhores pontuações globais ou
locais. É preciso ser o melhor de todos os tempos, mas se isso não for possível,
pelo menos o destaque do mês, do dia, ou do instante. Adolescentes classificam
outras pessoas com base nesse critério de uma forma tão natural que é quase
automático. Mas isso é cultural, e elas só aprenderam tão rapidamente porque nós
as ensinamos muito bem, pelos exemplos e pela ideologia pressuposta em cada um
dos nossos produtos culturais.
A nova geração parece nascer sabendo lidar com tecnologia porque a pressão para
se adequar a ela é crescente. Nós não sentimos porque para nós ela foi crescendo
lentamente, tivemos tempo de nos acostumar com cada coisa nova. Mas para as
novas gerações a rapidez da mudança é perceptível no seu tempo de vida. Esses
indivíduos precisam se adaptar rapidamente às tecnologias complexas, sob a pena
de ficarem invisibilizados. Não podemos pensar que essa geração simplesmente
goste de computadores por viver cercados por eles, ou porque computadores são
simplesmente atraentes. Se os computadores não tivessem adquirido o significado
que adquiriam para nossa cultura, poderiam ter permanecido como invenções
desinteressantes para a maioria das pessoas. Os primeiros interessados em
computadores eram pessoas individualistas, e teriam permanecido à margem da
sociedade, se não fosse pelo desenvolvimento do processo de individualização. É
a pressão da dependência tecnológica que nos força a aprender a nos comunicar
por meio de máquinas e nos inserir em redes o mais rápido possível. As crianças
se adaptam a esse mundo antes de terem capacidade para julgar se isto é certo ou
errado. Isso leva a dependência para um nível existencial. Nós nos tornamos
existencialmente dependentes do suporte tecnológico às redes.
Não podemos fazer idéia dos resultados disso, mas algumas visões do futuro podem
fazer mais sentido que outras. As ficções científicas representam as crianças
nascidas na rede tecnológica como seres evoluídos, que possuem um entendimento
superior. Este é um mito que indica o significado quase transcendente da
tecnologia nessa sociedade. Ao mesmo tempo em que as crianças se conformam com a
tecnologia de um modo cada vez mais rápido, elas também se conformam com um
sistema de crenças claramente adaptado aos imperativos da globalização. E elas o
fazem pelo mesmo motivo: por uma pressão que rege a distinção entre aqueles que
valem alguma coisa e aqueles que não valem nada. Um dos critérios distintivos é
a autonomia. Ao contrário do que se possa pensar, autonomia é uma exigência
social. Se um dia a submissão foi uma qualidade valorizada pela sociedade,
dificilmente poderíamos afirmar o mesmo hoje. Por mais que o espectro repressivo
ainda ronde nosso mundo, o furor anti-repressivo procura vestígios dessa falida
instituição para ter onde jogar a culpa de todos os problemas, e trabalha duro
para limpar o mundo de todos os vestígios de autoridade. Este espírito agora é
indispensável tanto na educação formal quanto na informal. Tanto na escola
quanto no cinema e nos jogos eletrônicos, o mesmo discurso básico está presente:
“Seja você mesmo”, “Seja livre”, “Viva a própria vida”, “Escolha seu próprio
caminho”, “Seja senhor do seu destino”. Isto seria impensável a alguns séculos
atrás, e soaria revolucionário a algumas décadas, mas hoje se trata apenas de um
clichê.
4. Autônomos autômatos
É a própria busca por autonomia que faz bilhões de pessoas decidirem “por si
sós” fazerem exatamente a mesma coisa, ou mais especificamente, consumir o mesmo
produto, que promete liberdade. Mais do que promete, ele garante um substituto
para a liberdade que foi tirada de todos, e causa uma sensação de abstinência em
todos que não possuem aquele determinado produto, material ou não. Uma pessoa
que se nega a consumir se verá rapidamente jogada à margem da sociedade, tal
qual aquele que não tem condições de consumir[4]. Logo, não é uma opção, mas uma
imposição. Os sujeitos que buscam por autonomia se tornam objetos de um processo
social por meio dessa mesma busca. Mas estão tão engajados com esse discurso que
o aplicam até mesmo para rejeitar qualquer forma de crítica a ele. Qualquer um
que não reproduz o discurso será visto como um inimigo da autonomia, ou seja,
como um opressor. Opressores são aqueles que, em qualquer momento, te impedem de
fazer o que você quer. Para essa mentalidade, a linha que separa os opressores e
os defensores dos valores humanos se tornou muito tênue. O resultado é que não
fica nenhum obstáculo entre o indivíduo e o mecanismo doutrinador invisível e
pluralizado da cultura global.
Se houvesse uma frase que pudesse resumir a ação desse mecanismo seria: “Existem
muitas formas de ser civilizado. Invente uma”. Contanto que se compre o produto
cultural que a globalização está vendendo, você é livre para inventar qualquer
utilidade para isso. Isso é chamado de criatividade. Mas o paradoxo da
criatividade é que não deixa de haver muita criatividade num povo que faz apenas
diversas variações da mesma coisa. A criatividade pode expandir a experiência em
torno de um único tema, mas a diversidade quantitativa não significa
necessariamente diversidade qualitativa. Ao que parece, nós vivemos numa cultura
do remix[5], onde todos compreendem que “não há nada novo sob o sol” e o plágio
passa a ser criativo, uma vez que nossa imaginação está alimentada por refluxos
e rearranjos, onde a ordem das coisas se altera independente do conteúdo ou do
significado.
Nós temos apresentado diversas variações da intolerância à autoridade. Esta
intolerância tem sido um produto bastante procurado no mercado. Qualquer um que
preste atenção pode fazer uma lista infindável de exemplos na música, na
literatura e no cinema. A exceção à regra é ver um personagem que ouve uma ordem
vinda de uma autoridade legítima, e a acata, sem ser considerado um imbecil ou
acabar se dando mal. Parece que se fosse essa a regra, não sobraria nenhuma
história digna de ser contada. Mas o fato é que nem sequer há reconhecimento de
qualquer forma de autoridade. As próprias figuras de autoridade precisam
relativizar sua posição para merecer algum respeito. O discurso mais propagado
pela cultura global hoje é que não há relações estáveis e válidas por si mesmas.
Isto significa que não há instituições. As duas coisas estão intimamente
ligadas. Sem instituições não é possível sustentar relações duráveis. Você não
pode manter uma coisa em pé por muito tempo sem um ponto fixo. O fato é que
ninguém quer manter as coisas de pé, identificando isso como um estado estático.
O que queremos é ver as coisas fluindo. Elas devem fluir e se tornar o que quer
que venham a se tornar, porque a única coisa que deve ser mantida é o próprio
fluxo. O erro é que saber ficar de pé não é o mesmo que ficar parado. Para andar
é preciso saber ficar de pé.
A instabilidade pode ser facilmente naturalizada por meio da propagação de
certas concepções de mundo. Mas a intolerância à permanência, assim como a
intolerância à autoridade, está mais relacionada a uma necessidade de
reconhecimento pessoal num mundo que preza essas características do que à
valorização da liberdade. O modo de trabalho que surgiu na sociedade organizada
em redes é produto de uma ética voltada à competência individual, que exige um
tipo de autonomia[6]. Isto é mais visível precisamente nas profissões
diretamente relacionadas à tecnologia. Os criadores de tecnologia são também os
primeiros a usar essa tecnologia em suas vidas, e os primeiros a sofrer os
efeitos dessa tecnologia. O computador pessoal começou como um projeto pessoal,
e desde o início a rede de computadores estava relacionada a uma visão de mundo
que dava poder aos indivíduos, conectando-os de forma autônoma. Competência
pessoal é o único critério que poderia ter restado. Ele não significa somente
que um indivíduo deve ser recompensado de acordo com sua competência, mas que
esta competência depende unicamente da facilidade com que o indivíduo se adapta
a um meio em constante mutação, e não da sua capacidade de distinguir qual é o
caminho correto e se manter firme nele. O conhecimento solidamente estabelecido
é dispensável e talvez até prejudicial, uma vez que a verdadeira questão é a
rapidez para desenvolver novas habilidades, pois o mundo é instável e impõe
dificuldades imprevisíveis. O que você aprendeu ontem talvez não tenha nenhum
valor de mercado hoje, independente de ser verdade ou não. Ser dinâmico e
flexível significa provar que você é capaz de acompanhar o fluxo imprevisível do
mercado, o que a rigor é impossível, e se torna mais importante projetar uma
imagem de confiabilidade.
5. Produtividade aparente
No mercado de bolsas de valores, as ações não são valorizadas pelo que elas
realmente valem. Elas são valorizadas pelo que elas parecem valer num dado
momento. Isso é determinado pelo grau de confiabilidade, que pode variar em
segundos, e que depende quase que unicamente de discursos, verdadeiros ou
falsos, espalhados pela rede de informações. O valor de uma pessoa varia de
acordo com regras semelhantes, tornando-a um tipo de investimento. Não apenas
isso, mas a inconstância dos relacionamentos indica que o valor de um amigo ou
de um cônjuge pode variar de acordo com essas mesmas regras. As relações só
puderam se tornar plenamente mercadorias quando a rede social se tornou parte da
cultura, por meio do avanço tecnológico. Este é o tamanho do dano das redes de
computadores, por mais que gostemos delas. Elas não somente aceleraram um
processo que estava ocorrendo há milhares de anos, como representam uma
estratégia perfeita para realizar o estágio final da conversão das relações
humanas em mercadorias. Falando de um modo um pouco mais especulativo, é difícil
acreditar que não tenham sido concebidas justamente com esse propósito.
Para Weber, a ética do trabalho valorizou a racionalização do tempo em vista da
eficácia produtiva. Agora, a imagem do trabalhador é mais um produto que exige
tempo para ser construído. É mais um trabalho não remunerado que é exigido para
se obter uma remuneração. Logo, o tempo não está necessariamente ajustado à
atividade produtiva, mas a um modo de produção que por vezes exige um trabalho
sem qualquer efetividade produtiva, apenas porque a concorrência por uma vaga
aumentou. O consumo pode tomar uma parte maior do nosso tempo agora, o que evita
o excesso de procura por emprego e disfarça a crescente taxa de desemprego.
Quando não estamos consumindo, estamos criando condições para consumir, ainda
que isso não seja exatamente produtivo, pois a produção se tornou eficaz demais.
Culpar a tecnologia por roubar nosso emprego é o de menos, o verdadeiro problema
é que a tecnologia é apenas a consequência do esvaziamento de possibilidades de
permanência dentro de um modo de vida natural, da desfuncionalização progressiva
do homem enquanto ser natural. Nós inventamos novas tecnologias primariamente
para evitar o colapso da civilização, e consequentemente elas “facilitam” a vida
civiliza, mas somente de modo temporário e relativo.
O trabalhador é seduzido pela idéia de ser autônomo. Mas ser autônomo significa
dedicar-se completamente ao seu próprio trabalho como produção de si mesmo. Um
momento ocioso pode significar mais do que um prejuízo financeiro. Se o
empregado era vigiado pelo chefe que cobrava produtividade, essa produtividade
aparente não determina necessariamente seu salário no final do mês. Mas se você
é autônomo, seu chefe não pode tem um momento de distração, porque você é seu
próprio chefe, seu prejuízo é garantido, e o sistema economiza o salário que
seria pago ao chefe. O que parecia uma solução de uma neurose produziu outra
neurose pior ainda: o perfeccionismo e o vício em trabalho. Isso fica mais claro
quando vemos a dificuldade de trabalhadores autônomos de separar seu tempo de
trabalho do seu tempo livre. Isso inclui empresários que adquiriram grande
parcela de autonomia nas suas decisões. Ao contrário de uma empresa do século
passado, uma empresa atual é antes de tudo uma marca. Ela não pode fechar por um
tempo e depois voltar exatamente onde estava. O ranking está correndo, e os
jogadores estão se aprimorando e o jogo está mudando de regras constantemente.
O tempo livre precisa ser trocado por tempo dedicado à filosofia pragmática do
trabalho, ainda que a atividade em questão seja improdutiva. Neste tempo
improdutivo do trabalho as empresas exigem um investimento emocional. Por
exemplo, a filosofia da empresa deve preencher todo o tempo livre do
funcionário, como uma filosofia de vida que visa o auto-aprimoramento. É difícil
dizer se este investimento emocional é exigido porque realmente aumenta a
produtividade, ou apenas porque esta se tornou uma exigência de uma sociedade
que valoriza a aparência. É importante dizer que a questão não é se uma empresa
com uma imagem melhor realmente gera mais lucro, mas que a exigência de uma
imagem atraente é criada pela própria ética do trabalho, e apenas por isso afeta
o lucro. Ou seja, há menos procura pelas empresas com imagens inferiores. Se a
aparência não fosse exigida pela cultura, mas somente a produtividade real, as
coisas poderiam ser diferentes. Essa cultura não surge do nada, mas antes é
criada pelos próprios agentes produtivos. Quando estes difundem uma ética da
produção, também difundem uma ética do consumo. Quanto maior a precariedade da
produção e menor a qualidade do que é produzido, maior a exigência de boa
aparência[7].
6. O imperativo da flexibilidade
A ética do trabalho ou ainda a filosofia do trabalho como um todo, abrangendo
todos os seus pressupostos, invade o espaço de todas as outras visões de mundo.
Ela transforma tudo que não se volta para o trabalho em “perda de tempo”,
incluindo o tempo dedicado à manutenção de laços afetivos. Pode ser verdade que
casamentos aceleram o consumo, mas são as paixões repentinas, os relacionamentos
transitórios, os divórcios e as traições que mais aumentam o consumo, e não um
casamento estável. É uma ilusão pensar que essa cultura defende a instituição do
casamento. A cultura global se utiliza de um discurso machista ou feminista de
acordo com a conveniência. Ela não defende os casamentos duráveis, mas as festas
de casamento, que são eventos sociais que geram consumo. Não há vantagem nenhuma
em defender o casamento enquanto instituição para uma cultura globalizada
interessada em acelerar o consumo. Quanto mais o matrimônio deixa de ser
necessário para o acúmulo de patrimônio, menos valor o casamento tem para esta
cultura.
As instituições são apropriadas e reformuladas para se encaixarem na lógica do
mercado. Do mesmo modo que a flexibilização das relações é vantajosa para essa
cultura, a flexibilização das identidades também é. Não é que as roupas indicam
a personalidade do indivíduo que as veste, mas que usar uma única combinação de
roupas por muito tempo diz mais sobre o indivíduo do que o tipo de roupa sendo
usada. A exigência não é que você use o mesmo uniforme pelo resto da vida, mas
precisamente que você varie de acordo com o tempo. Se você tentar vestir sempre
a mesma roupa, poderá ter dificuldades para socializar. E isso diz mais sobre
nossa cultura do que o tipo de roupa que está moda.
A flexibilização do tempo acaba nos levando a uma flexibilização da identidade.
Se nós nos definimos pela nossa ocupação, quando não conseguimos definir
exatamente qual é nossa ocupação, nós temos dificuldades para definir quem
somos. Um trabalhador pode desprezar o significado de seu trabalho para a
sociedade, e prezar somente o modo como seu poder aquisitivo pode possibilitar
um status enquanto consumidor. Mas ele não pode construir uma identidade própria
se a única coisa que ele se importa em fazer é qualquer coisa que possa dar
dinheiro. Ele sentirá uma necessidade muito grande de encontrar algo
satisfatório em que gastar o tempo e o dinheiro. Até o Tio Patinhas dava uma
utilidade ao dinheiro acumulado, pois sentia um enorme prazer em nadar nele. A
identidade se relaciona com a ocupação profissional. Trata-se de algo bem maior
do que o resultado de um teste psicotécnico, de um teste de personalidade ou de
um teste vocacional. O que você faz afeta quem você é, mas nós não podemos ser
apenas isso. A ética do trabalho substituiu todas as outras éticas, e a
instituição do trabalho relativizou todas as outras instituições. De que outra
fonte nós poderíamos tirar a matéria-prima necessária para construir uma
identidade, senão da única fonte de sentido que sobreviveu ao processo de
globalização?
A flexibilização determina que o indivíduo seja agora encarregado de administrar
os riscos e entrar no mercado por conta própria, como se ele mesmo fosse mais
uma marca que precisa ser vendida e que precisa ser desejada num mundo de
desejos desconexos e consumidores imprevisíveis. Estando dependente do acaso, a
moralidade perde seu sentido. Ela só poderia fazer sentido num mundo onde fazer
algo em determinada situação pode ser considerado certo ou errado. Agora, a
situação é complexa demais para que possamos calcular com precisão se uma medida
é correta ou não. Pode ser e pode não ser. Depende da sua rede, e sua rede pode
estar mentindo ou não, você tem apenas uma estimativa, e um único erro pode ser
fatal. Inevitavelmente, se quiser prosperar nessa sociedade, precisará repassar
os prejuízos a outros, e concentrar para si o máximo de benefícios. Tal qual
numa pirâmide de dinheiro, o truque é nunca ficar por último. O último sempre
paga a conta. Mas em pirâmides de pirâmides, você pode estar no topo de uma e na
base de outra ao mesmo tempo. A coisa se torna bem mais complexa, e a única
garantia é já ter bastante capital inicial. Mesmo assim não é uma garantia
infalível. Viver pelo risco é nunca saber o que vai acontecer no futuro. Isso é
excitante quando estamos numa simulação, mas na vida real pode se tornar
gradualmente estressante.
7. Cooperando com o capitalismo
Mesmo quando falamos de trabalho em equipe, isso não é muito diferente do ato de
jogar em times. Em ambos, não se trata de coordenar relações humanas, mas
relações simuladas que visam produtividade. O comprometimento de um jogador com
seu parceiro é sujeito ao comprometimento de todos os jogadores com a vitória,
ou fidelidade ao time. Se um dos jogadores não está certo de que jogar sequer
faz sentido, se fica em dúvida de que a competição, mesmo com o resultado
positivo para o time, pode ser benéfica, ele se torna um inimigo. Quando se
trata de uma atividade lúdica sem consequências reais, não há grande
importância, porque tudo permanece num lugar à parte, inventado temporariamente,
como um sonho. Mas quando se trata da vida real, o problema é real. Quase
sempre, os jogadores recalcitrantes da vida real estão inseguros quanto ao
sentido da vida. O que se faz é convencer, animar e motivar o sujeito a
simplesmente continuar jogando, a amar pelo menos algum aspecto do jogo, ainda
que o jogo não faça muito sentido como um todo. Ao invés de diferenciar o jogo
da vida real, o discurso motivacional trabalha para confundir uma coisa com a
outra o máximo possível, na esperança que a emoção da aventura supere a intuição
de que há alguma coisa intrinsecamente errado com este modo de vida. Este
questionamento deve ser descartado como puro e simples pessimismo.
Nas relações simuladas do trabalho e da rede social não se interage com pessoas
de carne e osso, mas com perfis ou personagens. A ética do trabalho se torna
menos dependente da autoridade na medida em que esta começa a comprometer o
fluxo do sistema. A organização dinâmica do trabalho permite que o poder possa
flutuar de mãos em mãos com rapidez, quando quer que isso possa gerar maior
lucratividade. Enquanto o investimento da autoridade legítima é produto da
experiência formada e herdada lenta e gradualmente, o poder que uma pessoa
exerce numa rede depende meramente de uma conveniência transitória. O tempo de
experiência perde seu significado, pois as situações podem variar rápido demais,
e o que passa a valer é a habilidade de adaptabilidade: a facilidade de se
conformar e tomar a forma do receptáculo, tal como um líquido.
Quando exigimos reconhecimento pelo nosso trabalho estamos de certa forma
exigindo que nos seja dado crédito por algo que fizemos. Mas o valor do que
fazemos não está mais relacionado nem ao tempo que gastamos fazendo nem ao custo
do produto que produzimos, mas somente ao valor atribuído ao produto pelo
mercado que oscila por causa de variáveis primariamente subjetivas. Logo, a
liberdade de consumir é também uma escravidão a um modo de produção gerido pelo
risco, em que devemos matar ou morrer. De um modo extremamente insidioso, a
cultura global conseguiu nos vender uma liberdade que aprisiona, fazendo cada
aspecto da nossa humanidade depender cada vez mais do modo de produção. Esta
dependência crescente, articulada por meio de um conjunto de dispositivos de
auto-regulação, dos quais nós mesmos fazemos parte, é uma patologia transformada
em norma. Uma patologia que só pode ser curada parando-se de alimentar aquilo
que dá suporte à vida civilizada. A cura provavelmente exige uma escolha ainda
mais drástica do que a morte, que é a escolha de abandonar um vício que se
tornou mais importante do que a vida, e pelo qual nós faríamos qualquer coisa,
incluindo matar e morrer.
8. Networking compulsório
A exigência de que o trabalhador “teça sua própria rede” e “se movimente bem
nela”, ou seja, garanta sua visibilidade, é um aspecto da dependência de redes
sociais. Com ou sem o suporte de máquinas, o próprio conceito de networking é
dependente de uma mentalidade tecnológica, segundo a qual agentes autônomos se
interligam formando um único sistema integrado. A importância de um componente
deixa de estar relacionada à sua função e passa a depender do número de
componentes com que este interliga. O conceito de processamento inteligente
torna o sistema menos dependente de uma unidade de processamento central, e faz
do processamento uma atividade emergente e distribuída, colocando o foco não
sobre a capacidade de processamento seriado, mas sim a capacidade de
processamento paralelo, o que por sua vez aumenta a quantidade de conflitos
internos. Chamamos essa organização de “orgânica” quando ela se torna complexa o
suficiente para simular o movimento errático de uma colméia, por exemplo, e
ainda assim manter a ordem de uma teia de aranha.
A substituição do conceito de “relação” pelo conceito de “link” demonstra a
absorção do significado estático pelo conceito de dinamismo. Quando falamos de
autonomia nos “recursos humanos”, não estamos de priorizar os fins, e não os
meios. Cada vez mais, não importa como você trabalha, mas o que você faz: sua
produtividade real ou aparente é o verdadeiro determinante. Os humanos são
recursos que devem ser gerenciados de modo “sofisticado”, e não estável[8]. O
imperativo da globalização é transferir o máximo de poder aos indivíduos, mas
somente o poder de reproduzir de modo autônomo os produtos da sociedade
complexa. Ela é caracterizada por contradições entre produtividade e
não-produtividade, gerando autonomia dependente. É a autonomia de gerenciar a
prisão, mas não de sair dela.
Enquanto isso, a solidão é transformada em mero sentimento cada vez mais cedo na
vida de um indivíduo. Ao conquistar recompensas virtuais num jogo eletrônico, a
criança nem sempre se satisfaz com uma comemoração privativa. Ela sente a
necessidade de socializar sua vitória com pessoas ao seu redor, e ser
reconhecida por isso. Uma criança não fica sozinha diante de uma tela porque
quer ficar sozinha. Ela fica porque quer, em parte, obter experiências dignas de
serem compartilhadas. Elas são forçadas à solidão por causa do significado que é
transmitido pelo reforço positivo dos jogos: “você é um vencedor”, embora
existam obviamente outros fatores. Mas este é um fator ao qual deveríamos
prestar atenção: nós escolhemos realizar atividades lúdicas que não são
necessariamente atrativas em si mesmas, e que exigem um esforço equivalente ao
do trabalho, mas que se tornam atrativas porque possibilitam algum
reconhecimento. E o mesmo pode ser dito do trabalho: nós procuramos trabalhos
que oferecem algum prazer lúdico, ou nos sujeitamos aos que possibilitam
reconhecimento e poder de consumo. A distinção entre trabalho e liberdade pode
estar desaparecendo numa síntese destrutiva, graças à tecnologia. Mas é uma
questão de tempo até que a escravidão voluntária à tecnologia deixe de ser
excitante e se torne apenas estressante.
[1] Para Huizinga e os principais teóricos que escreveram sobre as atividades
lúdicas enquanto fenômenos sociais, o jogo é uma atividade separada da vida
real. O espaço do jogo formaria um “círculo mágico” onde há regras distintas das
regras do cotidiano e as ações não tem consequência para a vida real.
[2] ARG, Alternative Reality Game, é um tipo de encenação interativa que usa os
meios de comunicação para envolver as pessoas num jogo social no estilo de uma
“caça ao tesouro”. É geralmente usado como estratégia publicitária. Seus
pressupostos quebram com as definições clássicas de jogo.
[3] Teóricos dos jogos dizem que o ato de trapacear também está submetido a
certas regras, e que essas regras fazem parte das regras ocultas do jogo.
[4] A sensação é que uma pessoa que não tem Orkut, por exemplo, está excluída de
uma parte importante da vida social brasileira.
[5] Um bom documentário em inglês sobre isso: http://www.everythingisaremix.info
[6] Um exemplo de como o discurso da autonomia é usado nas empresas: “A gestão
empresarial pode ser exercida de duas maneiras: pelos meios, ensinando o
profissional como fazer; e pelos fins, informando-o sobre o que deve ser feito e
negociando. A diferença entre os dois modos de gerenciar aparece no desempenho
da equipe. Quando o gestor foca os meios, e não os fins, cria profissionais
autômatos e sem iniciativa. Por isso, ele deve assumir uma postura educativa e
conscientizar cada um da importância do seu papel. Assim, formará uma equipe
capaz de refletir sobre o próprio trabalho, desenvolvendo nos profissionais o
espírito empreendedor. As empresas precisam de profissionais autônomos, nunca de
autômatos”.http://www.intero.com.br/blogdaagilis/blog/?p=116
[7] Vamos supor que eu invés de gastar dinheiro com propaganda numa concorrência
de imagens, as empresas gastassem somente com qualidade, e deixassem as pessoas
se responsabilizarem em procurar e divulgar os melhores produtos. O que
aconteceria? É provável que jamais saibamos, porque nenhuma empresa de
publicidade vai deixar isso acontecer. r s e deixassem as pessoas se
responsabilizar em procurar a divudesinteressantes
[8] “As novas tecnologias de informação e comunicação foram também decisivas na
reestruturação do mundo do trabalho e da produção, configurando o que chamamos
de pós-fordismo e que se caracteriza por uma valorização maior das formas
sofisticadas de capital (tecnologia, investimento e, principalmente, recursos
humanos) sobre as formas estáveis (terra e matérias-primas). Resultado da
automação, da robótica e da microeletrônica inseridas no processo de produção,
temos as mudanças que possibilitaram a internacionalização da produção com
estratégias de longo alcance (conhecidas como "flexibilização do trabalho") que
repercutem diretamente no exercício da autonomia.” - Globalização e Autonomia:
limites e possibilidades, Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira.http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/globoautonomia.html
--
Site pessoal: http://goo.gl/uETbg
