Hoje eu vi o cartaz de um filme chamado "Sexo sem compromisso", cujo slogan é "a amizade pode ter seus benefícios", e mostra um casal descontraído numa cena que sugere que acabaram de transar. E se hoje você pergunta como alguém consegue olhar para isso, ou pior ainda, produzir isso, e não se preocupar com as consequências, você será considerado um tradicionalista, um estraga-prazeres com uma "cabeça velha" que fica criticando o modo como os jovens vivem intensamente no presente, desapegados do "futuro incerto", vivendo um dia de cada vez. "Carpe Diem": as pessoas acham que esse conceito é libertador. Eles o usam para justificar a ausência de reflexão no futuro e evitar expor a distorção que há nessas crenças. É o medo da verdade. Quando você faz esse tipo de crítica, as pessoas automaticamente te julgam como alguém incapaz de vivenciar aquele tipo de prazer. Um frustrado, em outras palavras. Por isso, o indivíduo também impede a si mesmo de pensar mais profundamente nisso, porque não quer parecer assim diante dos outros. É um sistema automático de defesa das crenças distorcidas. Coerção social internalizada, ou domesticação. As pessoas criam estratégias para se manter na civilização assim como criam para se manter numa dieta muito restritiva. Mesmo que você tenha conhecimento experimental e tenha vivido essa experiência intensamente, as pessoas irão contestar a crítica dizendo que "é uma experiência", no sentido de que é algo típico da juventude, por isso uma coisa necessária, e ninguém pode culpar os jovens por desejar isso ou tentar impedi-los de vivenciar isso antes entrar na fase chata da vida, em que a responsabilidade e maturidade devem ser assumidas integralmente, e essas experiências não estarão disponíveis com facilidade. O que essas pessoas se esquecem é que tipo de cultura está estimulando esse comportamento e o prolongamento da imaturidade, de modo que hoje o sujeito pode alcançar os 60 anos e ainda ser um adolescente, e ninguém pode repreendê-lo por isso, porque ele é feliz assim. Onde ninguém mais tem autoridade sobre o prazer, o próprio prazer substitui a autoridade. E tem gente que ainda acha que vivemos numa sociedade repressiva. Essas pessoas pode estar na verdade combatendo a intuição de que tem alguma coisa errada nesse quadro. Intuição essa que é usada, por outro lado, para erguer regimes tirânicos e justificar políticas de controle social, por exemplo.


Alguém recentemente me disse que somos todos educados para criticar o sistema. Eu respondi que somos educados para fazer uma crítica equivocada e inofensiva, que apenas perpetua o fluxo auto-contraditório da civilização.


Eu creio que o sentido da frase "entender a evolução do mundo" é simplesmente "aceitar que as coisas estão mudando, e não há nada que possamos fazer senão nos adaptar a essas mudanças". Isso é civilização laissez-faire (deixai fazer, deixai ir, deixai passar). Seria interessante estudar a possível origem desse discurso da permissividade no desenvolvimento do discurso econômico e político do laissez-faire. Encontrei um texto (em inglês) que parece falar um pouco sobre isso, num site que fala de uma coisa chamada "panarquismo". Já ouviram esse termo?
http://www.panarchy.org/keynes/laissezfaire.1926.html


É importante lembrar que o capitalismo não é uma coisa só, ele se encontra dividido basicamente em duas vertentes: os que acreditam que o Estado tem um papel indispensável como regulador da economia, e os que acreditam que as leis de mercado funcionam de modo mais eficiente se forem reguladas somente pela livre concorrência. A primeira visão é geralmente associada ao liberalismo e ao keynesianismo, a segunda ao neoliberalismo e à Escola Austríaca. Cada uma delas também se sub-divide. Já havia um discurso laissez-faire antes do keynesianismo, ao qual este respondeu valorizando a intervenção do Estado, o que gerou reação de economistas como Milton Friedman, que foram para o extremo oposto, criticando pesadamente o keynesianismo, e se aproximando do "fundamentalismo de livre-mercado" e do anarco-capitalismo, gerando uma nova reação, que poderia ser chamada de "neo-keynesianismo", que critica a teoria da "mão invisível", e por aí vai. Percebem a dialética? Uma coisa vai cooperando com a outra para o avanço geral do capitalismo. Essa é a expressão mais clara do que eu falei no meu texto sobre o monstro assimilador. Um exemplo que demonstra claramente que esses são dois lados da mesma moeda é o fato de que em 1974, o teórico socialista defensor do "estado de bem-estar social", Gunnar Myrdal, dividiu o prêmio Nobel de ciências econômicas com seu maior rival, o teórico do laissez-faire, von Hayek, sendo que ambos diziam o exato oposto sobre a importância do Estado. O que estou dizendo não é especulação. Os pontos já são conhecidos, as pessoas só não estão ligando os pontos de modo apropriado.


Conheço uma pessoa que está no curso de economia, e eu perguntei sobre Marx para ele. Aparentemente, a ideia de que a teoria marxista de fato contribuiu substancialmente com a "evolução" do capitalismo de modo a evitar seu colapso não lhe pareceu absurda. Na medida em que podemos criar nossa própria dialética do "eterno retorno", podemos evitar o suposto movimento dialético "teleológico" da história em direção ao comunismo.


O que pode fazer as pessoas refletirem sobre o futuro? Gosto de uma resposta de São Francisco de Assis a um problema parecido: "Pregue sempre o evangelho, e se for necessário, use palavras". O evangelho, para ele, era um modo de vida oposto ao modo de vida de acúmulo e expansão, era um modo de vida que preza a simplicidade, a comunhão com a natureza e o amor ao próximo. É verdade que esse movimento também foi assimilado pelo monstro, e talvez nem tenha partido do ponto correto, mas sua ideia geral é uma boa sugestão. Fora do contexto cristão eu não posso oferecer muito em termos de resposta, pois eu entraria na questão de como eu compreendo a vida, que está necessariamente ligada à fé cristã. Num contexto mais geral, o máximo que eu posso dizer é o seguinte: "Viva de acordo com suas crenças, e se for necessário, repense suas crenças pessoais e coletivas". A desvantagem é que isso implica no valor da verdade objetiva, que a maioria das pessoas não aceita.


Espero que isso que eu disse tenha ajudado a clarear algumas coisas importantes.


Abraços


Janos