DEBATE ABERTO
A Serra o que é de Serra: nada
Flávio Aguiar, na
Carta Maior
Na mídia européia aumentou o
número de referências a que Dilma Roussef pode ganhar no primeiro
turno. De Portugal à Alemanha, do Reino Unido à França, comenta-se a
possibilidade.
Às vezes isso desagrada. Para
comentaristas conservadores, Dilma é uma “estatista” convicta, mais do
que Lula. Isso é uma dor de cabeça. O governo Lula tirou o Brasil da
crise financeira rapidamente e com pouco dano porque está fazendo o
contrário do que os economistas e governos conservadores – sejam
social-democratas ou democrata-cristãos – estão pregando e fazendo.
Para montar o fundo de reserva
para proteger o euro – e antes, ainda, para impedir que a bancarrota
da Grécia arrastasse consigo os bancos alemães e franceses credores, o
que faria a Europa inteira virar um Titanic e bater no iceberg de suas
insolvências nacionais – tiveram de recorrer ao FMI. Mais: às receitas
do FMI. A Europa virou uma gigantesca Argentina do século passado.
E passaram a foice nos direitos
de trabalhadores, pensionistas, aposentados, usuários de programas
sociais, etc., com danos que serão sentidos nas próximas gerações. Por
exemplo: a Itália acabou com um programa chamado “professores de rua”,
que colocava educadores nas ruas, no sul do país, para convencer
jovens a sair da tentação da máfia e do narcotráfico e voltar para a
escola. O dano vai ser enorme.
A Alemanha cortou a renda que o
governo dava às mães solteiras. O dano também vai ser enorme.
E ainda caíram de martelo em cima
dos salários, partcularmente do setor público. O dano também vai ser
enorme.
Mas saudando números, economistas
e comentaristas conservadores deliram porque a Alemanha “dá mostras de
recuperação e puxa a economia européia para cima”. Claro, graças a
exportações bilionárias para a China. O poder aquisitivo interno está
evaporado. Aposta-se em que as exportações farão cair o nível de
desemprego. Quosque tandem? Até quando? Aí cai-se na reza para que a
China continue crescendo, e apostando também no seu mercado interno.
Mas acontece que no meio do
caminho tem o Brasil, tem o Brasil no meio do caminho. Adotando uma
saída do tipo da Malásia, que no século passado, quando da crise da
dívida externa no Sudeste Asiático fez tudo o contrário do que o FMI
queria, e saiu-se bem, ao contrário da Indonésia, da Tailândia, até da
Coréia do Sul, o Brasil “investiu em investimentos”, continuou
melhorando salários, subsidiou a linha branca, etc., vocês aí devem
conhecer as soluções melhor do que eu, aqui de longe, apesar da
internet. O que fazer com o Brasil? Essa é uma pergunta alarmante no
cenário internacional para as ortodoxias econômicas.
A esperança era José Serra. Uma
virada que reintegrasse o Brasil na ortodoxia mais roxa que pano de
quaresma e meia de cardeal. Não está dando certo. Por quê?
Porque Serra nada tem a oferecer.
Os comentários da mídia a que aludi acima são expressivos. Porque aí
vem a emenda, que para o arraial serrista é pior do que o soneto. A
mesma mídia que cautelosamente aponta a possibilidade da vitória de
Dilma, assinala que só um fato novo poderia virar o quadro, nem que
fosse para jogar tudo para o segundo turno. Mas diz – como no caso da
Economist – esse fato novo só pode ser algo como uma denúncia que vire
a mesa. Ou seja, de Serra, na verdade, nada se espera. Como dizia o
Barão de Itararé: ali donde nada se espera, é que não sai nada mesmo.
O Guardian chegou a dizer que o programa de TV de Dilma arrasa com o
de Serra.
Serra perdeu a voz, a vez, está
mal no santinho, na paróquia, etc. Só não perdeu o grito. Dilma disse
muito bem que eleição se ganha no voto, não em pesquisa. Mas há quem
queira ganhar no grito, já que não tem outro recurso. E com ajuda da
gritalhada da mídia conservadora brasileira, claro.
Acontece que, no caso das quebras
de sigilo, o tribunal eleitoral não aceitou a denúncia contra Dilma,
por falta de provas. Mais cedo ou mais tarde, isso vai prevalecer
sobre a gritaria, as conjeturas, as hipóteses, as contra-hipóteses, as
teses abstrusas, esse mar de lama em que se tenta sufocar a eleição
brasileira e o debate das propostas. Porque um lado – o de Serra – não
tem propostas que possa apresentar, só as que não pode apresentar, que
envolvem a demolição dos direitos conquistados e exercidos pelo povo
brasileiro nos últimos anos.
Querem nos transformar numa nova Grécia.
Esconjuro. A Serra o que é de Serra: nada.