Por Manuel
Castells,
La Vanguardia | Tradução
Eduardo Graeff
Como documentei no meu
livro Comunicação e Poder, o poder baseia-se no
controle da comunicação. A reação histérica dos Estados
Unidos e outros governos contra o Wikileaks confirma
isso. Entramos numa nova fase da comunicação política.
Não tanto porque se revelem segredos ou fofocas, mas
porque eles se espalham por um canal que escapa aos
aparatos de poder.
O vazamento de
confidências é a fonte do jornalismo de investigação com
que sonha qualquer meio de comunicação em busca de
furos. Desde Bob Woodward e sua “Garganta Profunda” no
Washington Post até as campanhas de Pedro J. [Ramírez,
fundador do diário El Mundo] na política espanhola,
a difusão da informação supostamente secreta é prática
usual protegida pela liberdade de imprensa.
A diferença é que os
meios de comunicação estão inscritos num contexto
empresarial e político suscetível a pressões quando as
informações resultam comprometedoras. Daí que a
discussão acadêmica sobre se a comunicação pela internet
é um meio de comunicação tem consequências práticas.
Porque se o é (algo já estabelecido na investigação)
está protegida pelo princípio constitucional da
liberdade de expressão, e os veículos e jornalistas
deveriam defender o Wikileaks porque um dia pode ser a
vez deles.
Ocorre que ninguém
questiona a autenticidade dos documentos vazados. De
fato, destacados periódicos do planeta publicaram e
comentaram esses documentos para regozijo e educação dos
cidadãos que recebem um cursinho intensivo sobre as
misérias da política nos corredores do poder (com
efeito, por que [o primeiro ministro espanhol José
Luis] Zapatero está tão preocupado?).
O problema, diz-se, é
a revelação de comunicações secretas que poderiam
dificultar as relações entre Estados (o perigo para
vidas humanas é baboseira). Porém, este risco seria
maior que o de ocultar a verdade sobre as guerras, dos
cidadãos que pagam e sofrem por elas?
Em qualquer hipótese,
ninguém duvida que, se essas informações chegassem aos
meios de comunicação, estes também desejariam
publicá-las (se poderiam é outra questão). E mais: uma
vez difundidas na rede, publicam-nas. O que está em
questão é o controle dos governos sobre seus próprios
vazamentos e sobre sua difusão por meios alternativos
que escapam à censura direta ou indireta. Um tema tão
fundamental, que motivou uma reação sem precedentes nos
Estados Unidos, com apelos ao assassinato de Assange por
líderes republicanos e até colunistas do Washington
Post e uma grita mundial generalizada (de Chávez
até Berlusconi), com a honrosa exceção de Lula e a
significativa reação de [Vladimir] Putin.
A esta cruzada para
matar o mensageiro uniu-se a justiça sueca numa história
rocambolesca onde o pseudofeminismo alia-se à repressão
geopolítica. Dá-se que as namoradas suecas de Julian
Assange (alguém investiga sua conexão com serviços de
inteligência?) denunciaram-no porque em pleno ato
(consentido) a camisinha rasgou, ela diz que não queria
continuar e Assange não pôde ou não quis interromper o
coito e isso, segundo a lei sueca, poderia ser violação.
O que não impediu que a violada organizasse no dia
seguinte em sua casa uma festa de despedida para Assange.
A partir de tamanho
ato de terrorismo sexual, a Interpol emite uma euroordem
de prisão com nível de alerta máximo, desmentindo que
seja por pressão dos Estados Unidos. E quando Assange se
entrega em Londres, o juiz não aceita fiança, talvez
para enviá-lo aos Estados Unidos via Suécia. [A
fiança foi concedida na terça-feira,14/12, mas
a Suécia entrou com pedido de apelação.]
Com o mensageiro atrás
das grades, falta mandar para lá a mensagem. E aí
começam pressões que levam a PayPal, Visa, MasterCard e
o banco suíço Post Finance a fechar as contas do
Wikileaks; e a Amazon a remover o domínio de seus
servidores (o que não impede a empresa de oferecer, por
7 dólares, o conjunto completo de e-mails vazados).
A contraofensiva
internauta não se fez esperar. Os ataques de serviços de
inteligência contra a rede do Wikileaks fracassaram
porque proliferaram as redes-espelho, ou seja, cópias
imediatas das redes existentes, mas com outro endereço.
A esta altura há mais de mil em funcionamento (se quiser
ver a lista google wikileaks.mirror).
Em represália à
tentativa de silenciar o Wikileaks, Anonymous, uma
popular rede hacker, coordenou ataques contra as
empresas e instituições que o fizeram. Milhares de
voluntários se juntaram à festa, utilizando o Facebook e
Twitter, embora com crescentes restrições. Os amigos do
Wikileaks no Facebook superaram o milhão e aumentam ao
ritmo de uma pessoa por segundo. Wikileaks distribuiu a
100 mil usuários um documento encriptado com segredos
supostamente mais danosos para os poderosos, cuja chave
se espalharia caso a perseguição se intensifique.
Não está em jogo a
segurança dos Estados (nada do revelado põe em perigo a
paz mundial nem era ignorado nos círculos de poder). O
que se debate é o direito do cidadão de saber o que
fazem e pensam seus governantes. E a liberdade de
informação nas novas condições da era da internet. Como
dizia Hillary Clinton em sua declaração de janeiro de
2010: “A internet é a infraestrutura icônica da nossa
era… Como acontecia com as ditaduras do passado, há
governos que se voltam contra os que pensam de forma
independente usando esses instrumentos”. Agora ela
aplica a si mesma essa reflexão?
Porque a questão
fundamental é que os governos podem espionar, legal ou
ilegalmente, os seus cidadãos. Mas os cidadãos não têm
direito à informação sobre aqueles que atuam em seu
nome, a não ser na versão censurada que os governos
constroem. Neste grande debate, vai se revelar o
verdadeiro comportamento de empresas de internet que se
autoproclamam plataformas de livre comunicação e dos
meios de comunicação tradicionais, tão zelosos de sua
própria liberdade.
A ciberguerra começou.
Não uma ciberguerra entre Estados, como se esperava, mas
entre os Estados e a sociedade civil internauta. Nunca
mais os governos poderão estar seguros de manter seus
cidadãos na ignorância de suas manobras. Porque enquanto
houver pessoas dispostas a fazer leaks e uma
internet povoada por wikis surgirão novas
gerações de wikileaks.