Eleições 2010: Crítica da
Razão Indefesa
Washington Araújo, no
Observatório da Imprensa
Certa vez em uma entrevista, um
diretor polonês disse que, por um longo tempo, a mídia em seu país
havia dedicado sua primeira página todos os dias para falar sobre o
governo sem nunca reportar que os cidadãos estavam fugindo em massa
para Londres em busca de um futuro melhor. O diretor disse que um dia
recebeu a mensagem dando conta que 1 milhão de poloneses havia
emigrado de seu país. E, finalmente, foi com essa imagem da massa de
emigrantes que os jornais formaram suas primeiras páginas.
Há que se perguntar como é que
tão grande número de poloneses saiu do país sem que ao menos isso
fosse noticiado? A verdade é que os jornais tinham, àquela altura, se
distanciado profundamente da sociedade que buscavam retratar.
Colocaram tanto foco nas minúcias, nos detalhes que ajudavam a
perceber a realidade mais ao seu gosto, que perderam qualquer contato
com a imagem da floresta. Isto me faz refletir sobre o momento atual
por que atravessam nossos grandes conglomerados midiáticos. Estes
cerram fileiras em torno dos grãos.
Todo esforço, todo grama de
energia, todo milésimo de segundo é dedicado integralmente a
potencializar o que sentem ser um retrato fiel da sociedade brasileira
na atualidade. Hoje, imensas trilhas foram abertas nas florestas da
informação, mas a grande imprensa não consegue nem mesmo ver as
árvores. Para ela, uma ou duas folhas de uma árvore assumem
importância tal que podem obliterar o conjunto todo.
Excesso de bordões
Neste contexto penso que para
chegarmos sãos e salvos ao dia 3 de outubro haveremos ainda que passar
por manchetes diárias estampadas em nossa grande imprensa (Folha de
S.Paulo, Estado de S.Paulo, O Globo) dando conta da violação de
sigilos fiscais de adicionais 21 pessoas intimamente relacionadas com
a família do candidato José Serra. Após a quebra do sigilo da filha e
do genro, do primo de sua mulher, ainda saberemos que foram ao meio
fio os sigilos da sogra, da sobrinha, de dois tios, de uma comadre de
sua filha e de sua afilhada. É o jornalismo conta-gotas, como se a
sociedade estivesse recebendo ao longo das próximas semanas doses
diárias do homeopático Beladona.
O meio mais eficaz para banalizar
um crime é tratá-lo como banal. Simples assim. E é isto o que a
imprensa paulista, aquela que se autointitula de abrangência nacional,
vem fazendo desde os últimos dias e deverá pautar sua equipe de
“opinionistas” e colaboradores: a cada dia o escândalo requentado
busca render imagens “na medida” para atender interesses eleitorais na
propaganda veiculada na tevê.
Ora, jornalismo geralmente
envolve a arte e o ofício de refletir a realidade com os dados
verificados, a fim de dar aos indivíduos o instrumental necessário
para formar uma opinião construída sobre aquilo que acontece e como
isso lhe pode afetar. É a esse jornalismo que nos dedicamos, e onde
alguns atuam com mais ou com menos assertividade, com mais ou com
menos credibilidade para, ao fim, poder visualizar essa foto do
momento atual.
No caso dos sigilos há excesso
nos enfoques: o culpado não pode ser outro que não o PT, a candidata
governista. Excesso nos métodos: os jornais publicam a mesma manchete
com leves alterações. Excesso no espaço: primeira página, editorial,
caderno eleições. Excesso na contundência: a candidatura do governo
precisa ser cassada pelo TSE. Excesso na repetição de bordões e frases
feitas: terrorismo de Estado, crime fiscal hediondo, crime de lesa
pátria, ilegalidade abominável. Excesso de opinião: todos os que têm a
opinião impressa falam a mesma língua, usam os mesmos recursos
lingüísticos e se estivessem em bancada de telejornal da noite, fariam
as mesmas caras e bocas.
Libelo diários
Não por coincidência é um caso
abordado por meio de muitos adjetivos e pouquíssimos substantivos. É
que falta a verificação de dados: que informações sigilosas vieram à
luz do dia? Falta clareza sobre os autores reais porque são
privilegiados autores imaginários que se confundem, não por artes do
destino, com a candidata majoritariamente mais bem avaliada em um mix
de pesquisas de opinião.
De repente, nós encontramos um
conjunto de casos em que as publicações fazem marcha batida para a
direita, uma direção que até bem pouco parecia completamente
escondida, mas que agora parece estar em seu habitat natural. Ao
emitir esta percepção quero salientar que não estou falando de
ideologia, de uma luta leal entre os argumentos concorrentes e
diferentes pontos de vista.
Refiro-me a jornalistas e a
políticos que consideram a busca da verdade nada mais que uma quimera.
Profissionais que chegam primeiro às conclusões para depois construir
os marcos indispensáveis à formulação de uma tese. Profissionais que
difundem suas opiniões na forma de notícias sem atentar para o ritmo
que a lógica impôs há séculos no discurso racional e que deve tornar
sólida a democracia. Não posso deixar de ver que tal técnica de
ignorar a lógica e atacar a verdade pode conduzir o Brasil a um
caminho de tristíssima memória, que remonta aos primeiros anos de
1960, que conduz ao acirramento dos ânimos onde a luta pelo poder tem
como insígnia a compreensão equivocada que os fins sempre estarão a
serviço dos meios.
Quando a propagação de um
jornalismo partidarizado se une à política convencional, temos o
perigo real. Uma fábrica de manipulação quando começa a funcionar
durante duas horas ao dia é prenúncio de que logo estará funcionando
24 horas ao dia, em três turnos ininterruptos. E não há nada pior do
que estes libelos diários a atiçar os piores instintos da sociedade:
alguns partidos sem líderes capazes de se manter frios e que se
coloquem em defesa da razão. À ausência de tal liderança calma e clara
em nossos principais partidos em tempos de crise, aliado ainda à
guerra contra a verdade e a lógica, podem apenas nos trazer maus
presságio