Olá, membros e membranas deste grupo tão sério quanto amigo!

Já participei deste grupo em outras épocas, mais atribuladas
pessoalmente que agora, e cancelei minha participação porque aos
poucos eu fui perdendo para a velocidade da tecnologia, até a quase
completa exclusão virtual. A principio, afastar-se da tecnologia e de
empregos de escritório me pareceu ser a melhor alternativa para
descascar a civilidade obsoleta de minhas retinas e gestos. Aproximei
minha caminhada do mundo do povo, com suas simplicidades e verdades
não-verbais. Todavia sempre fui vista como forasteira por eles.
Deixar de participar de discussões salutares, como as que aqui se
desenrolam, empobreceu os insights que tinha da vida e da morte, ao
ponto da não conseguir mais nenhum respeito de intelectuais
acadêmicos. A superposição destas duas vivências opostas me levou a
perceber O como a educação vigente nos molda dentro de padrões, no
sentido mutilante mesmo. Pois agora não sei olhar o mundo sem signos
linguísticos, então nunca meu olhar será inocente o suficiente. E
percebi também que caráter não tem classe nem cor nem credo. Mas para
não se ter caráter é preciso ser um tanto besta. Não digo 'idiota';
digo 'besta'. e que ser besta é mais fácil no curto prazo de uma vida
humana.

Estive em depressão por alguns anos, esperando encontrar afeto humano
entre as idas ao supermercado. Ainda não tive tempo de ler nenhuma
discussão (o sistema da net não está permitindo), mas gostei de um
link, ou persona daqui, que está trazendo assuntos da vida na
floresta. Sim, muitos amigos que estão conseguindo a paz e o respeito
mutuo, tanto entre os indivíduos de nossa espécie, quanto com toda
forma de vida não-biônica a que se possa ter contato, abriram mão de
certos confortos e certezas e se bandearam para uma vida próxima a
natureza, com tecnologias ainda manufaturadas, baixo consumo de
energia elétrica, aliás, sem o uso da palavra 'consumo'.

Quando uma coisa se consome não traz resultado. Apenas resíduos. Não é
a toa toda essa erosão social. A vontade destes amigxs todos de quem
falo é viver na prosperidade, o oposto da economia. Pois a lógica da
natureza pode parecer cruel para quem imprescinde de conforto, mas
penso ser mais uma questão de respeito e vontade de se ativar.

Estou me aproximando de recicladores, pois acredito ser esta a
profissão do momento. Todavia, no momento não passo de uma dona-de-
casa um tanto alienada (pois nem tv eu assistia mais), buscando o que
acrescentar a um grupo de pessoas que sabe raciocinar com a intuição,
cujas ações tem mais tino que qqer análise relatorial no que diz
respeito a resultados. A barreira para estas pessoas que sabem se
organizar, a despeito dos preconceitos que vigoram sobre a
vulnerabilidade social, é abstrata, ops, burocrática. Talvez seja
muita pretensão, mas atuar como ponte entre as valências, para que
aconteça a fluição financeira, a confiança através do escambo, até que
não precisemos mais de capital (desculpe, mas não acredito mais em
anarquia proposital, vamos pensar em dinheiro?).

Portanto, estou buscando tudo que já está sendo feito ou já vingou no
campo da catação e reciclagem, para mostar a turminha com quem
convivo, a fim de encontrarmos algo que se ajuste para nós. Penso
sempre que o mundo social é baseado em premissas tão velhas que não
são mais compreendidos os motivos pelos quais foram compostas estas
premissas, e que estar próximo do zero monetário sempre nos ajuda a
avaliar o que é fato e o que é moralidade apenas. Associada esta
constatação com o fato de que a linguagem atuante (aquela que
aprendemos nas instituições, e que hoje não desprezo completamente por
contar a história da evolução de nossa caminhada rumo a lucidez na
proporção da espécie) ainda é necessária para se conseguir respaldo em
qualquer ação que possamos vir a tomar, venho por este grupo perguntar
o que vocês conhecem que está sendo feito em reciclagem, capacitação
de recicladores/catadores, indústrias que utilizam material reciclado,
que fabricam a partir de resíduos, etc. Estou atrás de saber sobre as
leis que amparam estes individuos humanos, e qual é efetivamente a
aplicação destas leis, e também como eles buscam amparo social e como
se fazem valer...


Sim, porque lidar com nossos resíduos é necessário para que as coisas
novamente se principiem.

Você gosta do cheiro de humano in natura? Você come lixo? E você
produz lixo? Pensar nessas coisas não precisa ser um exercício
desvairado e irresponsável. Claro, se usarmos um cabelo espetado, e
xingarmos pelas costas todo mundo que nos der esmola, teremos a
sensação de não-pertencimento social, mas estou falando do desafio de
se manter no mundo corrente e transmutá-lo.

Um grande e fraterno abraço a todos!

Junia Saedt