Podemos definir crença como conteúdo mental, e não aquilo que eu expresso no meu discurso, seja ele subjetivo (falando comigo mesmo) ou intersubjetivo (falando com o outro). É a ação que expressa um conteúdo mental. Não há ação sem conteúdo mental, e não há conteúdo mental que não se expresse ou que se expresse como se fosse outro. Você pode acreditar sinceramente que ama alguém, mas ao analisar suas próprias ações criticamente, percebe que o que você chamou de amor não é bem amor, mas outro tipo de conteúdo. Alguém pode dizer que te ama, mas é nas ações daquela pessoa que você descobre se isso é verdadeiro ou não. Por isso é complicado quando alguém diz: “eu te amo, mas não sei demonstrar”. Se o que é demonstrado é outra coisa, é porque há outro conteúdo sendo expresso. Uma crença não é uma proposição na nossa cabeça, que podemos repetir o dia inteiro, sem que ela se expresse na ação (ou na inação). A crença se alimenta da decisão. Se ela não efetiva nenhum comportamento, ela acaba morrendo. É algo que você “queria” acreditar, mas não acredita. Quando um sujeito diz: “Valorizo muito isso, mas não consigo fazer”, ele está de fato revelando a ausência daquela crença, e a presença de outra, que gera outro tipo de ação no lugar daquela. Podemos dizer que há conflito entre crenças. Aquelas que nós alimentamos são as que permanecem vivas. Aquelas que não alimentamos se enfraquecem e morrem. Dizer que você acredita numa crença que não está viva no seu sistema de crenças é uma falsidade. Este é o sentido de “reconhecer a árvore pelos frutos”.
Mas eu preciso avisar uma coisa: cuidado para não confundir isso com uma defesa ao “determinismo memético”. Para quem não conhece a teoria dos memes, o determinismo memético é parecido com o determinismo genético. Memes seriam unidades de ideias que formam fenômenos psicológicos que nascem, crescem, se alimentam, se reproduzem e morrem. Eles se espalham para outras mentes por meio do discurso, evoluindo por seleção natural, de acordo com as condições do ambiente, que nos caso dos memes, seria a cultura. O Felipe pode falar melhor disso, ele está estudando ecologia de mídia, que é parecido com ecologia mental. Diferente do determinismo memético, eu não acho que somos meros veículos de memes, nem que nossas decisões sejam absolutamente determinadas pelos memes que carregamos. Eu acredito que o discernimento e a ponderação podem gerar uma decisão capaz de quebrar condicionamentos e lógicas de submissão (vícios), revitalizando crenças vitais e enfraquecendo crenças letais.
Pensando bem, os movimentos sociais que reivindicam direitos, partindo ou não para o ativismo político, não são realmente assimilados pela civilização. Eles não precisam ser assimilados, porque eles não ameaçam a civilização. Esses movimentos nascem das próprias demandas da modernização, são civilizados desde seus fundamentos. Não questionam os pressupostos civilizados, são componentes da civilização. O que a civilização assimila é aquilo que é estranho a ela. Essas demandas talvez um dia tenham sido estranhas à civilização, quando ela tinha uma estrutura mais rígida. Mas hoje em dia ela tem uma estrutura em rede, flexível e plural. Esses movimentos se opõem a um modo particular de arranjo civilizado: um estado de coisas. Mas a civilização atual não tem nenhuma necessidade de preservar ou manter um estado de coisas. Agora que ela assimilou a fluidez e se tornou um processo em constante mutação, ela é difícil de atacar. A compulsão pela mudança agora significa progresso. O processo de acúmulo e expansão agora depende da instabilidade. Todos esses movimentos são apenas expressões de aspectos da civilização competindo entre si.
O que acontece com esses movimentos políticos não é exatamente uma assimilação por parte da civilização, mas uma assimilação por parte de um aspecto da civilização. Como o capitalismo, por exemplo. Movimentos que nascem com ideais não-capitalistas são assimilados e se tornam segmentos de mercado. Alguns deles realmente não perdem a capacidade de criticar o capitalismo, porém continuam defendendo uma versão civilizada, somente não-capitalista. Marx observou muito bem que o capitalismo precisa se reinventar constantemente. Muita gente não entendeu o que eu quis dizer quando afirmei que a própria civilização é um monstro assimilador, e não somente o capitalismo. A civilização não é capitalista, ela não se resume a isso. Assim, o fato de que um movimento continue criticando o capitalismo ou o statu quo ou o sistema vigente, não quer dizer que ele critique a civilização. Muitas vezes, o que os movimentos fazem é preparar terreno para um novo modo de organização e eliminar os resquícios dos modos de organização anteriores que continuam presentes até hoje.
Em ponto algum esses movimentos se contrastam com a civilização. Você diz que eles propõem questões importantes. Qual a importância dessas questões? Por que seria importante que todos sejam tratados igualmente? Por que seria importante ter o direito de ir e vir? Quais as crenças que sustentam esse valor? São crenças necessariamente incompatíveis com a civilização? Não vejo incompatibilidade alguma no discurso ou na ação desses movimentos. Ao contrário, a tendência atual da civilização é defender os direitos de minorias pela inclusão no mercado de consumo. Por que privar minorias que se mostram cada dia mais engajadas com a causa civilizada? Por que privar as pessoas da mobilidade urbana, se com isso elas podem colaborar ainda mais com o desenvolvimento social? As pessoas precisam se deslocar para estudar, trabalhar e consumir. Que vantagem haveria, para a civilização, em dificultar esse processo?
Se assistir Instinto novamente, preste atenção no método de controle da prisão. Ao não conceder direitos iguais, a sociedade mobiliza as pessoas na luta pelos direitos. Onde está o caos? É tudo mais do que previsível. Isso é reconhecimento de padrão, não é simplesmente ver um padrão onde não existe. Porque a civilização teria qualquer interesse em reprimir ou discriminar minorias? Isso não melhora a eficiência da produção, e os próprios movimentos argumentam que a sociedade só tem a ganhar com as mudanças propostas. Impedir essa “evolução” da sociedade não passa de barbárie, de atraso, de selvageria, enfim, de uma falta de civilidade, segundo os próprios movimentos. É um falso conflito. Ela cria um sistema desigual esperando que isso provoque descontentamento, de modo que as pessoas se revoltem umas contra as outras. Dê vantagens para alguns presos e os outros se ocuparão lutando para obter os mesmos direitos, e assim não vão se concentrar em escapar da prisão. Isso é apenas um dos sistemas de controle possíveis. Talvez seja possível criar um em que a desigualdade não seja mais um problema, como o marxismo ou talvez o anarquismo. Isso não muda nada em relação à civilização. A civilização não depende nem sequer de urbanidade.
Quando os movimentos dizem “somos seres humanos, nos respeite”, eles de fato estão dizendo “somos civilizados, nos respeite”. Eles querem ser respeitados pela importância que possuem na sociedade. Quem não tem função social se auto-exclui e continua sendo excluído por todos. As pessoas querem ter os mesmos direitos concedidos aos membros privilegiados da sociedade somente porque sentem que são tão ou mais úteis a essa sociedade do que eles, e que merecem algum respeito em troca. Não é por causa do valor intrínseco, ou então nenhuma negociação seria aceitável. Mas esses direitos são concedidos pela civilização por negociação. Isso não é exatamente o mesmo que pedir que esta cultura reconheça o seu direito? É exatamente o mesmo que pedir um aumento num trabalho desumano.
Então, para ser mais direto do que na minha outra frase, não há nenhuma luta política que eu conheça que se contraponha à civilização. Não vejo potencial para isso em nenhum desses movimentos. Ao contrário, todo potencial é rapidamente rejeitado ou transformado em questão de direito dentro da própria estrutura dos movimentos.