Sofrimento e ateísmo

postado em 29/05/2011 20:24 por Janos Biro

Greg Graffin, vocalista da banda Bad Religion, é formado em Antropologia e seu doutorado foi sobre Darwin e a religião. Ele leciona Ciências da Vida na UCLA. Outro punk com doutorado é Mao, vocalista da banda Garotos Podres, que se doutorou em história com uma tese sobre a Revolução Cubana e anarquia.

Outro dia eu estava pensando na letra dessa música:

Bad Religion - Sorrow (legendado)

Ela é impressionante, porque nela Greg está como que falando com Deus, expondo de modo bastante claro seu pensamento ateísta:

"Pai você me escuta?
Como eu o desapontei?
Eu amaldiçôo o dia em que nasci
E todo o sofrimento nesse mundo

Me deixe te levar para o lado ruim
Onde todos os homens bons são pisoteados
Apenas para fazer uma aposta que não poderia ser vencida
Entre um pai orgulhoso e seu filho
Você me guiará agora porque não posso ver
Uma razão para esse sofrimento e toda essa miséria
E se toda alma viva pudesse ser correta e forte
Bem, então eu imagino

Não haverá sofrimento
Não haverá sofrimento
E não haverá sofrimento, não mais

Quando todos os soldados abaixarem suas armas
Ou quando todos reis e rainhas abrirem mão de suas coroas
Ou quando o verdadeiro Messias nos resgatar de nós mesmos
É fácil imaginar

Não haverá sofrimento
Não haverá sofrimento
E não haverá sofrimento, não mais"

É interessante porque podemos fazer uma relação entre essa letra e o texto de Jó. Jó também amaldiçoou o dia em que nasceu depois de tanto sofrimento, o que contraria aquele ditado popular sobre ele. Na verdade, no final Jó acaba acusando Deus. De modo semelhante, a letra demonstra o sentimento de culpa ao se ver punido por Deus pelo sofrimento do mundo. Camus também foi por essa linha em sua filosofia ateísta. A letra também lembra o texto de Lamentações, em que o autor discorre sobre o sofrimento imposto por Deus, não pelo Diabo, aos homens, inclusive aos homens bons. Na letra de Sorrow, é como se este fosse um lado ruim que é ignorado, mas na verdade há várias referências a afirmações dessa natureza no antigo testamento. Na letra, a fé é comparada a uma aposta, o que provavelmente é uma referência à aposta de Pascal. Mas o mais interessante é que a letra está criticando uma teologia que identifica Deus com uma divindade que teria interesse prioritário no bem-estar humano, ou na satisfação dos desejos e ideais humanos, por mais nobres que sejam.

O autor da letra diz que não compreende a razão para tanto sofrimento e miséria, e logo em seguida afirma implicitamente que há uma injustiça na exigência moral da religião cristã. Novamente, ele está criticando uma teologia em que Deus é um tirano que pune com o sofrimento aqueles que não conseguem ser perfeitos como deveriam. A promessa de que todo sofrimento cessará é vista como uma ilusão criada para justificar a condição humana. Condição essa que seria permitida por Deus, se o autor acreditasse na sua existência. Contra esta promessa, o autor oferece uma visão da realidade em que os soldados não irão simplesmente abaixar suas armas, e os poderosos não vão desistir do seu poder por si sós. Isso implica que se algo não for feito pelas pessoas, nada irá mudar. O sofrimento irá continuar, porque a ação humana é a única coisa capaz de diminuir o sofrimento humano. Este é um ideal secular humanista. Posto isso, posso dizer que concordo com as críticas de Greg Graffin. As visões teológicas que ele critica são as mesmas que eu critico, porém no final ele apresenta uma outra visão teológica (ou antropológica, depende do ponto de vista): o homem como auto-redentor, substituindo Deus.

É, eu acho que as letras do Bad Religion ainda me fazem pensar muito.