O Manifesto Comunista e o monstro assimilador , por Janos Biro

 


O capítulo primeiro do Manifesto Comunista começa com a seguinte frase: "A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classes". O resto do capítulo é uma leitura da história sob esse ponto de vista, tomando a luta de classes como aquilo que dá movimento à história. A história da humanidade, ou melhor, a história das sociedades humanas, seria a história do processo civilizatório, a história da expansão das sociedades civilizadas e do avanço da cultura civilizada sobre todas as outras e sobre si mesma. Logo, esta é a própria finalidade do processo histórico: atingir o grau máximo da civilização, tanto em extensão quanto em intensidade.
A história vista deste ponto de vista é um processo evolutivo que gera progresso político, no qual a era da dominação burguesa é um estágio transitório que não pode ser suprimido, somente superado. "Cada etapa da evolução percorrida pela burguesia era acompanhada de um progresso político correspondente". Quando o manifesto descreve o desenvolvimento da burguesia, está descrevendo parte do processo revolucionário da história, no qual a burguesia tem papel indispensável. "A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário". Ela está necessariamente incluída, é um estágio que simplesmente não poderia ser evitado. A ênfase recai sobre as mudanças necessárias que foram promovidas pela revolução burguesa: a superação do feudalismo e simplificação do conflito de classes, possibilitando a introdução do comunismo na história. A burguesia teria acabado com as relações patriarcais, afogado os fervores do êxtase religioso e do sentimentalismo pequeno-burguês, e deixado apenas o frio e calculista egoísmo humano. "Em uma palavra, em lugar da exploração velada por ilusões religiosas e políticas, a burguesia colocou uma exploração aberta, cínica, direta e brutal". A burguesia reduziu todas as relações a relações monetárias, e é isso que permitiu a crítica ao capital.
O que se pode concluir é que sem o processo civilizatório, sem a expansão da civilização, que envolve a invasão da América e todas as atrocidades que a civilização possibilitou graças ao seu expansionismo, seria impossível pensar em comunismo global: "Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos". Aqui se aceita esse processo como inevitável, partindo do determinismo histórico. O processo seria inexorável. A própria dialética da história, seu próprio movimento de superação de contradições, levaria à extinção de todas as contradições, e o comunismo seria o estágio final desse processo. Não há crítica ao próprio processo, pois esta é impedida pelo historicismo. O avanço civilizado deve ser aceito como avanço da própria história. A influência da filosofia de Hegel é visível nesse caso, e se trata de uma perspectiva que não consegue enxergar a história humana para além da história da civilização.
O trecho a seguir pode ser identificado com a ideia de monstro assimilador: “A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, a relações de produção e, com isso, todas as relações sociais”. Mas o trecho citado se refere a um aspecto da civilização que não é questionado em si mesmo, e só chega ao fim pela exaustão das possibilidades. A conservação das relações sociais deve ser superada porque representa uma condição de existência dos estágios anteriores da história. A falta de segurança e estabilidade distingue a época burguesa de todas as precedentes. Este seria um processo esgotável que possibilita a superação do capitalismo. Logo, se a burguesia encontrasse uma maneira de tornar inesgotável esse processo, ela poderia institucionalizar a instabilidade.
No século XX surge o avivamento e o pentecostalismo. Um retorno do fervor religioso no seio da sociedade mais capitalista do mundo. Ao mesmo tempo, outros aspectos que a burguesia deveria expulsar da história retornam em novas versões. Mais tarde, surge o neo-pentecostalismo e a teologia da prosperidade. Isto representa a união de dois opostos numa síntese sem superação, de modo que a ideologia burguesa não tem mais o poder de derrubar o fervor religioso, mas uma coisa passa a alimentar a outra. Parece que o capitalismo encontrou uma maneira de fazer o que era considerado impossível no século XIX.
Acreditava-se que o mesmo processo político que gerou a burguesia gerará a derrubada violenta de toda a ordem social existente, levando ao comunismo e ao fim das classes, que leva ao fim do conflito de classes e da própria história. Esta era uma conclusão supostamente previsível e empiricamente verificável, pois essa seria a finalidade do processo. Logo, se o manifesto está falando de assimilação nesse trecho, parte do pressuposto que é a própria assimilação que dará cabo ao monstro. O fim da conservação inalterada do antigo modo de produção é um estágio necessário nesse sentido. Ele é descrito como o modo como as coisas são, e aceito como se representasse o funcionamento natural do mundo. O manifesto está, portanto, a favor da corrente da civilização, e não contra. Em outras palavras, está se posicionando a favor da assimilação. Não há uma defesa dos valores tradicionais quando se diz: "tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas". Esta é uma condição necessária do materialismo que está pressuposto no manifesto: tudo se reduz às relações sociais.
A burguesia reduz as relações sociais ao egoísmo humano, tal como os freudo-marxistas e evolucionistas fazem. Esta parte da ideologia burguesa é o ponto fixo da alavanca comunista. Mas se as coisas começam a caminhar numa direção diferente... Aldous Huxley acreditava que a exigência de eficiência levaria o capitalismo a se reinventar de modo a não se encaixar mais nas expectativas revolucionárias comunistas. O capitalismo continuaria sendo insustentável, mas poderia ser ecológico e prezar o prazer ao invés da dor. Graças aos avisos de perigo, o capitalista não precisa ficar parado vendo sua própria derrota acontecer do modo previsto. Se isso se torna previsível, ele pode tentar se antecipar. Ele não precisa ficar insistindo numa exploração aberta, cínica, direta e brutal se sabe que isso vai custar caro demais. Ele pode retornar a uma exploração velada, mas usando de meios mais criativos. Ele pode negar em si mesmo o que afirmaria dialeticamente o comunismo. Não há nada que os opositores do capitalismo possam fazer a esse respeito, senão procurar focos de opressão e lutar contra eles. Nesse sentido, os movimentos sociais são úteis ao capitalismo, mantendo pequenas vitórias para os proletários, forçando o capitalismo a um domínio mais indireto. Seria a vitória do falso socialismo. A direita tem muito a dever ao freio da vertente política de esquerda. Sozinha, esta teria acelerado além da conta e capotado na primeira esquina.
Quando eu falo de monstro assimilador, estou falando de algo bem diferente. Estou falando de um processo contingente que pode ser revertido, ou então chegaremos exatamente onde estamos indo: para a finalidade do processo civilizatório, para o objetivo do monstro. Nesse ponto, algumas pessoas poderão afirmar que não podemos reverter a roda da história. Se isso for verdade, então tudo é em vão. Quando não houver mais possibilidade de expansão, a burguesia não vai precisar dominar mais nada, porque já dominará tudo completamente: corpo, mente e espírito. Quando não houver mais possibilidade de perpetuação do processo de superação, não haverá mais possibilidade de vida humana na terra. Este é o próprio objetivo do monstro assimilador. Ele é auto-destrutivo, mas não vai se destruir sem levar tudo consigo. Se ele terminar de assimilar todas as coisas, significa que tudo estará contaminado e condenado à morte. Nesse ponto, a burguesia não precisará mais propagar sua ideologia, porque não haverá nenhuma outra possibilidade. Quando o território geográfico se fecha, se abre o território subjetivo, e passamos à exploração da subjetividade. Criamos novos paradigmas, novas linguagens, novas formas de ver o mundo, novas "realidades" a serem exploradas, com possibilidades infinitas de expansão, ainda que não haja nada realmente novo sob o Sol. A expansão da consciência, a conquista do espaço, a conquista do ciberespaço, a conquista do espaço interior do homem. É assim que o monstro se mantém para além das expectativas. Ele sobrevive para devorar o que todo mundo pensava que não poderia ser devorado. Qual a solução deste problema, dentro da perspectiva comunista? Para ela, provavelmente este não é um problema, é um falso problema e não precisa ser resolvido. A crença é que o capitalismo tem um limite, e ele chegará a esse limite, basta continuar lutando contra ele.
Espero pelo menos ter deixado bem claro porque minha perspectiva se distingue disso. Eu sou leitor de Marx, sua crítica ao capitalismo é insuperável, mas creio que seu determinismo o impediu olhar para o processo civilizatório como um resultado possível da escolha humana, e não um produto necessário do avanço das condições materiais. A civilização é um processo anômalo na história humana. É um desvio e não uma regra, ainda que seja um desvio muito antigo que se tornou global. O ser humano passou uma parte de sua história sem traços de civilização ou conflito de classes. Logo, este é um processo que pode ser criticado em si mesmo, revertido ou abandonado, tal como os Maias fizeram ao abandonar suas cidades. Os autores do manifesto comunista não levaram isso em consideração, porque seria impensável a partir dos seus pressupostos e sua visão de mundo. Eu parto da contingencialidade do processo histórico da civilização, dentro do contexto humano, como premissa básica. A civilização é produto de uma falha moral humana, e por isso foi uma escolha. É nesse fundamento que ergo meus argumentos.
A verdade dessa premissa me parece suficientemente demonstrada pela análise arqueológica e paleontológica. No século XX descobrimos que a espécie humana existe a muito mais tempo do que imaginávamos. Sem este conhecimento, teóricos cometeram o erro de acreditar que o homem nasceu criando civilização, ou tendendo a criar civilização. Se este não for o caso, a concepção de história pressuposta no Manifesto Comunista e nos primeiros filósofos políticos deve ser questionada. Mas se eu negar que a história da civilização é uma parte contingente da história humana, então não resta argumento contra a civilização.

Notas:
"A modernidade da qual estamos saindo era negadora; a supermodernidade é integradora. Não mais a destruição do passado, e sim sua reintegração, sua reformulação no quadro das lógicas modernas do mercado, do consumo e da individualidade. Quando até o não moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicional, quando a cultura do passado não é mais obstáculo à modernização individualista e mercantil, surge uma fase nova da modernidade." (LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Trad. Mário Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004. p. 57-58). A substituição da negação pela reintegração não permite a plena superação, mas gera um eterno retorno do mesmo, subvertendo qualquer finalidade teleológica que a história poderia ter.

“A destruição do mundo natural não é resultado do capitalismo global, da industrialização, da ‘civilização ocidental’ ou de quaisquer falhas em instituições humanas. É a consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace.” (GRAY, John N. Cachorros de palha: Reflexões sobre humanos e outros animais. Record, 2005, p. 23). Gray parte da mesma perspectiva criticada aqui, mas substitui a economia pela biologia. Afirma que a destruição é a finalidade do processo biológico humano, todo o resto é subjacente.



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