Saiu na
Folha (*) de sábado, na pág. B2, uma
“crítica” ao quarto volume da coleção “Arquivos
Celso Furtado”, do Centro Internacional Celso
Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, com
a íntegra do Plano Trienal.
Foi o plano que o grande presidente João Goulart
encomendou a Furtado, em 1962.
O Plano era rigoroso, para conter a inflação,
com um ambicioso programa de reformas que só
seriam, em parte, realizadas no Governo do Nunca
Dantes.
Furtado queria a reforma agrária.
(Num programa “Roda Viva” – quando ainda não era
o “Roda Morta” -, Evandro Lins e Silva, que
também foi ministro de Jango, disse que se fosse
levado a apontar uma única causa para queda de
Goulart diria que foi a reforma agrária.)
(É o que confirma Maria da Conceição Tavares, na
mesma “crítica”.)
Furtado queria o aumento real do salário – como
conseguiu o Nunca Dantes.
Enfatizar a Educação – idem.
Libertar o Nordeste do subdesenvolvimento –
idem, o Nunca Dantes.
E renegociar a dívida externa (o Nunca Dantes
emprestou ao FMI).
Leia trechos dos objetivos do Plano:
3. Criar condições para que os frutos do
desenvolvimento se distribuam de maneira cada
vez mais ampla pela população, cujos salários
reais deverão crescer com taxa idêntica à do
aumento da produtividade do conjunto da
economia, demais dos ajustamentos decorrentes da
elevação do custo de vida;
4. Intensificar substancialmente a ação do
Governo no campo educacional, da pesquisa
científica e tecnológica, e da saúde pública, a
fim de assegurar uma rápida melhoria do homem
como fato de desenvolvimento e de permitir o
acesso de uma parte crescente da população aos
frutos do progresso cultural;
5. Orientar adequadamente o levantamento dos
recursos naturais e a localização da atividade
econômica, visando a desenvolver as distintas
áreas do país e a reduzir as disparidades
regionais de níveis de vida, sem com isso
aumentar o custo social do desenvolvimento;
6. Eliminar progressivamente os entraves de
ordem institucional responsáveis pelo desgaste
de fatores de produção e pela lenta assimilação
de novas técnicas em determinados setores
produtivos. Dentre esses obstáculos de ordem
institucional, destaca-se a atual estrutura
agrária brasileira, cuja transformação deverá
ser promovida com eficiência e rapidez;
7. Encaminhar soluções visando a refinanciar
adequadamente a dívida externa, acumulada
principalmente no último decênio, a qual, não
sendo propriamente grande, pesa desmesuradamente
no balanço de pagamentos por ser quase toda a
curto e médio prazos. Também se tratará de
evitar agravação na posição de endividamento do
país no exterior, durante o próximo triênio;
O Plano foi o alicerce para Jango lançar as
Reformas de Base que provocaram a sua queda.
A “crítica” da Folha (*) observa que o
lançamento do Plano foi “utilizado como peça de
campanha política”, já que seis dias depois se
realizava o plebiscito que derrotou o
Parlamentarismo (velho sonho dos conservadores
brasileiros).
(Cerra, por exemplo, é um parlamentarismo
ortodoxo – quando está na oposição.)
Primeiro, que o plebiscito deu: Jango e o
presidencialismo 10 x 0 Parlamentarismo dos
militares, udenistas, tucanos e PiG (**).
Não foi o Plano que derrotou a quimera
conservadora.
A “crítica” também se inclina a observar que o
Plano foi “recessivo”.
O Plano não teve um ano de vida.
A esquerda o chamava de “ortodoxo”, a direita,
de comunista.
Em 1963, Furtado já estava de volta à
Superintendência da SUDENE.
(Ao saber da intervenção militar, Furtado
incorporou-se ao Governo de Miguel Arraes, em
Pernambuco, e foi cassado na primeira lista dos
militares de 1964.)
Quem jogou o Brasil numa recessão aguda foi a
dupla Campos-Bulhões, do primeiro Governo
militar.
Antes que se “releia” o Plano Trienal com olhos
de hoje e da perspectiva conservadora de hoje
convém estabelecer que Furtado é de um Brasil,
que, como dizia o contemporâneo (e liberal) José
Guilherme Merquior, se imaginava “um outro
Ocidente”.
Ou, nas próprias palavras de Furtado, lutou a
vida inteira para fugir à alienação “do tipo
ptolomaico, ou seja, a incapacidade para pensar
a própria posição em um sistema de forças.”
(Este ansioso blogueiro deve essas citações a
Juarez Guimarães, autor do ensaio “A trajetória
intelectual de Celso Furtado”, no livro “Celso
Furtado e o Brasil”, editora Fundação Perseu
Abramo, organizado por Maria da Conceição
Tavares, pag. 20.)
Pensar a sua própria posição em um sistema de
forças.
Sobre isso, caiu às mãos deste ansioso blogueiro
imperdível leitura: “When China Rules the World
– the end of the Western World and the birth of
a new global order”.
Quando a China mandar no pedaço – ou o fim do
Mundo Ocidental e o nascimento de uma nova ordem
global.
O autor é o inglês Martin Jacques, jornalista e
professor, que pretendeu “explicar como o
crescimento meteórico da China se estenderá
muito além do âmbito econômico, ao deslocar o
Ocidente e criar uma ordem global inteiramente
nova”.
No Capítulo V, “A Modernidade Contestada”, diz
Jacques:
“Por toda a primeira metade do Século XX, o
pequeno conjunto de países que tinha começado a
crescer no Século XIX continuou a dominar a
elite das nações industrializadas, sem aceitar
novos sócios no clube.
Foi como se o padrão do mundo pré-1914 se
tivesse congelado, e a porta de entrada se
trancasse aos que perderam a chance no século
anterior.
Nos anos 50, a escola da “teoria da dependência”
generalizou essa proposição - era impossível
agora um país quebrar o gelo e entrar para o
clube das nações avançadas.”

A “teoria da dependência” do Fernando
Henrique Cardoso, como se sabe, é o único
“corpo teórico” que os conservadores
brasileiros conseguiram produzir, desde
Vargas.
O Padim Pade Cerra, como se sabe, não
escreveu nada.
O Brasil e a China do Jacques desmoralizaram
o “teórico da dependência”.
Um mundo o separa de Furtado.
São dois Brasis – o do Furtado e o do FHC.
Antes que se tente desconstruir Furtado.
Paulo Henrique Amorim