Bin
Laden está morto. Missão cumprida?
Antonio Luiz M. C. Costa
Escreveu uma internauta retuitada pelo cineasta
Michael Moore: “Depois de dez anos, duas
guerras, 919.967 mortes e 1,188 trilhão de
dólares, conseguimos matar uma pessoa”.
Objetivamente, é pouco mais que isso. Embora
(propositalmente?) anunciado no 66º aniversário
do anúncio da morte de Adolf Hitler, o
assassinato de Osama bin Laden não tem um
significado comparável. A Al-Qaeda não é uma
máquina de guerra convencional e centralizada à
beira do colapso, como era o exército nazista em
1º de maio de 1945. Talvez resulte mais próximo
do que foi o 1º de maio de 2003, quando Bush
júnior anunciou a “missão cumprida” no Iraque,
mas o problema mal estava começando.
Segundo os Estados Unidos, Bin Laden estava em
uma confortável construção de três andares,
cercada de muros de quatro a cinco metros ao
lado de um colégio de elite e a dois quarteirões
de uma delegacia de polícia na cidade turística
de Abbottabad, a 116 quilômetros ou duas horas
de estrada da capital, Islamabad (cerca de 55
quilômetros em linha reta). Em termos de Brasil,
seria como estar em uma mansão em um dos bairros
centrais de Campos do Jordão. Ou melhor, em
Resende, visto que o local também está a uma
breve caminhada de uma das principais academias
militares do Paquistão.
Sohab Athair, um usuário do Twitter que se
descreve como “um consultor de TI que deu um
tempo para a corrida de ratos e escondeu-se nas
montanhas com seu laptop”, cobriu a operação
desde o início, sem saber exatamente o que se
passava e a uns dois quilômetros do local:
“helicópteros pairando sobre Abbottabad a uma
hora da madrugada (é um evento raro)”. Ouviu
explosão, tiros e as poucas pessoas acordadas
àquela hora dizerem que pelo menos um dos
helicópteros não era paquistanês. Entendeu que
era uma situação complicada, mas pensou que era
a queda de um helicóptero, como foi inicialmente
divulgado na mídia paquistanesa. Compreendeu
cinco horas depois, quando Barack Obama foi à
tevê anunciar triunfalmente a morte do líder
terrorista. “Lá se foi a vizinhança”, escreveu,
melancolicamente.
O presidente dos EUA fez do anúncio um discurso
cuidadosamente balanceado e um espetáculo muito
bem montado. Como quem encarna um herói de
Hollywood, iniciou com um “eu planejei, comandei
e determinei a morte de Osama bin Laden” e
encerrou com “Vamos sempre defender a Justiça e
a Liberdade. Deus os abençoe e abençoe a
América”. Deu as costas para a câmera e caminhou
majestosamente pelo tapete vermelho até o fim do
corredor, como um caubói que sai de cena
cavalgando para o entardecer, enquanto aparecem
os créditos finais.
Bush júnior teve um momento equivalente ao
pousar um caça no porta-aviões Abraham Lincoln e
fazer seu discurso de vitória sobre Saddam
Hussein, com direito a tomadas igualmente
heroicas e hollywoodianas. Conseguiu enganar o
público o suficiente para ser reeleito em 2005,
mas sua popularidade desmoronou em seguida e
arrastou-se melancolicamente até o fim do
segundo mandato. Obama repetirá o mesmo roteiro?
De qualquer forma, a curto prazo e do ponto de
vista da política interna dos EUA, foi um golpe
de mestre. Logo depois de reduzir ao ridículo o
rival republicano Donald Trump e sua obsessão
com a certidão de nascimento do presidente,
Obama posa como o herói de guerra e hábil
comandante. Em 40 minutos, com um pelotão de
forças especiais da Marinha, atingiu o objetivo
que Bush júnior garantiu visar durante dois
mandatos, mobilizando para isso todo o aparato
militar e de inteligência dos EUA e envolvendo o
país em duas guerras inúteis e catastróficas
para sua economia e relações internacionais.
Yes, we can? Obama não pôde cumprir as promessas
de reformas sociais, ambientais e econômicas
pelas quais foi eleito, nem sequer fechar a
prisão de Guantánamo, mas ao menos cumpriu uma
promessa do governo anterior. Pode ser o
bastante para garantir sua reeleição, vista a
fraqueza das candidaturas republicanas, mas é
improvável que a aura da vitória se estenda
sobre o resto do Partido Democrata nas eleições
legislativas. Assim, o resultado será
provavelmente a continuação do impasse político
até 2016. A menos que o presidente consiga
capitalizar a façanha a ponto de mobilizar a
opinião pública em favor da política social e
econômica democrata e soterrar a demagogia do
Tea Party, o que até agora não se mostrou
disposto a fazer.
Do ponto de vista internacional e do campo de
batalha real, é pouco provável que a morte de
Bin Laden mude o jogo. Sua importância pessoal
sempre foi muito exagerada por uma mídia ansiosa
por vilões. Mesmo a Al-Qaeda é apenas um aspecto
do fundamentalismo islâmico, que é anterior a
essa organização em particular, é muito mais
amplo e não deixará de existir enquanto não
mudarem as condições que o tornaram influente
entre as massas muçulmanas humilhadas. A própria
forma como foi morto basta para demonstrar que o
problema é muito mais vasto. Bin Laden
certamente não teria vivido anos em um centro
urbano de alta classe média sem a cumplicidade
total das Forças Armadas e do serviço de
inteligência paquistaneses.
CLIQUE AQUI PARA "BINLADEN
E O PAQUISTÃO"