(Extraído do R7-
Blog do Kotschko)
Ao voltar de
Barretos (ver
post anterior), o meu correio eletrônico já estava
entupido de mensagens de amigos e leitores comentando e
me pedindo para comentar a reportagem da revista "Veja"
sobre as "atividades clandestinas" do ex-ministro José
Dirceu, um dos denunciados no processo do "mensalão",
que tramita no Supremo Tribunal Federal e ainda não tem
data para ser julgado.
Só agora, no começo
da tarde de segunda-feira, consegui ler a matéria. Em
resumo, como está escrito na capa, sob o título "O
Poderoso Chefão", ao lado de uma foto em que Dirceu
aparece de óculos escuros e sorridente, a revista faz
uma grave acusação:
"O ex-ministro José
Dirceu mantém um "gabinete" num hotel de Brasília, onde
despacha com graúdos da República e conspira contra o
governo da presidente Dilma".
Para justificar a
capa, a revista publica dez reproduções de um vídeo em
que, além de Dirceu, aparecem ministros, parlamentares e
um presidente de estatal entrando ou saindo do "bunker
instalado na área vip de um hotel cinco-estrelas de
Brasília, num andar onde o acesso é restrito a hóspedes
e pessoas autorizadas".
Nas oito páginas da
"reportagem" _ na verdade, um editorial da primeira à
última linha, com mais adjetivos do que substantivos _
não há uma única informação de terceiros que não seja
guardada pelo anonimato do "off" ou declaração dos
"acusados" de visitar o bunker de Dirceu confirmando a
tese da "Veja".
Fiel a uma prática
cada vez mais disseminada na grande mídia imprensa, a
tese da conspiração de Dirceu contra o Governo Dilma vem
antes da apuração, que é feita geralmente para confirmar
a manchete, ainda que os fatos narrados não a comprovem.
Para dar conta da
encomenda, o repórter se hospedeu num apartamento no
mesmo andar do ex-ministro. Alegando ter perdido a chave
do seu apartamento, pediu à camareira que abrisse o
quarto de Dirceu e acabou sendo por ela denunciado à
segurança do hotel Naoum Plaza, que registrou um boletim
de ocorrência no 5º Distrito Policial de Brasília, por
tentativa de invasão de domicílio.
Li e reli a matéria
duas vezes e não encontrei nenhuma referência à origem
das imagens publicadas como "prova do crime", o primeiro
dos mistérios suscitados pela publicação da matéria. O
leitor pode imaginar que as cenas foram captadas pelas
câmeras de segurança do hotel, mas neste caso surgem
outras perguntas:
* Se o próprio
hotel denunciou o repórter à polícia, segundo "O Globo"
de domingo, quem foi que lhe teria cedido estas imagens
sem autorização da direção do Naoum?
* Se foi o próprio
repórter quem instalou as câmeras, isto não é um crime
que lembra os métodos empregados pela Gestapo e pelo
império midiático dos Murdoch?
* As andanças pelo
hotel deste repórter, que se hospedou com o nome e
telefone celular verdadeiros, saiu sem fazer check-out e
voltou dando outro nome, para supostamente entregar ao
ex-ministro documentos da prefeitura de Varginha, são
procedimentos habituais do chamado "jornalismo
investigativo"?
As dúvidas se
tornam ainda mais intrigantes quando se lê o que vai
escrito na página 75 da revista:
"Foram 45 horas de
reuniões que sacramentaram a derrocada de Antonio
Palocci e durante as quais foi articulada uma frustrada
tentativa do grupo do ex-ministro de ocupar os espaços
que se abririam com a demissão. Articulação
minuciosamente monitorada pelo Palácio do Planalto, que
já havia captado sinais de uma conspiração de Dirceu e
de seu grupo para influir nos acontecimentos que
ocorriam naquela semana (6,7 e 8 de junho, segundo as
legendas das fotos) _ acontecimentos que, descobre-se
agora, contavam com a participação de pessoas do próprio
governo".
A afirmações
contidas neste trecho provocam outras perguntas.
* Como assim? Quem
do governo estava conspirado contra quem do governo?
* Por acaso a
revista insinua que foi o próprio governo quem capturou
as imagens e as entregou ao repórter da "Veja"?
* Por que a
reportagem/editoral só publica agora, no final de
agosto, fatos ocorridos e imagens registradas no começo
de junho, no momento em que o diretor de redação da
revista está de férias?
Só uma coisa posso
afirmar com certeza, depois de 47 anos de trabalho como
jornalista: matéria de tal gravidade não é publicada sem
o aval expresso dos donos da empresa ou dos acionistas
majoritários. Não é coisa de repórter trapalhão ou
editor descuidado.
Ao final da
matéria, a revista admite que "o jornalista esteve mesmo
no hotel, investigando, tentando descobrir que atração é
essa que um homem acusado de chefiar uma quadrilha de
vigaristas ainda exerce sobre tantas autoridades (...) E
conseguiu. Mas a máfia não perdoa".
Conseguiu? Há
controvérsias... No elenco de nomes apresentados pela
revista como frequentadores do "aparelho clandestino" de
Dirceu, no entanto, não encontrei nenhum personagem que
seja publicamente conhecido como inimigo do ex-ministro
Antonio Palocci.
O texto todo foi
construído a partir de ilações e suposições para
confirmar a tese _ não de informações concretas sobre o
que se discutiu nestes encontros e quais as
consequências efetivas para a queda de Palocci.
Não tenho
procuração para defender o ex-ministro José Dirceu, nem
ele precisa disso. Escrevo para defender a minha
profissão, tão aviltada ultimamente pela falta de ética
de veículos e profissionais dedicados ao vale-tudo de
verdadeiras gincanas para destruir reputações e
enfraquecer as instituições democráticas.
É um bom momento
para a sociedade brasileira debater o papel da nossa
imprensa _ uma imprensa que não admite qualquer limite
ou regra, e se coloca acima das demais instituições para
investigar, denunciar, acusar e julgar quem bem lhe
convier.
Diante de qualquer
questionamento sobre as responsabilidades de quem
controla os meios de comunicação, logo surgem seus
porta-vozes para denunciar ameaças à liberdade de
imprensa.
Calma, pessoal. De
vez em quando, convém lembrar que repórter não é Polícia
e a Imprensa não é Justiça, e também não deveria se
considerar inimputável como as crianças e os índios.
Vejam o que aconteceu com Murdoch, o ex-todo-poderoso
imperador. Numa democracia, ninguém pode tudo.
Censura e
autocensura
Até me surpreendeu
a manchete de hoje da "Folha", tratando de um assunto
pouco usual nos nossos grandes jornais:
"Banco infla calote
para sonegar, afirma Receita _ Autuações chegam a quase
R$ 200 milhões; instituições negam ilegalidade".
Ao ler a matéria
toda, outra surpresa: em nenhum momento, nem na primeira
página, nem no caderno Folhainvest, aparece o nome de
qualquer banco. Contaram o milagre sem falar do santo
(ou dos santos).
Dos 30 processos em
curso na delegacia especializada em instituições
financeiras de São Paulo, "pelo menos três poderão gerar
processos criminais". Fiquei curioso em saber quais são
os bancos investigados.
Como já escrevi
neste espaço outras vezes, o que ameaça o futuro da
nossa imprensa não é a censura do Estado, mas a
autocensura nas empresas, que gera, entre outros males,
o denuncismo seletivo.
Rodolfo
Fernandes
Neste final de
semana, perdi um grande amigo e, a imprensa brasileira,
um dos seus melhores profissionais: Rodolfo
Fernandes, jornalista de muito talento e,
principalmente, grande caráter, qualidades raras de se
encontrar hoje em dia na mesma pessoa.
Em seu lugar,
assumiu o cargo de diretor de redação de "O Globo" outro
velho amigo, Ascânio Seleme.
Vida que segue.