Greg Graffin,
vocalista da banda Bad
Religion, é formado em
Antropologia e seu doutorado
foi sobre Darwin e a
religião. Ele leciona
Ciências da Vida na UCLA.
Outro punk com doutorado é
Mao, vocalista da banda
Garotos Podres, que se
doutorou em história com uma
tese sobre a Revolução
Cubana e anarquia.
Outro dia eu estava pensando
na letra dessa música:
Bad Religion - Sorrow
(legendado)
Ela é impressionante, porque
nela Greg está como que
falando com Deus, expondo de
modo bastante claro seu
pensamento ateísta:
"Pai você me escuta?
Como eu o desapontei?
Eu amaldiçôo o dia em que
nasci
E todo o sofrimento nesse
mundo
Me deixe te levar para o
lado ruim
Onde todos os homens bons
são pisoteados
Apenas para fazer uma aposta
que não poderia ser vencida
Entre um pai orgulhoso e seu
filho
Você me guiará agora porque
não posso ver
Uma razão para esse
sofrimento e toda essa
miséria
E se toda alma viva pudesse
ser correta e forte
Bem, então eu imagino
Não haverá sofrimento
Não haverá sofrimento
E não haverá sofrimento, não
mais
Quando todos os soldados
abaixarem suas armas
Ou quando todos reis e
rainhas abrirem mão de suas
coroas
Ou quando o verdadeiro
Messias nos resgatar de nós
mesmos
É fácil imaginar
Não haverá sofrimento
Não haverá sofrimento
E não haverá sofrimento, não
mais"
É interessante porque
podemos fazer uma relação
entre essa letra e o texto
de Jó. Jó também amaldiçoou
o dia em que nasceu depois
de tanto sofrimento, o que
contraria aquele ditado
popular sobre ele. Na
verdade, no final Jó acaba
acusando Deus. De modo
semelhante, a letra
demonstra o sentimento de
culpa ao se ver punido por
Deus pelo sofrimento do
mundo. Camus também foi por
essa linha em sua filosofia
ateísta. A letra também
lembra o texto de
Lamentações, em que o autor
discorre sobre o sofrimento
imposto por Deus, não pelo
Diabo, aos homens, inclusive
aos homens bons. Na letra de
Sorrow, é como se este fosse
um lado ruim que é ignorado,
mas na verdade há várias
referências a afirmações
dessa natureza no antigo
testamento. Na letra, a fé é
comparada a uma aposta, o
que provavelmente é uma
referência à aposta de
Pascal. Mas o mais
interessante é que a letra
está criticando uma teologia
que identifica Deus com uma
divindade que teria
interesse prioritário no
bem-estar humano, ou na
satisfação dos desejos e
ideais humanos, por mais
nobres que sejam.
O autor da letra diz que não
compreende a razão para
tanto sofrimento e miséria,
e logo em seguida afirma
implicitamente que há uma
injustiça na exigência moral
da religião cristã.
Novamente, ele está
criticando uma teologia em
que Deus é um tirano que
pune com o sofrimento
aqueles que não conseguem
ser perfeitos como deveriam.
A promessa de que todo
sofrimento cessará é vista
como uma ilusão criada para
justificar a condição
humana. Condição essa que
seria permitida por Deus, se
o autor acreditasse na sua
existência. Contra esta
promessa, o autor oferece
uma visão da realidade em
que os soldados não irão
simplesmente abaixar suas
armas, e os poderosos não
vão desistir do seu poder
por si sós. Isso implica que
se algo não for feito pelas
pessoas, nada irá mudar. O
sofrimento irá continuar,
porque a ação humana é a
única coisa capaz de
diminuir o sofrimento
humano. Este é um ideal
secular humanista. Posto
isso, posso dizer que
concordo com as críticas de
Greg Graffin. As visões
teológicas que ele critica
são as mesmas que eu
critico, porém no final ele
apresenta uma outra visão
teológica (ou antropológica,
depende do ponto de vista):
o homem como auto-redentor,
substituindo Deus.
É, eu acho que as letras do
Bad Religion ainda me fazem
pensar muito.
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